foto : Museu Clube da Esquina “A cidade era pequena, as pessoas frequentavam mais ou menos os mesmos lugares. Era inevitável que um dia a gente se encontrasse”, assim o compositor Fernando Brant, falecido nesta madrugada, em Belo Horizonte (completaria 69 anos em outubro), resume como conheceu Milton Nascimento, seu principal parceiro, em composições como Travessia, Canção da América e Maria Maria. Filho de juiz de Direito, Fernando Brant, nasceu em Caldas, em 9 de outubro de 1946, e passou a infância mudando de cidade, para se estabelecer já adolescente em Belo Horizonte, no começo dos anos 60, onde fez amizade com o pessoal ligado às artes, música, cinema. Em 1967, Milton Nascimento ofereceu-lhe uma melodia para que ele colocasse letra. Embora lesse “desbragadamente”, como contou em uma entrevista, Brant só escrevia em jornal de colégio, portanto disse ao amigo que não mexia com aquilo, que tentasse com Márcio Borges. Milton sugeriu um tema, insistiu, até que ele aceitou, e escreveu sobre uma separação, alguém que vai embora. A canção recebeu o título de Travessia, a primeira das centenas de letras que Fernando Brant escreveria para Milton Nascimento, e para quase todos os sócios do imaginário Clube da Esquina, uma das vertentes mais importantes e influentes da música popular brasileira. Travessia já nasceu clássica. A música tirou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção, levou Milton a ser contratado por uma gravadora americana, e Fernando Brant a morar no Rio, dividindo apartamento com dois pernambucanos, o baixista Novelli, e o percussionista Naná Vasconcelos, e trabalhando na revista O Cruzeiro, enquanto continuava o curso de Direito. Jornalista, escritor, cronista do jornal Estado de Minas, Brant apenas com Milton Nascimento assinou cerca de duzentas composições. Como principal letrista da turma do clube mineiro, foi parceiro de praticamente todos os associados, de Toninho Horta aos irmãos Borges. Engajado em movimentos pela abertura democrática (como o Diretas Já), pelos direitos autorais, Fernando Brant também participou da linha de frente pelos direitos autorais, foi presidente de associação de compositores, entre estas a UBC. COM O QUINTETO Notícias do Brasil (os pássaros), baião de Fernando Brant e Milton Nascimento, está no álbum Desafio (1981), primeiro LP independente do Quinteto Violado, e foi um presente da dupla ao grupo recifense, que pretendia fazer mais um disco conceitual, desta vez como um jornal. Brant e Milton compuseram a canção para este “jornal”. No mesmo ano Milton Nascimento gravaria a música para o disco Caçador de mim. Em 1982, o QV a regravaria, e batizou de Notícias do Brasil o álbum que lançou pela RGE. Em 2008, o baixista Toinho Alves pediu ao flautista do quinteto, Ciano Alves, algumas composições que ele tinha guardadas: “Toinho disse que ia mandar uma para Fernando Brant botar letra. Eu achei que ele estivesse brincando. Como Fernando, que compunha com feras feito Milton, iria botar letra numa música minha?”, indagou o flautista. Toinho Alves morreria naquele mesmo ano. Em 2010, Fernando Brant veio ao Recife participar da Feira de Música Brasil. Ciano encontrou-se com ele e Brant entregou-lhe uma folha de papel com uma letra longa: “Ele disse que se chamava Agreste e tinha feito em homenagem a Toinho”, conta Ciano. A música, com o nome de Voz do agreste, foi gravada pelo Quinteto Violado no DVD e CD 40 anos (2012), gravado ao vivo no Teatro Dona Lindu, registro de show realizado em 20 de outubro de 2011. Confiram o Quinteto Violado em Voz do agreste, de Fernando Brant e Milton Nascimento: