Sintomas comuns e persistentes podem mascarar sinais de câncer no sangue
Fadiga crônica, infecções de repetição e gânglios inchados exigem investigação médica para descartar doenças como leucemia, linfoma e mieloma
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Cansaço que não passa com o repouso, o surgimento de ínguas sem causa aparente e infecções recorrentes são sintomas frequentemente atribuídos ao estresse ou ao ritmo da vida moderna.
No entanto, quando essas manifestações persistem, podem ser o primeiro alerta para o diagnóstico de um câncer hematológico.
Diferente de tumores sólidos, como os de mama ou pulmão, as neoplasias do sangue, que incluem as leucemias, os linfomas e o mieloma múltiplo, muitas vezes não apresentam sinais claros em seu estágio inicial, o que retarda o início do tratamento.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil registra anualmente cerca de 12,2 mil novos casos de leucemia e mais de 15,6 mil casos de linfomas (Hodgkin e não Hodgkin).
O cenário nacional é desafiador: análises indicam que mais de 60% dos diagnósticos de câncer no País ocorrem em estágios avançados, evidenciando gargalos na detecção precoce que impactam diretamente as chances de cura e a qualidade de vida dos pacientes.
Ausência de sintomas
A principal barreira para o diagnóstico precoce é o caráter inespecífico dos sintomas. Muitas vezes, a doença progride silenciosamente, dependendo mais de alterações laboratoriais do que de queixas físicas para ser descoberta. Segundo a onco-hematologista Carla Boquimpani, da Oncoclínicas, a falta de rotina de check-ups é um fator determinante para o atraso.
“Em vários casos, o paciente não sente nada. Como não procura o médico e não faz exames de rotina, alterações importantes passam despercebidas. Cansaço, anemia, infecções frequentes ou ínguas são manifestações comuns a muitas doenças. O problema é que, quando a investigação começa apenas nesse estágio, o câncer pode já estar mais avançado”, explica a especialista.
No caso dos linfomas, por exemplo, os gânglios aumentados (linfonodos) podem estar localizados em regiões internas, como o abdômen ou o tórax, tornando-os invisíveis e indolores por longos períodos.
Sinal de alerta no hemograma
Um dos grandes erros na jornada do paciente é subestimar sinais clínicos que parecem menores. A anemia, frequentemente tratada de forma genérica com suplementação de ferro, pode ser, na verdade, um indicativo de falha na medula óssea causada por um mieloma múltiplo ou mielodisplasia.
- Leucemias agudas: podem evoluir em poucas semanas, exigindo intervenção imediata para evitar o comprometimento sistêmico.
- Mieloma múltiplo: o diagnóstico tardio frequentemente ocorre quando o paciente já apresenta fraturas espontâneas ou lesões ósseas graves.
- Linfomas: o crescimento progressivo de ínguas, associado ou não a suores noturnos e febre vespertina, deve ser investigado prontamente.
“A anemia não é uma doença; ela é um sinal. Pode ser deficiência de ferro ou vitamina, mas também pode estar associada a mielodisplasia ou mieloma múltiplo. Isso precisa ser investigado”, reforça Boquimpani.
Diagnóstico com precisão
Geralmente, a suspeita inicial não ocorre no consultório do hematologista, mas sim em consultas com clínicos gerais ou ginecologistas através de um hemograma completo ou eletroforese de proteínas.
O papel do especialista é interpretar esses dados dentro de um contexto clínico específico e solicitar exames confirmatórios, como o mielograma (análise da medula óssea) ou a biópsia de linfonodo.
A agilidade nesse encaminhamento é o que define o prognóstico. Campanhas de conscientização buscam educar a população para que não aguarde a presença de dor ou limitações físicas severas para buscar auxílio médico.
A recomendação dos especialistas é que qualquer alteração persistente no bem-estar ou em exames de sangue rotineiros deve ser acompanhada por uma investigação minuciosa.