SDS afasta policial flagrado com vereadores suspeitos de desvio de emendas em Ipojuca
Comissário que era lotado na Diretoria de Inteligência da Polícia Civil foi visto com parlamentares em carro em Boa Viagem, em novembro de 2025
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Após quase três meses, a Secretaria de Defesa Social (SDS) decidiu afastar das funções o policial civil da área de inteligência flagrado em um carro com vereadores de Ipojuca suspeitos de desvios milionários de emendas parlamentares impositivas. O profissional é o mesmo que pode ter envolvimento no vazamento de informações sobre o monitoramento de um secretário da Prefeitura do Recife.
A portaria, obtida com exclusividade pela coluna Segurança, foi publicada nesta sexta-feira (6).
O Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), suspeita que o comissário Sérgio José dos Santos, então lotado na Diretoria de Inteligência da Polícia Civil de Pernambuco, teria participado de "reunião clandestina" para repassar informações da investigação contra vereadores de Ipojuca.
Na noite de 19 de novembro de 2025, o presidente da Câmara de Ipojuca, Flávio Henrique do Rêgo Souza, conhecido como Flávio do Cartório (PSD); o vice-presidente, Professor Eduardo (PSD); e o vereador Júlio Marinho (PP) foram flagrados com o policial no estacionamento do supermercado Mix Mateus, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.
Na semana passada, após apuração preliminar, a Corregedoria da SDS instaurou um procedimento administrativo disciplinar (PAD) em desfavor do comissário, também investigado pelo MPPE.
Já a portaria determinando o afastamento dele das funções foi assinada pelo secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho. O texto afirma que a medida tem o objetivo de "garantir a ordem pública, a instrução regular do processo disciplinar e a viabilização da correta aplicação de sanções disciplinares, já que recai sobre ele indícios de práticas de atos incompatíveis com as funções públicas".
O prazo inicial é de 120 dias, podendo ser prorrogado - caso a investigação do PAD não tenha sido concluída. Ficou determinado, ainda, que a Diretoria de Recursos Humanos, no prazo de 24 horas, recolha a identificação funcional do policial, além de armas e outros utensílios funcionais.
O policial civil e a defesa dele não foram encontrados para comentar o caso.
"REUNIÃO CLANDESTINA"
Na avaliação do MPPE, o encontro entre o policial e os vereadores se tratava de uma "reunião clandestina", com o objetivo de monitorar e frustrar a investigação sobre os desvios milionários.
No momento do flagrante, ocorrido um dia antes da segunda fase da operação Alvitre, o presidente e o vice da Câmara de Ipojuca foram autuados por suspeita de lavagem de dinheiro. Na ocasião, a polícia indicou que eles estavam com uma sacola com mais de R$ 14 mil em dinheiro e com anotações de valores de possível esquema de "rachadinha".
Na audiência de custódia, a Justiça decidiu pela liberdade provisória de ambos, mas Flávio permaneceu preso porque havia um mandado de prisão preventiva contra ele.
Após o episódio, o comissário foi removido da Dintel, mas não estava afastado das funções.
O caso está sendo investigado pela Delegacia de Porto de Galinhas desde outubro de 2024, quando denúncias apontaram que associações estavam sendo beneficiadas com milhões de reais ilegalmente por meio de emendas parlamentares impositivas autorizadas por vereadores e pagas pela Prefeitura de Ipojuca.
Somente entre 2022 e 2024, os valores ultrapassaram R$ 39 milhões.
Como se tratam de emendas impositivas, a Prefeitura é obrigada a fazer o repasse dos valores. No entanto, uma comissão é responsável por avaliar documentação como garantia de que as entidades beneficiadas cumprem com todas as regras previstas em lei.
VAZAMENTO DE APURAÇÃO CONTRA SECRETÁRIO MUNICIPAL
A SDS também apura se o mesmo comissário da inteligência foi o responsável pelo vazamento de informações sobre a apuração de denúncia anônima contra Gustavo Queiroz Monteiro, secretário de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife.
O policial era um dos dez integrantes da Dintel que faziam parte de um grupo de WhatsApp criado para trocar mensagens sobre a investigação de que um veículo locado pela gestão municipal estaria sendo usado para supostos pagamentos de propina.
O carro foi monitorado entre agosto e outubro de 2025, segundo a SDS. A apuração acabou arquivada por falta de provas.
"Houve violação do sigilo profissional. Muito provavelmente pelo policial que foi afastado em novembro [da Dintel] e que estava passando informações para uma organização criminosa. Essa é uma hipótese que estamos apurando", afirmou Alessandro Carvalho, em coletiva de imprensa, em 26 de janeiro.