Avanço no combate à Aids está ameaçado com queda de financiamento de países doadores

Mesmo com a redução mundial de infecções e mortes por HIV, novo relatório do UNAIDS aponta que corte de investimento global pode gerar retrocessos

Por Da Redação com agências Publicado em 27/07/2026 às 20:58

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O Brasil está sediando pela primeira vez a 26ª Conferência Internacional de Aids, evento que está sendo realizado no Rio de Janeiro e reúne especialistas, gestores e representantes de governos para discutir avanços e desafios na resposta à infecção pelo HIV. Durante a coletiva de imprensa de abertura, o Ministério da Saúde apresentou apresentou dados sobre a resposta brasileira à infecção e as iniciativas em avaliação para ampliar as opções de prevenção no Sistema Único de Saúde (SUS).

“O Brasil quer incorporar novas tecnologias de prevenção do HIV porque elas podem ampliar as possibilidades de cuidado e oferecer alternativas para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao uso diário da medicação”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Na apresentação da abertura da conferência também foi divulgado o novo relatório elaborado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids), que apontou que em 2025 foram registradas 1,2 milhão de novas infecções pelo HIV em todo mundo, o que representa uma redução de cerca de 40% desde 2010. Ainda segundo dados do Unaids, o número de mortes relacionadas à aids caiu 57% desde 2010 nos continentes analisados, passando de 1,3 milhão de óbitos, em 2010, para 570 mil, em 2025.

Entretanto, esse avanço científico está seriamente ameaçado devido a queda vertiginosa do financiamento de governos doadores, principalmente os Estados Unidos, após o presidente Donald Trump cortar relações com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e deixar de investir em programas voltados ao combate a diversas doenças, dentre elas, o vírus do HIV.

"Nunca o financiamento dos doadores caiu tanto, tão rapidamente, e os mais vulneráveis já estão pagando o preço. Os países doadores estão optando por se afastar, enquanto muitos países com alta incidência permanecem acorrentados por uma dívida da qual não conseguem escapar", declarou Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de Aids e copresidente internacional da AIDS 2026.

O novo relatório do UNAIDS constatou que a redução de 25% no financiamento de governos doadores representa a maior queda em um único ano desde o início da ampliação do financiamento internacional, em 2002.

Fim da pandemia de Aids

A diretora-executiva da Unaids Winnie Byanyima ressaltou que o fim da epidemia de Aids já não é mais apenas uma aspiração, e, sim, um feito alcançável, graças às inovações científicas, especialmente a profilaxia pré-exposição (Prep) injetável, que pode prevenir a infecção em pessoas saudáveis por até seis meses.

“Essa é uma das maiores oportunidades que nós temos de acabar com a epidemia. Mas avanços científicos isolados não vão acabar com a Aids. Inovação sem acesso não é inovação, e, sim, injustiça. Esses medicamentos continuam fora de alcance para a maioria das pessoas que precisam deles”, enfatizou.

A Unaids estima que 20 milhões de pessoas precisam ter acesso à prep injetável de longa duração para que o mundo consiga alcançar a nova meta de acabar com a Aids como ameaça de saúde pública até 2030. O compromisso foi firmado pelos países-membros das Nações Unidas ha algumas semanas.  “Isso significa preços acessíveis, competição via genéricos, fabricação regional, transferência de tecnologia, rápida introdução dentro dos programas nacionais”, ressalvou Winnie.

“A ciência fez o seu trabalho, agora, a política precisa fazer o dela. A pergunta não é mais se a gente consegue acabar com a aids, e, sim, se nós escolheremos acabar com a Aids. Se isso for realmente implementado, podemos prevenir 2 milhões de novas infecções, e 1,3 bilhão de mortes relacionadas com à Aids”, complementou a diretora-geral da Unaids.

Prevenção combinada

A PrEP é uma estratégia de prevenção do HIV destinada a pessoas que não vivem com o vírus e podem estar expostas a maior risco de infecção. Atualmente, o SUS oferece a PrEP oral, com acompanhamento das equipes de saúde. Desde a incorporação da PrEP oral ao SUS, 356 mil pessoas já iniciaram o uso da profilaxia no Brasil. A escolha da estratégia mais adequada considera as necessidades e condições de cada pessoa.

O Ministério da Saúde também acompanha o desenvolvimento de novas tecnologias de prevenção do HIV, incluindo iniciativas de pesquisa e inovação realizadas no país, como o desenvolvimento de medicamentos de ação prolongada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com instituições privadas.

No SUS, estão disponíveis estratégias de prevenção, como preservativos, gel lubrificante, PrEP, PEP, testagem rápida e autoteste. A rede também oferece tratamento antirretroviral, acompanhamento clínico, monitoramento laboratorial e atendimento multiprofissional para as pessoas vivendo com HIV.

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