Superlotação no HR: 75 crianças ocupam setor com capacidade para 26; governo cita "desconforto pontual"
Entre as crianças internadas, está um menino intubado, que precisa de leito de UTI. Ele permanece no corredor da emergência à espera de transferência
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Com capacidade para 26 leitos, a emergência pediátrica do Hospital da Restauração, no Derby, área central do Recife, opera nesta segunda-feira (2) com 75 crianças internadas - quase o triplo do limite previsto para o setor. Segundo profissionais que atuam na unidade, é o maior número já registrado nos últimos anos nesta ala pediátrica. Mesmo em períodos historicamente críticos, a ocupação costumava variar entre 40 e 50 pacientes, mas nunca havia chegado ao patamar atual.
Entre as crianças internadas, está um menino intubado, que precisa de um leito de terapia intensiva (UTI). Ele permanece no corredor da emergência à espera de transferência. De acordo com profissionais que atuam no plantão, o paciente deveria estar alocado em enfermaria enquanto aguarda a vaga, mas segue em espaço improvisado, em meio à circulação constante de macas, carrinhos de alimentação e equipes assistenciais.
A cena descrita por médicos revela um ambiente de sobrecarga que, segundo eles, intensificou-se há cerca de dois meses. Crianças que deveriam estar distribuídas em leitos de enfermaria estão acomodadas nos corredores da emergência e em uma sala de consultório. Algumas foram instaladas em consultórios médicos, que passaram a funcionar como áreas de internamento improvisadas.
Há relatos de pacientes mantidos em espaços adaptados, recebendo medicação e acompanhamento, mas fora das condições consideradas ideais de assistência.
"Os médicos estão examinando crianças em pé, no corredor", relata um dos profissionais ouvidos pela coluna Saúde e Bem-Estar, do JC. "Elas estão sendo tratadas, mas não com a dignidade necessária. Isso impacta no cuidado e na evolução clínica."
Metade das 75 crianças internadas apresenta quadros neurológicos (perfil que corresponde à principal especialidade da unidade, referência estadual em neurologia e neurocirurgia pediátrica). Além desses casos, a emergência também atende pacientes com trauma, pneumonia e demandas cirúrgicas diversas.
Parte da pressão sobre o setor está relacionada às obras de requalificação no hospital. Diversas áreas estão interditadas, o que provocou remanejamento de setores e redução temporária de espaços de internamento.
O local que havia sido destinado provisoriamente às crianças, segundo relatos, não comporta a demanda atual, o que levou à permanência dos pacientes na própria emergência.
Apesar da superlotação, a Central de Regulação de Leitos de Pernambuco continua a encaminhar novos pacientes ao HR, segundo profissionais que atuam na emergência da unidade. De acordo com eles, a transferência para outras unidades nem sempre é viável, especialmente nos casos neurológicos, já que o hospital concentra atendimentos de alta complexidade e funciona como referência para todo o Estado.
A sobrecarga também atinge as equipes. A escala da neurologia está desfalcada há cerca de nove meses, com dificuldade para contratação de neuropediatras. O déficit amplia o desafio de manter o atendimento diante do aumento da demanda e da complexidade dos casos.
Profissionais relatam que o cenário atual compromete a humanização da assistência. Crianças permanecem internadas em áreas de passagem, expostas a ruídos constantes e à circulação intensa de pessoas.
Para acompanhantes, o ambiente improvisado também impõe desgaste físico e emocional. "A gente tenta fazer o melhor possível, mas não é o cenário adequado para crianças doentes", afirma um dos profissionais ouvidos pelo JC.
Procurado, o Hospital da Restauração informou, por meio de nota, que está funcionando em regime de contingenciamento devido à requalificação das enfermarias, com remanejamento de setores de internamento, o que pode ocasionar "desconfortos pontuais".
A unidade afirmou ainda que mantém quadro completo de profissionais e abastecimento regular de insumos para a assistência.
O governo de Pernambuco informou que investe mais de R$ 60 milhões na requalificação total do hospital, com intervenções estruturais e modernização de equipamentos. Segundo a gestão estadual, as obras devem contribuir para a melhoria das condições de atendimento a pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde.
Mais do que um problema pontual de superlotação, o cenário expõe um descompasso estrutural entre a demanda crescente por atendimento pediátrico de alta complexidade e a capacidade instalada da principal referência estadual em neurologia infantil.
A manutenção do envio de pacientes pela regulação, mesmo diante da lotação acima do limite, somada às obras e ao déficit em escalas especializadas, indica que a crise ultrapassa a esfera assistencial e alcança a gestão da rede como um todo.
Para especialistas ouvidos pelo JC, quando a emergência passa a funcionar como enfermaria permanente, o risco deixa de ser apenas operacional e passa a afetar diretamente a segurança, a qualidade do cuidado e o tempo de recuperação das crianças.