Unidades de saúde do Recife vão usar IA para identificar violências sofridas por crianças e adolescentes
Tecnologia, em fase de estudo, é semelhante à implementada para indicar sinais de violência doméstica em mulheres atendidas na rede pública da capital
Clique aqui e escute a matéria
Uma tecnologia está sendo desenvolvida para ajudar a identificar sinais de violência em crianças e adolescentes que são atendidos em unidades de saúde da rede pública do Recife. O objetivo é auxiliar os profissionais da área na notificação dos casos, permitindo que a rede de proteção aja antes que a situação se agrave e que óbitos venham a ocorrer.
A ferramenta, com uso de inteligência artificial, é semelhante à adotada desde março em parte das unidades de saúde da capital para apontar sinais de violência doméstica nas pacientes. Nos casos detectados, os profissionais de saúde fazem uma abordagem humanizada a essas mulheres e apresentam a rede de proteção disponível.
Segundo a secretária executiva de Vigilância em Saúde do Recife, Marcella Abath, a tecnologia deve ser implementada a partir do ano que vem. O primeiro foco será nos casos de violência autoprovocada por crianças e adolescentes.
"Observamos um aumento das notificações de casos de violência autoprovocada nessa faixa etária, por isso a escolha de começar a usar a ferramenta identificando esses casos para que medidas de prevenção possam ser adotadas para evitar, inclusive, o suicídio", explicou Marcella.
Levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborado a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), apontou que, a cada dez minutos, um caso de autoagressão envolvendo adolescentes e jovens com idades de 10 a 19 anos é registrado no país. Em Pernambuco, 2.078 casos foram notificados em 2023. No ano seguinte, o número subiu para 2.156.
A nova tecnologia está sendo criada por pesquisadores da Vital Strategies, organização global de saúde pública sem fins lucrativos, e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Prefeitura do Recife, que também foram responsáveis pelo desenvolvimento da Clara IA - voltada à identificação de mulheres vítimas de violência doméstica.
Marcella Abath detalhou a experiência com o uso dessa IA durante debate no 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, em São Paulo, na última quarta-feira (30/09). O evento foi promovido pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), organização de filantropia e advocacy da Fundação José Luiz Setúbal. O JC esteve presente no fórum.
PREVENÇÃO ÀS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
A Clara IA atua a partir da análise de dados clínicos e históricos registrados nos sistemas de saúde. Quando identifica sinais compatíveis com situações de violência, a ferramenta emite um alerta aos profissionais. A notificação aparece no prontuário eletrônico das Unidades Básicas de Saúde durante o atendimento da mulher, permitindo que a equipe de saúde aborde essas pacientes e as oriente sobre como elas podem pedir proteção.
Durante o desenvolvimento da IA, foram analisados registros de atendimento de cerca de 16 mil mulheres vítimas de violência atendidas nas Unidades de Saúde da Família ao longo de 10 anos. A partir disso, houve o cruzamento de dados do Sinan, permitindo a identificação de sinais diretos de agressão e de padrões de adoecimento e comportamento frequentemente associados às vítimas de violência doméstica.
A análise identificou ainda um padrão consistente entre vítimas de feminicídio no Recife. Nos 90 dias que antecedem os crimes, as mulheres passam a procurar com maior frequência os serviços de saúde, geralmente com queixas relacionadas à saúde mental, mas nem sempre relatando estar sofrendo algum tipo de violência doméstica.
No fórum, Marcella Abath relatou que os alertas emitidos pela Clara IA sensibilizaram os profissionais de saúde. "Eles próprios relatam que houve um acolhimento maior a essas mulheres. Uma profissional disse que mudou até o tom de voz."
Atualmente, unidades de saúde de quatro dos oito distritos sanitários do Recife já usam a tecnologia. A promessa é de que, até maio de 2027, esteja implementada em toda a rede.