Advogado de ex-diretor do Presídio de Igarassu detalha suposto esquema de entrada de celulares a pedido de policiais
Segundo George Freire, aparelhos com aplicativo espião eram repassados ilegalmente a presos para que eles fossem monitorados em investigações

A defesa do ex-diretor Charles Belarmino de Queiroz, um dos presos na operação que investiga corrupção no Presídio de Igarassu, detalhou como funcionava o suposto esquema de entrada de celulares na unidade prisional a pedido de policiais civis - incluindo delegados.
De acordo com o advogado George Freire, Charles frequentemente recebia pedidos de autoridades policiais para que ele adquirisse a confiança de determinados presos e que entregasse a eles celulares. "Esses aparelhos vinham com um aplicativo chamado 'bruno espião'. As conversas eram monitoradas em tempo real para ajudar nas investigações da polícia", afirmou Freire, em entrevista à coluna Segurança.
"Toda a cúpula do sistema prisional, da inteligência e da SDS [Secretaria de Defesa Social] sabia que havia essa prática, que é ilegal. Isso é antigo, de conhecimento de todas as autoridades desde 2022. Até policiais federais pediam também, e Charles era obrigado a adquirir a confiança de alguns presos para que eles passassem a usar os celulares", declarou.
Charles e mais sete policiais penais foram presos preventivamente em 25 de fevereiro deste ano. Investigações da Polícia Federal indicaram que o grupo autorizava benefícios a presos - a exemplo de festas, drogas, bebidas e até garotas de programa - em troca de propina.
Mensagens de WhatsApp entre o ex-diretor, policiais penais e o presidiário Lyferson Barbosa da Silva revelaram as práticas criminosas na unidade. O caso segue sob investigação.
Em depoimento à polícia, no começo de março, o ex-diretor negou o recebimento de dinheiro ou qualquer tipo de propina para ajudar presos ilegalmente. Charles, no entanto, declarou que tinha "ciência de que, no interior do presídio, diversos presos mantinham aparelhos celulares com acesso à internet".
Mas afirmou que alguns entravam na unidade "com ciência e a pedido de autoridades policiais da Polícia Civil de Pernambuco". Ele falou, inclusive, o nome de um delegado que teria solicitado essa entrada de celulares.
"Charles começou a ser alvo de investigação após desavença com esse delegado, que entrou no presídio e entregou celular a um preso sem o conhecimento do ex-diretor. Foram feitas buscas e acabou sendo instaurado um procedimento para apurar a conduta do delegado. Charles sofreu muita pressão para mudar depoimento e evitar punição a esse delegado", afirmou George Freire.
A coluna procurou a assessoria da SDS e solicitou um posicionamento sobre a denúncia de que celulares eram "plantados" no Presídio de Igarassu para contribuir com investigações.
A pasta disse, em nota, apenas que "assim que recebermos cópia das investigações, como prova emprestada, serão apurados todos os fatos que possam constituir transgressão disciplinar ou crime, cometidos pelos servidores da SDS".
TRECHOS DE DEPOIMENTO FORAM APAGADOS
Segundo o advogado, após a prisão, Charles relatou os nomes de várias autoridades policiais envolvidas no suposto esquema ilegal de celulares no presídio, mas teria sido orientado pelo delegado federal responsável pelo inquérito a não citar nomes.
"Estranhamente, parte do depoimento gravado sumiu. Alegou-se que houve um problema técnico, mas não existiu intercorrência técnica", disse Freire, que pretende pedir perícia no vídeo.
Charles exerceu o cargo de diretor do Presídio de Igarassu entre 1º de abril de 2016 até o final de 2024, quando foi exonerado pela governadora Raquel Lyra em meio às fortes denúncias de corrupção na unidade.
A Corregedoria da SDS informou que permanece aguardando "autorização judicial para o envio do inquérito da PF para poder investigar as condutas constantes no depoimento [de Charles]".
MPPE AGUARDA CONCLUSÃO DE INQUÉRITO
Segundo a Polícia Federal, os investigados devem responder pelos crimes de tráfico e associação para o tráfico de drogas; lavagem de dinheiro; corrupção; prevaricação; promoção ou facilitação de ingresso de aparelho telefônico em presídio; participação em organização criminosa.
Em nota, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) informou que o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) acompanha o trabalho da Polícia Federal.
"Como a investigação está sob sigilo e o inquérito ainda não foi concluído, detalhes do caso não podem ser comentados", disse o breve texto.