Simpósio sobre superdotação debate desafios das altas habilidades e da inclusão escolar no Recife
Evento reunirá especialistas, familiares e profissionais que atuam com pessoas com altas habilidades ou superdotação
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Os desafios enfrentados por pessoas com altas habilidades ou superdotação (AH/SD), especialmente no ambiente escolar, estarão no centro das discussões do I Simpósio Dunamis-PE de Altas Habilidades/Superdotação e Dupla Excepcionalidade, que será realizado nos dias 11 e 12 de setembro, no Recife. O encontro pretende ampliar o debate sobre inclusão escolar, identificação das altas habilidades e combate aos preconceitos relacionados ao tema.
A discussão ganha relevância após a entrada em vigor, em 18 de junho de 2026, da nova Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. A medida prevê, entre outras ações, a criação de um cadastro nacional de estudantes com AH/SD e busca garantir a identificação precoce, o desenvolvimento integral e a inclusão desses alunos no sistema educacional brasileiro.
A política define altas habilidades ou superdotação como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada, entre outros aspectos, por potencial intelectual elevado, intensa curiosidade, elevada capacidade de aprendizagem e profundo envolvimento com temas de interesse. O texto também reconhece a chamada dupla excepcionalidade, situação em que a pessoa apresenta altas habilidades ou superdotação associadas a um transtorno ou deficiência.
A criação de um cadastro nacional de estudantes com AH/SD matriculados na educação básica e no ensino superior também está entre as medidas previstas. Embora a iniciativa esteja prevista desde 2015, o cadastro ainda não havia sido efetivamente implementado.
Segundo o Movimento Superdotação no Mapa, com base no Censo Escolar de 2025, cerca de 56 mil estudantes brasileiros foram formalmente identificados como pessoas com altas habilidades ou superdotação. Para representantes do movimento, porém, o número ainda não representa a dimensão real desse público.
Isso porque a identificação continua sendo um dos principais desafios. Pessoas superdotadas podem ser confundidas com alunos considerados difíceis, desinteressados ou indisciplinados. No caso da dupla excepcionalidade, características relacionadas à superdotação podem ainda ser confundidas com manifestações de outras condições do neurodesenvolvimento.
As consequências podem atingir tanto os estudantes quanto suas famílias e professores. Sem ferramentas adequadas para reconhecer e acompanhar essas características, o processo educacional pode se tornar desgastante, enquanto habilidades e potenciais deixam de ser estimulados.
Identificação ainda é um desafio
O Movimento Superdotação no Mapa foi criado em abril de 2023 com o objetivo de atuar na defesa dos direitos das pessoas com altas habilidades ou superdotação, além de ampliar o debate sobre políticas públicas e o próprio conceito de superdotação no país.
A organização possui representantes em diferentes estados brasileiros, incluindo Pernambuco, e defende uma ampliação das perspectivas utilizadas para identificar e acompanhar pessoas com AH/SD.
Entre as reivindicações estão o investimento em pesquisas nacionais sobre superdotação, a capacitação de profissionais das áreas de educação e saúde e a criação ou adaptação de instrumentos de identificação que considerem diferentes perfis.
Outro ponto defendido pelo movimento é a inclusão das pessoas com altas habilidades nas estatísticas oficiais. Segundo a organização, adultos superdotados identificados não aparecem de forma adequada nos levantamentos populacionais, o que dificulta a formulação de políticas públicas.
Simpósio reúne profissionais e famílias
Pensado para reunir tanto pessoas que convivem com indivíduos superdotados quanto profissionais que atuam no acompanhamento desse público, o simpósio terá uma programação voltada para diferentes níveis de conhecimento.
Pais, mães e responsáveis terão acesso a conteúdos apresentados em linguagem acessível e com ferramentas práticas para o cotidiano. Já profissionais como psicólogos, educadores, neuropsicopedagogos e terapeutas poderão acompanhar discussões de caráter técnico sobre identificação, desenvolvimento e inclusão.
Entre os convidados estão Vanessa Pavani Mello, advogada especializada em Direito Educacional, com atuação em casos envolvendo alunos com AH/SD e dupla excepcionalidade; Olzeni Ribeiro, mestre e doutora em Educação, neuropsicóloga e neuropsicopedagoga com atuação acadêmica e clínica na área; Diogo Mello, psicanalista, terapeuta, mestrando em Neurociências e pesquisador de AH/SD; e Carla Brolezze, fundadora do Movimento Superdotação no Mapa e ativista pela visibilidade das pessoas com altas habilidades.
Quando a escola deixa de ser um lugar de pertencimento
A experiência de Manuela Tavares de Lima Costa, de 11 anos, mostra como a falta de compreensão sobre as altas habilidades pode afetar a vida escolar e social de uma criança.
Desde pequena, ela apresentava características que chamavam a atenção da família. Aos dois anos, assistia a vídeos em outras línguas, como inglês, russo e alemão, e já reproduzia algumas palavras em inglês. Na escola, as professoras também começaram a perceber comportamentos diferentes dos apresentados pelos colegas.
Durante a pandemia, segundo a família, essas diferenças ficaram ainda mais evidentes. Manuela demonstrava pouco interesse pelas brincadeiras dos colegas e preferia livros de séries mais avançadas e conteúdos relacionados a temas que despertavam sua curiosidade, como a teoria do Big Bang.
O distanciamento também apareceu na relação com outras crianças. A família conta que Manuela chegou a ser excluída por colegas por demonstrar conhecimento sobre diferentes assuntos. O desempenho, no entanto, nem sempre aparecia nas notas, já que estudar conteúdos que ela já dominava passou a ser cansativo.
Em determinado período, a menina chegou a rasgar tarefas e riscar livros como forma de protesto. A família também observou episódios de hipersensibilidade auditiva, ao ponto de ela precisar utilizar abafadores de ouvido, além de incômodo com etiquetas de roupas, determinadas texturas de alimentos e cheiros.
A situação levou a família a procurar atendimento especializado. Após passar por uma avaliação neuropsicológica, Manuela apresentou QI de 140 e foi identificada com altas habilidades ou superdotação. O exame não apontou autismo ou TDAH, embora algumas manifestações possam apresentar características semelhantes.
Depois da mudança para o Colégio Santa Emília, em Piedade, a família percebeu uma mudança no acolhimento. Manuela passou a participar de olimpíadas do conhecimento, atividade que, segundo a mãe, despertou novamente seu interesse pelos estudos.
A menina também demonstra habilidade para o desenho. Professores perceberam que ela terminava algumas atividades antes dos colegas e passaram a permitir que utilizasse parte desse tempo para desenhar. Atualmente, Manuela desenvolve o próprio mangá, criando personagens, personalidades e histórias.
A família também buscou uma avaliação neuropsicopedagógica, que envolveu a escola e os professores. A partir desse processo, a instituição passou a discutir estratégias individualizadas para estimular as habilidades da estudante.
Para a mãe, compreender a superdotação da filha também foi um processo de aprendizado.
“Você aceitar aquilo é o primeiro passo. Aceitar o lado bom e o lado ruim”, relata.
O caminho, porém, foi marcado por dificuldades. A família conta que Manuela passou por episódios de bullying e chegou a ficar praticamente sem amigos. Durante a pandemia, uma das companhias mais frequentes da menina era uma assistente virtual com quem conversava, fazia perguntas e pedia para contar piadas.
Com o tempo e a mudança de ambiente escolar, a situação melhorou. Hoje, segundo a família, Manuela possui um grupo maior de amigas e enfrenta menos conflitos de convivência.
A adolescência também trouxe novos desafios emocionais. A família relata episódios de desregulação e ansiedade e conta que, em determinado momento, Manuela escreveu na escola que estava sentindo vontade de morrer. O episódio foi associado pela família às dificuldades que ela enfrentava para compreender e lidar com as próprias emoções.
A mãe afirma que também precisou rever algumas percepções sobre o acompanhamento medicamentoso. Segundo ela, atualmente a filha realiza acompanhamento médico e utiliza medicamentos prescritos por profissionais de saúde.
Para a família, respeitar os momentos de sobrecarga emocional passou a fazer parte da rotina. Em alguns dias, quando Manuela não se sente em condições de ir à escola, a mãe opta por deixá-la em casa e afirma que a filha consegue compensar posteriormente os conteúdos escolares.
A história reforça uma das principais discussões que estarão presentes no simpósio: identificar altas habilidades não significa apenas reconhecer um desempenho intelectual acima da média. Também envolve compreender necessidades emocionais, sociais e educacionais específicas para que o potencial do estudante seja desenvolvido sem que as diferenças se transformem em barreiras.
Com a realização do evento no Recife, os organizadores pretendem aproximar famílias, profissionais e pesquisadores e ampliar o debate sobre como transformar a identificação das altas habilidades em práticas efetivas de inclusão.
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