Mundo falha no combate à obesidade: 507 milhões de crianças e adolescentes podem viver com excesso de peso até 2040
Dados nacionais e internacionais divulgados na data revelam não apenas a dimensão do problema, mas a persistência de um padrão que atravessa gerações
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O Dia Mundial da Obesidade, lembrado em 4 de março, chega em 2026 sob um diagnóstico contundente: o mundo falha no enfrentamento da obesidade e o Brasil reflete, em escala própria, uma tendência que começa antes mesmo do nascimento e se consolida ao longo da vida.
Os dados nacionais e internacionais divulgados na data revelam não apenas a dimensão do problema, mas a persistência de um padrão que atravessa gerações, sistemas de saúde e contextos sociais.
No cenário global, a Federação Mundial de Obesidade (WOF, na sigla em ingês) alerta que o mundo está a caminho de não cumprir a meta de interromper o aumento da obesidade infantil. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, mais de uma em cada cinco pessoas de 5 a 19 anos (20,7%) vive com obesidade ou sobrepeso. O percentual é superior aos 14,6% registrados em 2010.
A projeção é de que, até 2040, 507 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar estejam com sobrepeso ou obesidade. Além disso, estima-se que, no mesmo período, 57,6 milhões deles apresentarão sinais precoces de doença cardiovascular e 43,2 milhões sinais de hipertensão associados ao excesso de peso.
É nesse contexto que o Brasil observa um avanço consistente do excesso de peso em todas as fases da vida. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, mostram que, em 2026, 7% das crianças entre 0 e 5 anos já apresentam peso elevado para a idade.
Na adolescência, o quadro se intensifica: 35,7% dos jovens têm excesso de peso e 15,4% já se encontram na faixa de obesidade.
No Brasil, o panorama por fases da vida sugere que a chamada "janela de risco" se abre antes mesmo do nascimento. O Sisvan registra 58,8% das gestantes acompanhadas com excesso de peso.
Para o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Abeso e presidente eleito da WOF para o biênio 2027-2028, o problema se forma ao longo do curso da vida e pode ser prevenido mais cedo, com sistemas mais justos e reconhecimento de fatores como desigualdade, estigma, acesso ao cuidado e ambientes que não favorecem escolhas saudáveis.
Segundo a endocrinologista Cynthia Valério, diretora da Abeso, alimentação, rotina e ambiente familiar têm peso determinante na infância. Ao chegar à adolescência, a exposição prolongada a ambientes que favorecem o consumo de ultraprocessados e o sedentarismo tende a se refletir no salto das taxas de excesso de peso.
Na vida adulta, os números reforçam a escala do cenário: em 2026, 73,6% dos adultos acompanhados pelo Sisvan estão acima do peso e 39,1% já são classificados com obesidade. Entre eles, 15,5% encontram-se em faixas associadas a maior risco de complicações e necessidade de cuidado continuado (10,09% com obesidade grau 2 e 5,46% com grau 3).
No envelhecimento, 53,4% dos idosos acompanhados apresentam sobrepeso, o que indica a manutenção do padrão de excesso de peso ao longo da vida, com impacto na mobilidade, funcionalidade e risco de comorbidades associadas.
Para o presidente da Abeso, Fábio Trujilho, a obesidade é muitas vezes naturalizada nas rotinas urbanas, na alimentação ultraprocessada, no sedentarismo e na falta de tempo, mas se trata de uma doença que atravessa fases da vida e exige enfrentamento estruturado.
No plano internacional, a Federação Mundial de Obesidade defende medidas como impostos sobre bebidas adoçadas com açúcar, restrições ao marketing direcionado a crianças, inclusive em plataformas digitais, implementação das recomendações globais de atividade física, proteção do aleitamento materno, padrões mais saudáveis de alimentação escolar, integração da prevenção e do cuidado aos sistemas de atenção primária.
Marco de conscientização no Rio de Janeiro
No Brasil, a mobilização em torno da data inclui uma ação simbólica no Santuário Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), ao lado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do Consórcio Cristo Sustentável, promove, no dia 5 de março, às 20h30, uma cerimônia com a iluminação do monumento em roxo, como marco de conscientização.
A iniciativa integra a campanha global "8 bilhões de razões para agir contra a obesidade", coordenada pela WOF.
Ao reunir dados que vão do pré-natal às projeções para 2040, a mensagem que marca o Dia Mundial da Obesidade é clara: sem políticas estruturais, monitoramento contínuo e enfrentamento do estigma, o excesso de peso continuará a se acumular ao longo das gerações no Brasil e no mundo.