Inimigo oculto: vírus sincicial respiratório (VSR) pode ser mais perigoso que a gripe após os 50

Agente viral vem ganhando atenção nos prontuários e nas unidades de UTI, pois tem potencial para evoluir de forma muito mais grave do que a gripe

Por Cinthya Leite Publicado em 08/04/2026 às 18:20

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SÃO PAULO - Ele é um dos principais agentes de infecção aguda nas vias respiratórias, que pode afetar os brônquios e os pulmões. É conhecido por causar bronquiolite em bebês e crianças pequenas. O que pouca gente sabe é que, em adultos com mais de 50 anos e que vivem com doenças crônicas, o vírus sincicial respiratório (VSR) pode evoluir de forma muito mais grave do que a própria gripe. 

O alerta foi feito, na terça-feira (7), durante evento exclusivo para jornalistas, em São Paulo, sobre o impacto do VSR. No encontro, promovido pela biofarmacêutica GSK, várias especialidades médicas se uniram para debater sobre essa ameaça respiratória ainda subdiagnosticada entre adultos e idosos, mas que figura entre as principais causas de hospitalização

A infecção tem como sintomas iniciais nariz entupido, espirros, tosse seca e aquela sensação familiar de mal-estar que muitos tratam apenas com repouso e um antigripal.

Evidências mostram que o VSR causa até 2,7 vezes mais pneumonia que o vírus da gripe e que 1 em cada 4 adultos mais velhos infectados pode desenvolver a doença.

Não por acaso, é justamente com a chegada do outono que esse inimigo silencioso começa a circular com mais força. À medida que as temperaturas caem no Brasil, cresce também a transmissão de vírus respiratórios. A gripe costuma ocupar o centro das campanhas de prevenção e do imaginário popular. Mas, longe dos holofotes, o VSR vem aparecendo com frequência crescente nos prontuários médicos e nas unidades de terapia intensiva (UTI).  

Em adultos com doenças crônicas, a infecção pelo VSR funciona como um gatilho que desencadeia uma rápida deterioração da saúde.

"Os dados são alarmantes: o VSR traz 2,7 vezes mais chances de pneumonia e duas vezes mais chances de admissão em UTI do que a influenza. Para um idoso, 10 ou 12 dias de internação significam perder de 10% a 15% da sua massa muscular. Se era um idoso que andava, ele pode parar de andar e precisar de meses de reabilitação. Não é apenas sobre sobreviver à infecção, é sobre não perder a funcionalidade e a memória", destacou a geriatra Maisa Kairalla, coordenadora do Comitê de Imunizações da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). 

Quando a estatística vira história

A gravidade do VSR não se revela apenas em estudos epidemiológicos. Ela também aparece em histórias familiares marcadas pela surpresa e pela rapidez com que a infecção pode evoluir.

O endocrinologista Rodrigo Mendes relembrou o caso de sua própria mãe, de 67 anos. Ela tinha enfisema pulmonar leve e hipertensão controlada. O que parecia um resfriado simples começou com sintomas típicos: secreção nasal, espirros, nariz entupido e tosse seca.

Em poucos dias, porém, o quadro mudou drasticamente. "A falta de ar se intensificou até culminar em uma parada cardiorrespiratória em casa, que durou mais de 14 minutos", disse Rodrigo durante o evento.

Após ser reanimada e levada para a UTI, exames confirmaram a causa: infecção pelo VSR. O impacto para a família foi ainda mais duro porque, ao mesmo tempo, o neto de apenas dois meses (filho de Rodrigo) estava internado com bronquiolite causada pelo mesmo vírus.

A paciente não resistiu.

"E se a minha mãe tivesse tomado a vacina contra o vírus sincicial respiratório, como seria o desfecho dela?", questiona o médico, ao trazer à tona uma reflexão que hoje ecoa em muitos especialistas que defendem ampliar a conscientização sobre o vírus.

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Médicos de várias especialidades se uniram para debater sobre o VSR, uma ameaça respiratória ainda subdiagnosticada entre adultos e idosos, mas que figura entre as principais causas de hospitalização - CINTHYA LEITE/JC

Mais grave do que parece

A comparação do VSR com o vírus da gripe ajuda a dimensionar o problema. Embora os sintomas iniciais possam ser semelhantes, o impacto clínico do VSR pode ser significativamente maior em idosos. Estudos apontam que, nessa população, a infecção está associada a 2,7 vezes mais chances de pneumonia, em comparação com a gripe; o dobro de risco de internação em UTI; e maior necessidade de ventilação mecânica. 

Entre idosos com comorbidades no Brasil, a taxa média de letalidade pode chegar a 25,9%, ao alcançar 30,7% em anos de maior circulação viral.

Parte dessa vulnerabilidade está ligada a um fenômeno natural do envelhecimento conhecido como imunossenescência (redução gradual da capacidade do sistema imunológico de reagir a infecções).

"Aprendemos na universidade que o VSR era apenas o vírus da bronquiolite em crianças. Mas hoje é uma ingenuidade nossa achar que ele se limita aos bebês. Na verdade, nós nos reinfectamos por esse vírus ao longo de toda a vida, pois a imunidade inicial não é duradoura", ressaltou o pediatra infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). 

O vírus que desestabiliza o organismo

Apesar de o VSR ter o potencial de desencadear a descompensação de doenças crônicas, ainda há lacunas graves dessa percepção entre grupos de risco.

Isso foi constatado em pesquisa encomendada pela GSK em oito países, incluindo o Brasil, realizada com adultos acima de 50 anos com diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), asma e doenças cardiovasculares. 

Segundo a pesquisa, 53% dos pacientes entrevistados com doenças cardíacas desconhecem que o VSR pode ter associação com o aumento de riscos cardíacos graves. Um estudo científico mostrou que a infecção por VSR pode aumentar em três vezes o risco de hospitalização por infarto nos primeiros sete dias após infecção.

Já pessoas com DPOC enfrentam um risco até 13,4 vezes superior de hospitalização por infecção pelo VSR, mas 30% dos entrevistados com essa condição desconhecem a ligação direta com o vírus.

Entre os pacientes com diabetes, 38% não estão cientes que o VSR pode causar complicações graves da doença, apesar do risco de internação ser até 6,4 vezes maior nessa faixa etária investigada que o de uma pessoa sem diabetes.  

Prevenção: um novo capítulo no envelhecimento saudável

A chegada de vacinas específicas contra o VSR abriu uma nova frente na prevenção de doenças respiratórias em adultos. 

Mas além da barreira apontada pela falta de conhecimento sobre a existência da vacina, a pesquisa da GSK salienta que o diálogo sobre o VSR com profissionais de saúde ainda é superficial: 37% dos não vacinados alegam que "o médico não recomendou" e outros 37% afirmam que "não sabem o suficiente sobre a imunização".

Mas a proteção não depende apenas da imunização. Medidas simples continuam sendo fundamentais, especialmente durante os meses de maior circulação viral: 

  • higienizar frequentemente as mãos
  • evitar contato próximo quando houver sintomas respiratórios
  • usar máscara em ambientes fechados em períodos de maior transmissão

*A jornalista acompanhou o evento a convite da GSK.

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