Policial é investigado após reunião com vereadores sobre desvios de emendas em Ipojuca

Comissário da Diretoria de Inteligência da Polícia Civil foi flagrado com parlamentares em carro em Boa Viagem. MPPE suspeita de possível cooptação

Por Raphael Guerra Publicado em 13/01/2026 às 11:06 | Atualizado em 19/01/2026 às 15:33

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A Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) instaurou uma investigação preliminar para apurar a conduta do policial civil flagrado em um carro com vereadores do município de Ipojuca, no Grande Recife. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) suspeita que o então comissário da Diretoria de Inteligência da Polícia Civil (Dintel) estaria sendo cooptado para monitorar o inquérito dos desvios milionários de emendas parlamentares autorizadas pela Câmara Municipal

A investigação preliminar foi confirmada pela SDS à coluna Segurança. Na noite de 19 de novembro de 2025, o presidente da Câmara de Ipojuca, Flávio Henrique do Rêgo Souza, conhecido como Flávio do Cartório (PSD); o vice-presidente, Professor Eduardo (PSD); e o vereador Júlio Marinho (PP) foram flagrados com o policial no estacionamento do supermercado Mix Mateus, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

Na avaliação do MPPE, o encontro se tratava de uma "reunião clandestina", com o objetivo de fazer o policial civil monitorar a investigação sobre os desvios milionários e frustrar o andamento do caso, conduzido pela Delegacia de Porto de Galinhas.

No momento do flagrante, ocorrido um dia antes da segunda fase da operação Alvitre, o presidente e o vice da Câmara de Ipojuca foram autuados por suspeita de lavagem de dinheiro. Na ocasião, a polícia indicou que eles estavam com uma sacola com mais de R$ 14 mil em dinheiro e com anotações de valores de possível esquema de "rachadinha".

Na audiência de custódia, a Justiça decidiu pela liberdade provisória de ambos, mas Flávio permaneceu preso porque havia um mandado de prisão preventiva contra ele.

POLICIAL DEIXOU A DINTEL

Em nota, a Corregedoria Geral da SDS informou a investigação do comissário pretende apurar "as informações e coletar subsídios necessários à avaliação da eventual instauração de processo administrativo, sob o aspecto ético-disciplinar, em relação à conduta do policial envolvido".

O inquérito sobre os desvios milionários das emendas segue com a Polícia Civil e MPPE. "Enquanto aguarda a conclusão da investigação, o policial envolvido encontra-se exercendo atividades administrativas", afirmou a nota da SDS.

Em parecer à Justiça, promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) destacaram que a permanência da prisão de Flávio do Cartório "não se sustenta apenas na gravidade abstrata dos crimes de peculato, corrupção e lavagem de dinheiro, mas em um fato gravíssimo e concreto: a cooptação de agente de inteligência do Estado para monitorar a investigação e frustrar a aplicação da lei penal".

O MPPE pontuou ainda que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações incompatíveis com a capacidade econômico-financeira declarada de Flávio, no período analisado de 1º de abril de 2021 a 3 de julho de 2024, cujo valor financeiro total foi de R$ 3.717.336,86. 

A análise do Coaf identificou o "fracionamento de depósitos para burlar limites de notificação" e "depósitos em espécie via terminais de autoatendimento sem identificação de origem".

A defesa do presidente da Câmara de Ipojuca ainda não se pronunciou sobre as investigações. 

EMENDAS PARA ASSOCIAÇÃO DO PRESIDENTE DA CÂMARA

O caso está sendo investigado pela Delegacia de Porto de Galinhas desde outubro de 2024, quando denúncias apontaram que associações estavam sendo beneficiadas com milhões de reais ilegalmente por meio de emendas parlamentares impositivas autorizadas por vereadores e pagas pela Prefeitura de Ipojuca. 

Somente entre 2022 e 2024, os valores ultrapassaram mais de R$ 39 milhões. 

Como se tratam de emendas impositivas, a Prefeitura é obrigada a fazer o repasse dos valores. No entanto, uma comissão é responsável por avaliar documentação como garantia de que as entidades beneficiadas cumprem com todas as regras previstas em lei.

A investigação identificou que o presidente da Câmara de Ipojuca é dono de uma das associações beneficiadas com R$ 12 milhões. 

Até 2023, essa entidade funcionava como uma espécie de escolinha de esportes, com recebimento médio de R$ 230 mil. A partir daquele ano, houve um salto para R$ 5 milhões em valores pagos por meio de emendas impositivas.

Segundo o delegado Ney Luiz Rodrigues, a associação passou a fornecer prestação de serviços de saúde, sem capacidade técnica para execução. Parentes do presidente da Câmara também estavam ligados à entidade. 

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