Saúde e política no mesmo palco: Hospital da Criança do Recife abre com promessa de aliviar pressão na pediatria

João Campos diz que nova unidade ajudará a enfrentar pico de doenças respiratórias na infância, mesmo iniciando operação com 30% da capacidade

Por Cinthya Leite Publicado em 02/04/2026 às 22:05 | Atualizado em 02/04/2026 às 22:45

Clique aqui e escute a matéria

A inauguração do Hospital da Criança do Recife, no bairro de Areias, Zona Oeste do Recife, nesta quinta-feira (2), ocorre em um momento sensível para a rede de saúde infantil: o início do período de maior circulação de vírus respiratórios, historicamente associado ao aumento da procura por atendimento pediátrico e à pressão por leitos hospitalares.

Ao lado do ministro da Saúde Alexandre Padilha em conversa com a imprensa, João Campos (PSB), que renunciou ao cargo de prefeito do Recife para se candidatar a governador de Pernambuco, afirmou que a nova unidade deve ajudar a absorver parte dessa demanda sazonal, mesmo começando a operar inicialmente com cerca de 30% da capacidade instalada.

Segundo ele, a estrutura foi planejada justamente para responder a esses picos assistenciais. Entre as estratégias mencionadas, está a possibilidade de conversão de espaços em até 50 leitos temporários em períodos de maior incidência de doenças respiratórias, mediante uso de pontos de gases medicinais distribuídos pela unidade.

"O hospital começa a operar de forma escalonada, com cerca de 30% da capacidade, chegando ao funcionamento pleno em aproximadamente seis meses", explicou João Campos. "Instalamos réguas de gases em diversos locais justamente para que, nos períodos de pico de doenças respiratórias, possamos converter espaços e criar leitos temporários."

A promessa chega em um cenário recorrente em Pernambuco e em outros Estados: todos os anos, entre o outono e o inverno, hospitais enfrentam aumento de internações pediátricas associadas a quadros como bronquiolite e pneumonias virais. O gargalo costuma aparecer sobretudo nos leitos de enfermaria e, em casos mais graves, nas UTIs pediátricas.

JAILTON JR./JC IMAGEM
Atendimento será regulado pela Central de Regulação do município, com pacientes encaminhados por serviços da rede municipal, como policlínicas e unidades de pronto atendimento pediátrico - JAILTON JR./JC IMAGEM

Com investimento superior a R$ 200 milhões e cerca de 12 mil metros quadrados de área construída, o hospital passa a integrar a rede municipal com 60 leitos, sendo 50 de enfermaria e 10 de terapia intensiva pediátrica (UTI), além de bloco cirúrgico e centro de diagnóstico.

O equipamento não terá porta aberta para emergências: o acesso será regulado pela Central de Regulação do município, com encaminhamento de pacientes vindos de serviços como policlínicas e outras unidades da rede. 

Nesta quinta-feira (2), o hospital já havia iniciado parte das atividades. Crianças já estavam sendo atendidas em algumas especialidades, como consultas com neuropediatria e sessões de terapia ocupacional, dentro do início gradual das operações do equipamento.

A dona de casa Mariane Araújo, 32 anos, foi uma das mães que levaram os filhos para os primeiros atendimentos no hospital. O filho Lieverson Maycon, de 8 anos, vive com o transtorno do espectro autista (TEA). Ela relatou que Lieverson foi encaminhado para o Hospital da Criança do Recife após atendimento na unidade básica de saúde do bairro onde mora, Jiquiá, na Zona Oeste. 

"A terapia faz muita diferença para ele. Ajudou a entender as coisas, a falar e até a identificar cores. Minha esperança é que ele consiga manter esse atendimento toda semana", contou.

JAILTON JR./JC IMAGEM
Mariane Araújo contou que o filho Lieverson foi encaminhado para o Hospital da Criança do Recife após atendimento na unidade básica de saúde do bairro onde mora, Jiquiá, na Zona Oeste - JAILTON JR./JC IMAGEM

Um hospital pensado para especialidades

A estratégia da gestão municipal é posicionar o hospital menos como uma porta de entrada para urgências e mais como um centro de resolução para demandas especializadas da pediatria. A estrutura reúne cerca de 15 subespecialidades, incluindo neuropediatria, psiquiatria infantil e gastroenterologia, além de um centro diagnóstico capaz de realizar dezenas de tipos de exames.

Um dos eixos mais destacados do projeto é o núcleo voltado a crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, que inclui o Centro TEA (sigla para transtorno do espectro autista) e equipe multiprofissional com fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia e fonoaudiologia.

O espaço também prevê a implantação de um serviço de equoterapia (prática terapêutica que utiliza cavalos como recurso de reabilitação física e cognitiva).

Na prática, a aposta é ampliar a resolutividade da rede municipal em áreas nas quais o Sistema Único de Saúde (SUS) costuma registrar filas prolongadas, especialmente para exames e consultas de maior complexidade. 

Prontuário eletrônico

O Hospital da Criança do Recife já implementa o conceito de hospital digital, com utilização de soluções da multinacional MV para garantir eficiência operacional e segurança clínica.

Dentro dessa estrutura, destaca-se o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP MV). A solução centraliza o histórico clínico das crianças e, dessa maneira, permite que médicos e equipes multidisciplinares acessem dados vitais em tempo real, a fim de reduzindo erros e agilizar tomadas de decisão.

JAILTON JR./JC IMAGEM
João Campos inaugurou hospital ao lado de Alexandre Padilha e políticos - JAILTON JR./JC IMAGEM

Saúde e política no mesmo palco

A inauguração também tem peso simbólico no cenário político local. O hospital leva o nome do médico Antonio Carlos Figueira, filho de Fernando Figueira, fundador do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira, o Imip.

Antonio Carlos iniciou a vida pública ao lado do ex-governador Miguel Arraes, de quem foi assessor de 1987 a 1998. Já entre 2011 e 2014, atuou no governo Eduardo Campos como secretário Estadual de Saúde. Entre 2015 e 2017, na gestão Paulo Câmara, Figueira foi secretário-chefe da Casa Civil.

Durante o evento, João Campos também confirmou que passará a se dedicar à pré-candidatura ao governo Estadual em 2026, ao indicar que a inauguração do hospital funciona não apenas como marco assistencial, mas também como vitrine de gestão.

Entre promessas de modernização da rede e a pressão recorrente por leitos pediátricos no período de vírus respiratórios, o novo hospital chega com uma missão dupla: ampliar o acesso à assistência especializada e provar, já nos próximos meses, sua capacidade de aliviar a sazonalidade que todos os anos testa os limites da rede de saúde infantil.

Compartilhe

Tags