Tratar o câncer ou o paciente? A resposta da nova oncologia une IA e cuidado integral
No Rio, 11ª edição do Congresso Oncologia D'Or debate como a tecnologia e o cuidado integral transformam a jornada e a qualidade de vida do paciente
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O avanço tecnológico na oncologia costuma ganhar as manchetes, com destaque para inteligência artificial, terapias celulares, cirurgia robótica. Mas, em meio a essa corrida por inovação, cresce também um movimento silencioso e igualmente transformador: a defesa de um cuidado mais amplo, que enxergue o paciente com câncer para além do tumor.
Esse será justamente um dos eixos de discussão da 11ª edição do Congresso Internacional Oncologia D'Or - Onco in Rio, que acontece nos dias 27 e 28 de março, no Windsor Oceânico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O JC acompanhará o evento, que reúne especialistas nacionais e internacionais para debater o futuro do tratamento oncológico.
Embora tecnologias emergentes como inteligência artificial em radioterapia e terapia celular estejam entre os destaques da programação, um dos pontos mais relevantes do encontro é a consolidação da chamada abordagem multidisciplinar.
Em outras palavras, o reconhecimento de que tratar o câncer exige olhar simultaneamente para diferentes dimensões da saúde do paciente: física, emocional, social e até nutricional.
Essa perspectiva vem ganhando força à medida que a oncologia evolui. Se, no passado, o tratamento se concentrava quase exclusivamente em cirurgia, quimioterapia e radioterapia, hoje o cuidado envolve equipes integradas que podem incluir psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, especialistas em dor, enfermeiros oncológicos e profissionais de cuidados paliativos.
O objetivo é melhorar não apenas a sobrevida, mas a qualidade de vida durante e após o tratamento.
Segundo o oncologista Paulo M. Hoff, presidente da Oncologia D'Or, essa diversidade de olhares é justamente um dos diferenciais do congresso. "Um dos nossos diferenciais é a participação de profissionais de diversas áreas da saúde, pois proporciona um olhar integral sobre o cuidado do paciente oncológico", ressalta Hoff.
A participação de especialistas de diferentes áreas da saúde permite discutir estratégias de cuidado mais completas e alinhadas com os desafios atuais da oncologia.
O tema ganha ainda mais relevância diante do cenário epidemiológico. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil registra mais de 700 mil novos casos de câncer por ano.
Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que esse número pode chegar a cerca de 1,15 milhão de diagnósticos anuais até 2050. Em um contexto de crescimento contínuo da doença, ampliar o acesso a tratamentos eficazes e humanizados torna-se uma prioridade.
É nesse ponto que a tecnologia entra como aliada, mas não como protagonista isolada. No congresso, especialistas também vão discutir como ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a personalizar tratamentos, prever respostas terapêuticas e apoiar decisões clínicas. Na prática, isso significa aproximar a medicina de um modelo cada vez mais individualizado.
A programação do evento inclui ainda debates sobre pesquisa clínica, área considerada estratégica para acelerar o desenvolvimento de novas terapias. Um dos painéis abordará os primeiros resultados de estudos conduzidos a partir da parceria entre a Oncologia D'Or e a Next Oncology, voltada à realização de testes clínicos de fase 1 com potenciais agentes anticancerígenos.
"Vamos aproveitar a oportunidade para apresentar os primeiros estudos que têm sido desenvolvidos", frisa Hoff.
O encontro contará também com especialistas internacionais, como a cirurgiã oncológica Kelly Hunt, referência mundial em câncer de mama no MD Anderson Cancer Center, e o urologista Mihir Desai, conhecido por seu trabalho em cirurgia robótica e técnicas minimamente invasivas.
Com mais de 12 mil inscritos, o congresso consolida-se como um dos principais fóruns científicos da oncologia na América Latina. Mais do que apresentar novas tecnologias, o evento reflete uma transformação mais profunda no modo de compreender e tratar o câncer.
No centro dessa mudança, está uma ideia cada vez mais consensual entre especialistas: a de que inovação, na oncologia contemporânea, não se mede apenas pela sofisticação das máquinas ou dos medicamentos, mas também pela capacidade de oferecer um cuidado verdadeiramente integral ao paciente.