Do acesso à água ao enfrentamento do feminicídio: a luta pioneira do Centro das Mulheres do Cabo
Há mais de 40 anos, mulheres do Cabo de Santo Agostinho, Grande Recife, se organizam para garantir direitos, combater a violência e transformar vidas
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A luta começou pela água. Cansadas de aguardar o poder público, mulheres, em meio ao conturbado período da redemocratização no País, decidiram ir à luta e sair às ruas para cobrar o básico: o fim das torneiras vazias. Foi nesse contexto que surgiu o movimento que daria origem ao Centro das Mulheres do Cabo, organização feminista criada no Cabo de Santo Agostinho, município do Grande Recife, e que existe há mais de quatro décadas.
De caráter pioneiro, o movimento de mulheres encontrou barreiras na tentativa de se expandir ainda na década de 1980. Era um tempo em que a voz feminina não tinha qualquer espaço, sobretudo para discutir pautas políticas. Se falavam, não eram ouvidas. Violência doméstica, nem pensar. Silenciadas e com o tempo voltado quase exclusivamente para o lar, muitas mulheres mal tinham acesso ao conhecimento necessário para quebrar ciclos de opressão e garantir direitos.
Efigênia Oliveira, uma pernambucana à frente do seu tempo, enxergou o silêncio como opção, e não obrigação. Ela foi uma das vozes que abriu espaço para outras e, a partir de 1984, iniciou as atividades do Centro das Mulheres do Cabo, hoje referência em Pernambuco na orientação e apoio ao público feminino e na luta - persistente - pelo fim dos casos de feminicídio.
"Na redemocratização, a sociedade estava esfacelada, desestruturada. Ao mesmo tempo, um grupo de mulheres passou a se reunir para discutir direitos mínimos e buscar melhorias de condições de vida. Esse processo começou com reivindicações e passeatas, despertando a capacidade delas de se expressar", disse.
"As mulheres não trabalhavam, não tinham qualificação, não eram respeitadas. Isso gerou reflexão e cresceu a vontade de ter algo estruturado. Foi após uma manifestação no Dia Internacional da Mulher que veio a decisão de criarmos o Centro, que começou com a luta pela água, saúde e alimentação. Depois apareceu a questão da violência doméstica, que sempre existiu, mas não era discutida", relembrou.
O trabalho voluntário logo chamou a atenção e envolveu moradoras do Cabo de Santo Agostinho - tão marcado nos últimos anos por notícias policiais. O município se destaca no ranking nacional do Anuário Brasileiro de Segurança Pública por apresentar uma das maiores taxas de mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Faltam políticas públicas, sobram adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade e cooptados para o crime.
Com o município esquecido pelo poder público, coube às mulheres voluntárias o esforço para mudar essa realidade.
"A gente observou que muitas moradoras do Cabo tinham problemas de saúde, morriam de câncer sem qualquer tratamento. Com o centro formalizado, a pauta da saúde passou a ser fundamental. Nos unimos para ajudá-las, fazendo cobranças por direitos e serviços básicos", contou Efigênia.
Lucidalva Nascimento ingressou como estagiária de direito na entidade, poucos anos depois da criação. Chegou com a meta de apoiar juridicamente o público feminino. Mas, como relatou à reportagem, a vida dela foi transformada.
"Sou jurista, negra, brasileira. No Centro, me descobri feminista. Há uma pauta forte, com princípios de ética e direitos humanos. Nesse processo de formação, compreendi outros valores sobre o nosso papel na sociedade. Foi importante para a minha formação pessoal, enquanto cidadã, porque a organização nos coloca num lugar de autonomia", definiu.
LUTA PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Com o avanço dos anos e do pensamento crítico, as mulheres do Centro reconheceram que a violência doméstica fazia parte do cotidiano de muitas delas. Agressões psicológicas e físicas estavam dentro de casa. E fora dos lares também. Era hora de ampliar a pauta e lutar pelo respeito dos homens.
“Nos início dos anos 1980 não tinha o arcabouço jurídico que desse conta desse enfrentamento à violência contra a mulher. A Constituição, criada em 1988, falou pela primeira vez que o Brasil tinha violência doméstica. São Paulo foi o primeiro estado a ter uma delegacia especializada. Pernambuco, o segundo”, afirmou Lucidalva.
O Centro passou a acompanhar as mulheres vítimas de violência nas delegacias, cobrando atendimento adequado e investigação prioritária para punição dos agressores.
"Ainda hoje há dificuldades para as mulheres no atendimento nas delegacias. Imagina naquela época?"
A entidade intensificou a vigilância e o posicionamento firme, convocando as vítimas de violência a procurarem ajuda. E, aos poucos, professoras, servidoras públicas e trabalhadoras rurais, todas de bairros mais periféricos, começaram a se encorajar. As primeiras denúncias chegaram à polícia, mas as punições demoraram ou sequer se concretizaram.
Na avaliação de Lucidalva, a Lei Maria da Penha, criada há 19 anos, é um marco no enfrentamento à violência contra a mulher.
"Governos, Justiça, Ministério Público e outros órgãos foram chamados à responsabilidade. Redes de proteção e centros de referência também começaram a ser criados nos estados para ampliar o apoio às vítimas", ressaltou.
A lei definiu tipos de violência doméstica e penas aos autores dos crimes. E, ano após ano, foram adotadas novas medidas para aperfeiçoamento de ações de prevenção e repressão.
A primeira brasileira beneficiada com a Lei Maria da Penha foi justamente no Cabo de Santo Agostinho, graças ao trabalho do Centro das Mulheres do Cabo.
Cileide Cristina da Silva, 56 anos, moradora do bairro da Charneca, área periférica do município, sofria violência doméstica havia mais de duas décadas. Enquanto a polícia tratava o caso como de "menor potencial ofensivo", Lucidalva Nascimento insistiu para que a Lei Maria da Penha fosse aplicada. O autor dos crimes contra Cileide acabou preso, e o ciclo de violência, enfim, foi interrompido. Uma vida foi salva.
"Tem mulheres que até hoje acham que ciúmes é uma coisa boa. Mas ciúmes é uma doença, um vírus que, quando toma conta, acabou-se. Não tem nada a ver com amor", relatou Cileide, em entrevista ao extinto portal El País Brasil, realizada em 2017.
"Fomos nos impondo perante a sociedade. E, por causa do primeiro caso da Lei Maria da Penha, as mulheres passaram a ter confiança no nosso trabalho do Centro", disse Efigênia.
COMBATE AO FEMINICÍDIO COMO PRIORIDADE
Mesmo com tantas campanhas de conscientização e mais rigor nas medidas protetivas e condenações, a violência contra a mulher segue alta no País.
Em 2025, Pernambuco registrou 42.506 queixas de violência doméstica. São registros. Não são todos os casos.
No município do Cabo de Santo Agostinho, foram 1.060. O número, conforme avaliação de especialistas da área, é subnotificado, porque muitas vítimas seguem com medo de denunciar os agressores ou acreditam que não terão atendimento adequado da polícia.
"O medo paralisa", definiu Lucidalva.
"A gente precisa trabalhar mais com a juventude para que ela compreenda o papel da mulher na sociedade. Tudo educa: escola, futebol, igreja, praia. É preciso acabar com essa cultura machista", complementou.
Os casos de feminicídio em Pernambuco saltaram de 76, em 2024, para 88 em 2025. O aumento foi de 15,7%, segundo a SDS.
"Hoje nossa principal luta é contra o feminicídio. Não é possível que ainda aconteçam assassinatos de mulheres. Há mortes todos os dias no País. Não podemos permitir isso. A mulher tem que ser respeitada como ser humano", pontuou Efigênia.
EMPODERAMENTO FEMININO DESDE CEDO
A informação muda vidas. E projetos voltados às crianças e adolescentes são fundamentais para tirá-los da situação de vulnerabilidade tão presente em territórios periféricos e desassistidos pelo poder público.
O empoderamento feminino tem sido um dos focos de pelo menos dois projetos desenvolvidos pelo Centro das Mulheres do Cabo, com apoio de financiamentos internacionais.
O "Meninas em Movimento pela Educação", apoiado pelo Fundo Malala, organização global sem fins lucrativos cofundada pela ativista paquistanesa Malala Yousafzai, realiza um trabalho de formação de meninas ativistas com foco no direito à educação pública de qualidade, por escolas mais seguras e acolhedoras e pelo protagonismo na incidência política por direitos.
O outro projeto se chama "Novas Pérolas", voltando ao enfrentamento ao abuso e exploração sexual de meninas e adolescentes. O tema é fundamental para o Cabo de Santo Agostinho que, nas últimas duas décadas, viu esse tipo de crime crescer à medida em que houve a expansão do Complexo Portuário de Suape e mais trabalhadores passaram a viver na região.
"O projeto fortalece as meninas para saber se defender, compreender como buscar ajuda e cuidar da saúde mental para que encontrem saídas para a situação de abusos. Este projeto é apoiado pela agência inglesa Freedom Found", explicou a coordenadora-geral do Centro, Izabel Santos.
Os casos de estupro de mulheres seguem preocupantes. A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) somou 2.270 registros no ano passado. No Cabo, 54. Números subnotificados, importante reforçar.
No ano passado, com a parceria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), outro projeto foi implementado em dez escolas no Ibura, bairro periférico da Zona Sul do Recife. As ações têm foco na saúde mental de adolescentes e jovens, por meio de atividades culturais e de comunicação.
VOZ FEMININA TAMBÉM NAS ONDAS DO RÁDIO
Há 20 anos, a entidade deu outro passo importante para ampliar a voz feminina: a criação do programa "Rádio Mulher", veiculado na rádio comunitária Calhetas FM, para toda a Mata Sul de Pernambuco.
"A ideia era fazer chegar às mulheres periféricas e da área rural informação sobre saúde e sobre violência. Depois trouxemos para o Cabo. Cada dia o programa trata de um tema e trazemos convidados. Damos voz às mulheres, às meninas e aos gestores prestando contas de ações, levando as agendas dos projetos do Centro e divulgando atividades nas comunidades", disse Izabel Santos.
Temas como racismo, políticas públicas, desigualdades de gênero, política e outras pautas da agenda feminista são discutidos de segunda a sexta-feira, das 8h às 9h, com transmissão também pelas redes sociais (Instagram é @centro.das.mulheres).
"Sinto cada vez mais que o Centro das Mulheres do Cabo é muito necessário, já salvou muitas vidas e continua promovendo empoderamento para muitas mulheres e meninas", definiu Izabel, que integra a entidade desde 2002.
ASSISTA AO DOCUMENTÁRIO PRODUZIDO PELO CENTRO DAS MULHERES DO CABO