CINEMA

Ator de "Curral" se inspirou em jovens políticos da vida real: "É tudo moldado e muito falso"

O JC conversou com Marcelo Brennand, diretor do longa-metragem, e Rodrigo García, que vive o jovem aspirante a político Joel

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Emannuel Bento

Publicado em 10/11/2021 às 21:02 | Atualizado em 14/11/2021 às 17:28
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O filme "Curral", dirigido por Marcelo Brennand, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (11), após passar por vários festivais internacionais. A trama é ambientada durante as eleições de Gravatá, no Agreste de Pernambuco. Demitido do emprego a mando de um prefeito despótico, Chico Caixa (Thomás Aquino) aceita participar da campanha para vereador de Joel (Rodrigo Garcia), advogado que se vende como integrante da "nova política".

Leia a crítica do longa: Em "Curral", Gravatá vira espelho do jogo político brasileiro

"O que me ajudou a fazer o filme com mais segurança foi o documentário "Porta a Porta: A Política em dois tempos", que lancei em 2010. Eu vivenciei e passei um grande tempo na cidade de Gravatá, acompanhando a política e todo o impacto social que ela tem no interior de Pernambuco e do Nordeste. Na carência, as pessoas acabam vendendo seus direitos”, diz Marcelo Brennand, em entrevista ao JC.

"Também decidi fazer o filme em Gravatá por conta das suas contradições. A cidade é um pouco do reflexo do Brasil. Fica localizada no Agreste e é conhecida como Suíça brasileira, mas falta água. O homem e o lugar se entrelaçam em suas contradições", continua Brennand.

Daniela Nader/DIVULGAÇÃO
MARCELO BRENNAND NAS FILMAGENS DE 'CURRAL' - Daniela Nader/DIVULGAÇÃO

Contrariando a ideia de que o "curral eleitoral" é uma realidade exclusiva do Nordeste, Brennand afirma que o filme pode gerar identificação em qualquer local do Brasil. "É interessante pensar que o que ocorre no rural é uma ilustração em escala menor do jogo político que acontece em qualquer lugar do mundo. Os direitos são trocados por bens materiais e uma ideia de futuro."

Para além do Brasil, o diretor reforça que o filme gerou identificação em diversos países. Quando foi exibido, por exemplo, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, conquistou políticos franceses. Por iniciativa da vereadora Geneviève Garrigos, ganhou exibição só para convidados na Prefeitura de Paris. "Eu percebi que os debates dos protagonistas do filme são, na verdade, universais. Não importa a cultura que pertencemos. Quando pensamos em Paris, esquecemos que lá também tem periferia, claro que nas devidas proporções."

Marcelo Brennand prepara novos filmes (ainda embrionários) no Recife e em São Paulo. "O cinema brasileiro está passando por um momento muito difícil", desabafa. "É um cinema de resiliência e resistência. Você analisa os últimos 60 anos do cinema, tivemos ditadura, o fechamento da Embrafilme, e agora vemos novamente a censura."

"Os políticos não são bons atores", diz Rodrigo Garcia

DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
Rodrigo Garcia, ator que interpreta Joel Advogado, no longa Curral ,do diretor Marcelo Brennand. - DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO

Conhecido por personagens como Paulete, do premiado "Tatuagem", e Vicente, da novela "Amor de Mãe", Rodrigo Garcia vive Joel, jovem advogado que se candidata a vereador com o desejo de mudar a política. Apesar de se vender como novo, ele carrega consigo tradições da política em diversas camadas - social, racial e de classe.

"No começo, quando eu não estava muito maduro sobre o personagem, fui para políticos de centro, centro-esquerda e centro-direita. São pessoas que aparentemente protegem algo, mas ficam numa coisa superficial, num discurso ilusório. No final das contas, defendem apenas o status social político", conta Rodrigo.

"Depois, notei que os políticos mais antigos não condiziam tanto com essa ilusão que o meu personagem tem. Os jovens acreditam, mas não sabem onde estão se metendo e acham que vão mudar algo. O sistema político está aí há muito tempo. Ninguém consegue dizer que fará algo sem fazer alguma corrupção, alguma coisa estranha", continua.

DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
COTIDIANO Rodrigo García (D) é Joel, advogado que precisa conquistar uma base de votos dos bairros carentes para vencer a eleição para vereador. Personagem leva à tela a rotina das campanhas eleitorais no interior nordestino - DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
Stll do longa Curral, do diretor Marcelo Brennand. - DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO
Stll do longa Curral, do diretor Marcelo Brennand. - DANIELA NADER/DIVULGAÇÃO

Rodrigo Garcia, então, começou a observar jovens políticos. "Principalmente os que são novos na idade mesmo, que condizem um pouco até com o meu rosto", diz o ator, que admite ter se inspirado bastante num político em específico, apesar de não citar o seu nome. "É muito óbvio o jeito que essas pessoas falam e se comportam, pois é tudo moldado e muito falso. A gente vê que é algo completamente construído, algo que até os telejornais perderam um pouco, com novas linguagens. No mundo político não existe esse discernimento, eles não são bons atores e nós entendemos que tem algo superficial e falso."

Garcia conta que gravar em Gravatá foi fundamental para o personagem. "Muita gente ali é real. O pessoal do assentamento, por exemplo, foi gigante na hora de contracenar. Com eles nem precisamos atuar. Você entende que aquelas pessoas são reais e estão reivindicando direitos fundamentais, como água", diz. "Foi importante para eu acreditar no que eu estava fazendo."

"Curral "é uma produção de Bárbara Maranhão e Marcelo Brennand. O filme tem roteiro de Brennand, Fernando Honesko e Marcelo Muller. Com distribuição da Pandora Filmes, teve sua première mundial na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e já conquistou os prêmios de Melhor Ator (Thomás Aquino) e o prêmio de Melhor Contribuição Técnico-Artística no 46 Festival de Huelva (Espanha), Melhor Longa-metragem de Ficção no Festival de Cinema do Brooklyn (Nova Iorque) e Melhor Ator no 25º Inffinito Brazilian Film Festival.

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