Remédio para obesidade não é tudo: diretriz inédita orienta médicos diante do novo cenário de tratamentos para a doença
Nova diretriz reúne 32 recomendações que detalham quando indicar medicação, em quais situações evitá-los e quais evidências sustentam decisões médicas
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Pela primeira vez, especialistas brasileiros publicaram uma diretriz dedicada exclusivamente ao tratamento medicamentoso da obesidade, com consolidação de recomendações sobre o momento e a forma de indicar medicações para cuidar da doença. O documento, divulgado na noite desta terça-feira (31) pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), é apontado por médicos como uma mudança de patamar na forma como o tema é tratado no País.
Ao mesmo tempo, a diretriz reforça um ponto central: os medicamentos não devem ser utilizados isoladamente, mas sempre associados a mudanças no estilo de vida, com orientação nutricional e incentivo à atividade física.
O texto também orienta que as decisões terapêuticas considerem o perfil clínico de cada paciente e condições frequentemente presentes no consultório, como risco cardiovascular, pré-diabetes, doença hepática gordurosa, osteoartrite, apneia do sono e perda de massa muscular.
Até agora, as orientações sobre tratamento medicamentoso apareciam diluídas em documentos mais amplos, como as Diretrizes Brasileiras de Obesidade, publicadas em 2016, ou em posicionamentos específicos.
O novo texto nasce em um momento em que as opções terapêuticas se ampliaram, e o debate sobre o tratamento da doença se tornou mais complexo.
"Nos últimos anos, a discussão sobre obesidade ficou mais complexa. O médico passou a lidar com um cenário terapêutico mais amplo e com decisões que exigem avaliação cada vez mais individualizada", diz o presidente da Abeso, Fábio Trujilho.
"Essa diretriz transforma o avanço científico em orientação prática, ao oferecer mais subsídio para a conduta clínica e mais segurança para o cuidado dos pacientes."
O documento, que foi elaborado por um grupo multidisciplinar com endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas, organiza as recomendações por classes de recomendação e níveis de evidência. É uma forma de indicar o grau de respaldo científico por trás de cada conduta.
Medicamento não é solução isolada
Um dos principais pontos reforçados pela diretriz é que o tratamento medicamentoso não deve ser encarado como solução única. Segundo os especialistas, os remédios precisam estar sempre associados a mudanças no estilo de vida, como orientação nutricional e prática regular de atividade física.
O texto também estabelece critérios claros para indicação dos medicamentos. Em geral, ela deve ser considerada para pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² ou a partir de 27 kg/m² se houver complicações associadas ao excesso de gordura corporal.
Em alguns casos específicos, a diretriz admite avaliar o tratamento mesmo fora desses parâmetros, quando há aumento da circunferência da cintura ou da relação cintura-altura acompanhado de doenças relacionadas.
Decisões cada vez mais personalizadas
Outra mudança importante está na forma como as recomendações passam a dialogar com diferentes cenários clínicos. Em vez de focar apenas na perda de peso, o documento orienta o tratamento considerando condições associadas à obesidade que frequentemente aparecem no consultório.
"O documento traz direcionamentos para cenários como risco cardiovascular, pré-diabetes, doença hepática gordurosa, osteoartrite, câncer, deficiência de testosterona masculina, apneia do sono e perda de massa muscular. Isso aproxima a recomendação científica das perguntas reais do consultório", explica o médico clínico e endocrinologista Fernando Gerchman, um dos coordenadores da diretriz.
Para a maioria dos pacientes, a orientação é considerar metas de redução de peso de 10% ou mais, sempre com avaliação individual de benefícios e riscos.
Alertas e uso responsável
A diretriz também dedica espaço para alertar sobre situações em que determinados medicamentos não devem ser utilizados e sobre o uso de substâncias sem evidência científica robusta.
Outro ponto abordado é o uso off-label, em que um medicamento é prescrito fora da indicação aprovada em bula. Segundo o documento, essa prática deve ser considerada apenas quando tratamentos aprovados não puderem ser utilizados e quando houver evidências consistentes de eficácia e segurança.
"Essa conduta exige cautela. Por isso, elaboramos um capítulo específico para orientar profissionais que tratam obesidade", afirma Fábio Trujilho.
Os especialistas também chamam a atenção para riscos associados a fórmulas manipuladas ou combinações sem respaldo científico, como preparações que incluem diuréticos, hormônios tireoidianos, esteroides anabolizantes ou gonadotrofina coriônica humana (hCG).
Um problema que cresce no Brasil
A publicação da nova diretriz ocorre em meio ao avanço do excesso de peso no Brasil. Dados do Atlas Mundial da Obesidade indicam que 68% dos adultos brasileiros convivem com sobrepeso e 31% já vivem com obesidade, o que representa mais de 41 milhões de pessoas.
Mantida a tendência atual, a estimativa é que o País chegue a cerca de 119 milhões de adultos com excesso de peso até 2030. Entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos, cerca de 16,5 milhões já apresentam sobrepeso ou obesidade.