Segurança | Notícia

Presos comandam pavilhões e até acesso à atendimento jurídico no Presídio de Igarassu, aponta relatório

Documento da Defensoria Pública obtido pelo JC descreve superlotação de quase 500%, falhas estruturais, comércio ilegal e privilégios para detentos

Por Raphael Guerra Publicado em 04/08/2026 às 9:56 | Atualizado em 04/08/2026 às 11:11

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O Presídio de Igarassu, um dos mais superlotados e precários de Pernambuco, permanece sem controle de segurança e com detentos liderando pavilhões e determinando as regras - inclusive de quem pode comercializar mercadorias irregularmente ou receber atendimento jurídico. 

Relatório da Defensoria Pública de Pernambuco, concluído na última semana e obtido com exclusividade pelo Jornal do Commercio, detalhou o cenário encontrado durante uma vistoria realizada no final de maio. Sem surpresas, os defensores públicos constataram uma série de irregularidades, incluindo a falta de alvará de funcionamento e de laudos de vistoria do Corpo de Bombeiros, pondo em risco servidores e reeducandos.  

A fiscalização surpresa teve como objetivo avaliar se houve melhorias no Presídio de Igarassu dois anos após a último monitoramento realizado pela Defensoria. Mas, na avaliação dos profissionais, a situação se agravou por conta com aumento da população carcerária.

O documento citou que a unidade prisional tem capacidade oficial de 1.226 vagas. Mas, no dia da inspeção, havia 6.127 pessoas presas, com taxa de ocupação de 499,8%, ou seja, um quadro de extrema superlotação com ocupação quase cinco vezes superior à capacidade.

"As quadras de cada pavilhão são os locais não originalmente destinados ao alojamento mais utilizados para acomodação das pessoas. Destacando-se uma cela projetada para sete pessoas e ocupada por 25 presos", descreveu o relatório.

DPPE/REPRODUÇÃO
Com celas superlotadas no Presídio de Igarassu, espaços são improvisados para que presos possam dormir - DPPE/REPRODUÇÃO

Os defensores públicos apontaram indícios de que alguns presos têm privilégios na unidade. Citaram, por exemplo, que há celas individuais, com banheiro próprio, com sanitário e chuveiro, e água contínua. Enquanto há pavilhões com alta restrição de água e "cinco chuveiros e três sanitários por aproximadamente trezentas pessoas".

No ano passado, o Presídio de Igarassu foi alvo de duas operações da Polícia Federal para desarticular o forte esquema de corrupção. Um ex-diretor, um ex-secretário executivo e vários policiais penais foram presos preventivamente. Todos viraram réus na Justiça. 

PRESOS COMANDAM CANTINAS

A vistoria constatou que detentos conhecidos como chaveiros continuam dando ordens nos pavilhões, ditando regras e até escolhendo presos que podem comandar as cantinas para venda irregular de mercadorias e com preços superfaturados. Mesmo problema denunciado pelo Conselho Penitenciário de Pernambuco (Copen/PE) recentemente. 

DPPE/REPRODUÇÃO
Utensílios usados para alimentação dos presos em Igarassu são improvisados e precários - DPPE/REPRODUÇÃO

A Defensoria pontou que o presídio tem dez pavilhões com cantinas em funcionamento. "A Gerência informou que, recentemente, foram desativadas duas cantinas (pavilhão G e M), no entanto não foi esclarecido por qual razão foram essas as cantinas escolhidas ou, por outro ângulo, porque não se fecharam as demais", disse o documento.

"A Gerência não adota procedimento específico para a escolha ou substituição dos responsáveis e também não existe controle ou regulamentação interna sobre o funcionamento das cantinas, inclusive quanto à definição e fiscalização dos preços praticados", completou. 

"PONTOS CEGOS" CONTROLADOS POR PRESOS

O relatório da Defensoria Pública descreveu que o Presídio de Igarassu conta com 106 policiais penais lotados. E que nos últimos doze meses não houve registro de fugas, rebeliões ou homicídios.

Em relação ao videomonitoramento, há equipamentos instalados em corredores, pátios e áreas comuns. "Não existem câmeras dentro das celas e os pontos cegos são controlados por outras pessoas presas."

FALTA DE HIGIENE NA PRODUÇÃO DE COMIDA

DPPE/REPRODUÇÃO
Cozinha apresenta má higiene e presos responsável pela comida não usam proteção básica - DPPE/REPRODUÇÃO

As refeições no Presídio de Igarassu são preparadas por cerca de 110 trabalhadores em concessão. Os defensores recebeu a informação de que são fornecidos equipamentos de proteção individual aos trabalhadores (botas, luvas e toucas), embora não seja possível fiscalizar a todo tempo a sua utilização.

A equipe de inspeção observou que as pessoas utilizavam touca e apenas alguns usavam botas. Os trabalhadores na padaria estavam sem luvas e com sandálias. 

No dia da vistoria, a cozinha apresentava "condições extremamente precárias, com instalações deterioradas, equipamentos insuficientes e deteriorados, piso quebrado e de difícil limpeza".

A equipe reforçou que o cenário compromete a segurança alimentar das pessoas presas por risco de contaminações e doenças.

CHAVEIROS INDICAM QUEM PODE RECEBER ATENDIMENTO JURÍDICO

Uma das situações mais graves identificadas na vistoria diz respeito ao atendimento jurídico dos presos. Relatos deles próprios indicaram que o encaminhamento à Defensoria Pública ocorre por meio dos chaveiros e dos setores psicossocial e jurídico do Presídio de Igarassu, mas o período de espera é muito longo, chegando a ultrapassar mais de um ano. 

"Um entrevistado relatou que só conseguiu ser encaminhado ao atendimento da Defensoria Pública mediante pagamento: 'só leva se pagar'", apontou o relatório. 

Durante a vistoria, os defensores receberam vários pedidos de atendimento e encaminharam a relação à equipe responsável para as providências cabíveis. 

O QUE DIZ A SEAP?

Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) afirmou que vem evitando encaminhar novos presos para Igarassu. "Nos últimos três meses, esse plano de contingenciamento possibilitou a redução de mais de 1.400 custodiados na unidade."

Em relação às cantinas, a pasta declarou que permanece em execução, em parceria com o Ministério Público de Pernambuco, o plano de ação para a redução gradual e o posterior encerramento do funcionamento delas nas unidades. 

E com relação às câmeras, a Seap disse que, em respeito aos direitos fundamentais, "não é permitida a instalação desses equipamentos no interior das celas, sendo o monitoramento realizado exclusivamente nas áreas comuns".

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Raphael Guerra

rguerra@tvjornal.com.br

Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 2011, faz a cobertura de temas ligados ao cotidiano, com foco em segurança pública, Justiça e direitos humanos. Escritor, com dois livros-reportagem publicados. Me siga no Twitter: @raphaelguerra