Quando o agressor é alguém da família: o silêncio da violência contra idosos

Em Pernambuco, somente nos cinco primeiros meses de 2026, foram registradas quase 30 mil violações de direitos contra pessoas idosas

Por Cinthya Leite Publicado em 22/06/2026 às 13:00 | Atualizado em 22/06/2026 às 21:25

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A violência contra pessoas idosas tem, na maioria das vezes, um endereço conhecido: a própria casa. Muitas dessas agressões não deixam marcas visíveis, mas se manifestam por meio de negligência, abandono, humilhações e violência psicológica.

Em Pernambuco, somente nos cinco primeiros meses de 2026, foram registradas quase 30 mil violações de direitos contra pessoas idosas, segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A pessoa idosa já é o grupo etário com mais registros no Estado.

Em todo o Brasil, já foram mais de meio milhão de violações neste ano, depois de o País fechar 2025 com mais de 1 milhão de registros.

Para a geriatra Iolanda Galbiati, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia-Seccional Pernambuco (SBGG-PE), o dado reflete apenas uma fração do que acontece, já que a maioria dos casos não é denunciada.

"A pessoa idosa muitas vezes não denuncia porque o agressor é alguém que ela ama. Embora queira que a violência pare, ela não quer ver o filho ou outro parente punido. Esse conflito gera um silêncio que pode durar anos", afirma Iolanda.

Violência não é só física

No imaginário coletivo, violência contra idosos ainda é associada a agressões físicas. Mas as formas mais frequentes incluem negligência, violência psicológica, abandono, humilhação e privação de afeto.

São situações que raramente deixam marcas visíveis, mas que comprometem de forma severa a saúde mental, a autonomia e a qualidade de vida.

O impacto emocional dessas formas de violência pode ser tão grave quanto o de uma agressão física. O isolamento, a humilhação sistemática e a privação afetiva afetam diretamente a saúde mental do idoso.

Esse cenário geralmente se desenvolve de forma gradual, o que dificulta o reconhecimento tanto pela vítima quanto pela família.

"Deixar de dar um remédio no horário é negligência. Excluir a pessoa idosa das conversas e decisões da família, tratá-la como um peso, é violência psicológica. Nada disso deixa hematoma, mas vai corroendo a pessoa por dentro. Quando a família percebe, o dano já está instalado", afirma a terapeuta ocupacional Genaina Couto, também diretora da SBGG-PE.

Justamente por ser silenciosa, essa violência costuma ser percebida primeiramente pelos sinais indiretos. Mudanças repentinas de comportamento, isolamento, medo na presença de determinados familiares, piora inexplicável do estado de saúde e relatos contraditórios sobre lesões ou quedas são pistas que merecem atenção.

Como denunciar

Casos de violência contra a pessoa idosa podem ser denunciados pelo Disque 100, disponível 24 horas por dia, inclusive fins de semana e feriados, de forma gratuita e, se necessário, anônima.

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