Oscar Coutinho: "A ciência não basta: o cuidado humano é essencial na medicina"

Aos 86 anos e com seis décadas de carreira, o médico clínico Oscar Coutinho conversou com o JC durante o 3º Congresso Pernambucano de Clínica Médica

Por Cinthya Leite Publicado em 13/09/2026 às 19:26 | Atualizado em 13/09/2026 às 19:49

Clique aqui e escute a matéria

Siga o JC no Google e acompanhe
tudo o que você precisa
Seguir no Google

Aos 86 anos e com seis décadas de carreira, o médico clínico Oscar Coutinho mantém uma rotina ativa. Atende em consultório de segunda a quinta-feira, nos turnos da manhã e da tarde, e reserva as sextas-feiras para o descanso. 

Durante o 3º Congresso Pernambucano de Clínica Médica, que terminou neste domingo (13) no Recife, ele conversou com a jornalista Cinthya Leite, titular de Saúde e Bem-Estar do JC, sobre a sua trajetória, as transformações da medicina, os desafios da clínica médica, novas tecnologias, tratamentos e o que espera das novas gerações de profissionais da especialidade que abraça. 

Para ele, o clínico precisa dominar desde queixas diárias (como hipertensão, diabetes, colesterol e queixas digestivas) até doenças raras, ao combinar o conhecimento de corpo e alma com uma forte visão humanística. Além disso, ele fez duras críticas a procedimentos como a soroterapia e o "chip da beleza", classificando-os como práticas perigosas, inúteis e de alto risco de iatrogenia (danos ao paciente). 

JC - O senhor está com 86 anos e 60 anos de formado em medicina. Como é a sua rotina hoje, entre o consultório e as atividades físicas, como o futebol?

OSCAR COUTINHO - Atendo no consultório de segunda a quinta-feira, de manhã e à tarde, e deixo a sexta-feira livre. Em relação ao futebol, deixei de jogar em março deste ano, contra a opinião do meu médico. Tomamos essa decisão porque comecei a ter medo de sofrer algum trauma na cabeça ou machucar o joelho. Como gosto muito de caminhar e viajar, e todos os meus amigos mais antigos já haviam parado de jogar, achei que também era o momento de parar.

JC - Como professor e referência para tantas gerações, como o senhor vê o interesse dos médicos mais jovens pela clínica médica?

OSCAR COUTINHO - Fiquei muito agradavelmente surpreso com a frequência e com a motivação que vi no Congresso Pernambucano de Clínica Médica. Hoje em dia, é uma área que pouca gente quer seguir. O médico jovem prefere optar por uma especialidade mais focal, porque é muito mais fácil de se atualizar e a remuneração costuma ser melhor.

Para fazer uma Clínica Médica bem-feita, o universo de assuntos que se precisa ler para se manter atualizado é infinitamente maior, enquanto a remuneração é pior. Por isso, fiquei muito feliz por ter visto o congresso tão movimentado.

JC - O que um médico clínico precisa dominar na prática diária?

OSCAR COUTINHO - O clínico precisa ter uma visão ampla de tudo em medicina, desde as doenças mais raras até os problemas cotidianos do consultório. Condições como hipertensão arterial, aterosclerose, colesterol alto, diabetes e queixas digestivas ou gastroenterológicas fazem parte da rotina diária do clínico.

JC - Ao longo dessas seis décadas de consultório, quais foram as transformações mais marcantes que o senhor presenciou?

OSCAR COUTINHO - Como tenho 60 anos de consultório, as mudanças foram tão intensas que é difícil resumi-las em poucas palavras. Se olharmos para a imagem e o diagnóstico, quando comecei, em 1965, só existia a radiografia convencional, e ainda de má qualidade. Para estudar o tubo digestivo, era preciso pedir exames com contraste para conseguir obter mais informações. Depois, surgiram o ultrassom, a tomografia, a ressonância magnética, as cintilografias e os exames baseados em cateterismo, que servem tanto para diagnóstico quanto para tratamento.

Na parte de medicamentos, não tínhamos praticamente nada para tratar diabetes, hipertensão e colesterol alto. Hoje temos um acervo infinito de opções.

JC - Falando em medicamentos modernos, qual é a sua visão sobre os análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras? 

OSCAR COUTINHO - Sou um grande fã dos análogos de GLP-1. Li recentemente uma entrevista com um executivo de uma farmacêutica, e ele apontou três grandes saltos na história da terapêutica moderna. O primeiro foi a descoberta do Prozac, nos anos 1980, que mudou a forma de tratar a depressão. O segundo foi o Viagra, no final dos anos 1990, que mudou a filosofia sobre a sexualidade masculina. E o terceiro salto foi o Ozempic. Eu concordo plenamente com ele.

Enquanto lia essa entrevista, pensei que a grande revolução da saúde não foi um único grande salto em um ano específico. Na verdade, a revolução foi feita de pequenos saltos contínuos no tratamento do diabetes, da hipertensão arterial e da aterosclerose. Quando se somam esses pequenos saltos às vacinas e aos antibióticos, a expectativa de vida humana deu um pulo enorme, passando de 40 anos para mais de 77 anos.

Além disso, os análogos de GLP-1 atuam no hipotálamo, no centro do desejo, sendo úteis para diminuir a compulsão por comer, beber e fumar, indo além do mero esvaziamento gástrico.

JC - Na contramão dos tratamentos validados, vemos uma proliferação de soroterapias e do chamado "chip da beleza". Qual é a sua opinião sobre essas práticas?

OSCAR COUTINHO - A medicina é um campo muito amplo e costumam aparecer figuras em busca de dinheiro fácil, aproveitando-se de uma humanidade crédula que quer ouvir promessas fáceis. Nada que não seja baseado na chamada medicina baseada em evidências sólidas pode e deve ser seguido.

Quanto ao "chip da beleza", que mistura testosterona e outras substâncias, considero uma das picaretagens mais perigosas dos últimos anos. Além de inútil, traz sérios riscos de iatrogenia e morbidades para os pacientes.

JC - O senhor citou, em conversa antes dessa nossa entrevista, que ficou feliz ao ver que uma das salas do congresso recebeu o nome do Dr. Cyro de Andrade Lima, que faleceu em 2022, aos 92 anos. O que a figura dele representa e o que não pode faltar à formação de um bom clínico?

OSCAR COUTINHO - O clínico precisa ter uma visão geral de tudo, compreendendo o corpo e a alma do paciente, além de ter intuição. Enquanto esperava por esta entrevista na sala que leva o nome do Dr. Cyro de Andrade Lima, lembrei que ele foi meu amigo e o maior mestre de Medicina e de vida que conheci.

Ele tinha uma visão humanística extraordinária, e o clínico não pode abrir mão dessa dimensão humana, pois não adianta só a ciência.

JC - Como o senhor analisa os riscos e as utilidades da inteligência artificial na medicina?

OSCAR COUTINHO - A inteligência artificial é um grande desafio. Ela veio para ficar, é uma ferramenta extraordinária e vai ajudar muito a medicina, mas precisamos utilizá-la sem sermos dominados por ela. Hoje, com a profusão de médicos formados e a busca de empresários da medicina por produção e redução de custos com o trabalho médico, há uma pressão forte. Diante disso, usando a inteligência artificial, eles vão criando protocolos.

O médico clínico ou outro especialista, ao estar com o paciente, pode cair na tentação de apenas seguir o protocolo automatizado e parar de exercer o raciocínio clínico. O grande risco é esse. Mas a IA é fantástica se soubermos usá-la.

JC - Na sexta-feira (11), o senhor assistiu a oito palestras em um único dia de congresso. O que o motiva a continuar frequentando aulas e eventos?

OSCAR COUTINHO - Eu assisto às palestras, inclusive, para me testar e ver se surge alguma novidade ou algo que eu ainda não saiba. Sim, assisti mesmo a oito palestras, acompanhando desde temas muito raros, como a síndrome antifosfolípide (doença autoimune em que o corpo produz anticorpos que atacam proteínas nas células e aumentam o risco de formação de trombos), até apresentações focadas no futuro, como o tratamento do diabetes em 2026.

Fiquei muito feliz ao notar que já dominava quase todo o conteúdo apresentado, o que me deu a satisfação de ver que continuo me mantendo atualizado.

JC - O que gostaria de dizer aos médicos mais jovens que buscam a longevidade na carreira?

OSCAR COUTINHO - Eu diria: 'só faça uma coisa se gostar'. Acho que o médico, se não gostar do que faz, não vai dar certo, porque a medicina exige não apenas muita dedicação e trabalho, mas obriga a estudar sempre. Se não tiver prazer em estudar, não vai conseguir se manter por muito tempo, não vai ser longevo nem se manter atualizado. Eu participei desse congresso, por exemplo, porque tenho prazer em ouvir as novidades e, mesmo quando não é uma novidade, é a confirmação do que imagino que está certo. 

Compartilhe

Tags

Imagem de Cinthya Leite

Cinthya Leite

cleite@jc.com.br

Cinthya Leite (@cinthyaleite) é jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco. No Jornal do Commercio (JC), desde 2003, ela cobre o setor da Saúde, com atuação nos seguintes temas: saúde pública, assistência à saúde, vigilância em saúde, promoção de bem-estar e prevenção de doenças, surtos e epidemias. É titular da coluna Saúde e Bem-Estar do JC, onde também está à frente do videocast de mesmo nome, transmitido pelo JC Play. Ao longo de 23 anos como jornalista, já recebeu 40 prêmio