Segurança | Notícia

Unidades de saúde do Recife vão usar IA para identificar violências sofridas por crianças e adolescentes

Tecnologia, em fase de estudo, é semelhante à implementada para indicar sinais de violência doméstica em mulheres atendidas na rede pública da capital

Por Raphael Guerra Publicado em 02/10/2026 às 10:49 | Atualizado em 02/10/2026 às 11:07

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Uma tecnologia está sendo desenvolvida para ajudar a identificar sinais de violência em crianças e adolescentes que são atendidos em unidades de saúde da rede pública do Recife. O objetivo é auxiliar os profissionais da área na notificação dos casos, permitindo que a rede de proteção aja antes que a situação se agrave e que óbitos venham a ocorrer. 

A ferramenta, com uso de inteligência artificial, é semelhante à adotada desde março em parte das unidades de saúde da capital para apontar sinais de violência doméstica nas pacientes. Nos casos detectados, os profissionais de saúde fazem uma abordagem humanizada a essas mulheres e apresentam a rede de proteção disponível. 

Segundo a secretária executiva de Vigilância em Saúde do Recife, Marcella Abath, a tecnologia deve ser implementada a partir do ano que vem. O primeiro foco será nos casos de violência autoprovocada por crianças e adolescentes. 

"Observamos um aumento das notificações de casos de violência autoprovocada nessa faixa etária, por isso a escolha de começar a usar a ferramenta identificando esses casos para que medidas de prevenção possam ser adotadas para evitar, inclusive, o suicídio", explicou Marcella.

Levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborado a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), apontou que, a cada dez minutos, um caso de autoagressão envolvendo adolescentes e jovens com idades de 10 a 19 anos é registrado no país. Em Pernambuco, 2.078 casos foram notificados em 2023. No ano seguinte, o número subiu para 2.156. 

A nova tecnologia está sendo criada por pesquisadores da Vital Strategies, organização global de saúde pública sem fins lucrativos, e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Prefeitura do Recife, que também foram responsáveis pelo desenvolvimento da Clara IA - voltada à identificação de mulheres vítimas de violência doméstica.

Raphael Guerra/JC
Em São Paulo, 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância discutiu estratégias de prevenção e resposta à violência - Raphael Guerra/JC

Marcella Abath detalhou a experiência com o uso dessa IA durante debate no 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, em São Paulo, na última quarta-feira (30/09). O evento foi promovido pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), organização de filantropia e advocacy da Fundação José Luiz Setúbal. O JC esteve presente no fórum. 

PREVENÇÃO ÀS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA

A Clara IA atua a partir da análise de dados clínicos e históricos registrados nos sistemas de saúde. Quando identifica sinais compatíveis com situações de violência, a ferramenta emite um alerta aos profissionais. A notificação aparece no prontuário eletrônico das Unidades Básicas de Saúde durante o atendimento da mulher, permitindo que a equipe de saúde aborde essas pacientes e as oriente sobre como elas podem pedir proteção. 

Durante o desenvolvimento da IA, foram analisados registros de atendimento de cerca de 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família ao longo de 10 anos. A partir disso, houve o cruzamento de dados do Sinan, permitindo a identificação de sinais diretos de agressão e de padrões de adoecimento e comportamento frequentemente associados às vítimas de violência doméstica.

A análise identificou ainda um padrão consistente entre vítimas de feminicídio no Recife. Nos 90 dias que antecedem os crimes, as mulheres passam a procurar com maior frequência os serviços de saúde, geralmente com queixas relacionadas à saúde mental, mas nem sempre relatando estar sofrendo algum tipo de violência doméstica.

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Reprodução de tela mostrando como é feito o alerta no momento em que a tecnologia analisa as informações - DIVULGAÇÃO

No fórum, Marcella Abath relatou que os alertas emitidos pela Clara IA sensibilizaram os profissionais de saúde. "Eles próprios relatam que houve um acolhimento maior a essas mulheres. Uma profissional disse que mudou até o tom de voz."

Atualmente, unidades de saúde de quatro dos oito distritos sanitários do Recife já usam a tecnologia. A promessa é de que, até maio de 2027, esteja implementada em toda a rede. 

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Raphael Guerra

rguerra@tvjornal.com.br

Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 2011, faz a cobertura de temas ligados ao cotidiano, com foco em segurança pública, Justiça e direitos humanos. Escritor, com dois livros-reportagem publicados. Mais de 30 prêmios de jornalismo, entre nacionais e regionais. Me siga no Twitter: @raphaelguerra