Marketing x Saúde: o que o caso 'Baly Tadala' revela sobre banalização de medicamentos no Carnaval

A alusão à tadalafila em energético acende alerta de farmacêuticos, expõe a banalização de medicamentos e os riscos potencializados pelo Carnaval

Por Cinthya Leite Publicado em 06/02/2026 às 14:32 | Atualizado em 06/02/2026 às 14:33

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O lançamento do energético "Baly Tadala", da marca Baly Energy Drink, para o Carnaval de Salvador, virou assunto nas redes sociais pelo trocadilho óbvio com a tadalafila, medicamento usado no tratamento da disfunção erétil. O que muitos têm tratado como brincadeira criativa escancara um problema maior: a normalização do uso de medicamentos como recurso de marketing. Consequentemente, vêm a banalização de riscos reais à saúde.

A tadalafila não é uma substância isenta de riscos. Trata-se de um medicamento que atua no sistema cardiovascular e cuja utilização exige avaliação clínica prévia.

Sobre o assunto, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) foi a público e teceu críticas. "Ao associar um medicamento a uma bebida recreativa e a um contexto festivo, a campanha contribui para a banalização do uso de fármacos e pode estimular a automedicação", diz, em nota, o conselho. 

O que tem no Baly Tadala?

A Baly Brasil, através da assessoria de imprensa, informa que o produto "é completamente regular e não apresenta qualquer risco do ponto de vista toxicológico ou regulatório, enquadrando-se como bebida energética. Sua fórmula é segredo industrial, entretanto, esclarecemos que não contém fármacos na composição".

A marca diz que "extratos naturais como guaraná e catuaba estão presentes, de acordo com os limites previstos em lei". 

A empresa também ressalta que o "tadala" não é uma referência ao medicamento. "Quanto ao termo 'Tadala'', salientamos que este tornou-se de uso comum no Brasil para transmitir a ideia de energia e vigor, sendo utilizado cotidianamente, inclusive em músicas e produtos em geral existentes no mercado."

Ainda na nota enviada à imprensa, a Baly Brasil destaca que "a utilização do termo 'Tadala' não faz referência ao medicamento, mas sim ao conceito de energia e vigor, amplamente conhecido e disseminado socialmente, residindo, aí, a proposta conceitual". 

O alerta do Conselho Federal de Farmácia (CFF) sobre Baly Tadala

Ainda assim, o CFF frisa que a ideia de um produto com "sabor" que remete ao medicamento reforça no imaginário coletivo a noção equivocada de que o uso é simples, seguro e livre de consequências. "Esse tipo de mensagem é particularmente preocupante em ambientes como o Carnaval, marcados por consumo excessivo de álcool, longas jornadas de exposição ao calor e menor atenção aos sinais do próprio corpo."

O posicionamento do CFF reforça que a problemática tem um marketing duvidoso, além de envolver responsabilidade sanitária e proteção da população.

Os efeitos adversos da tadalafila podem incluir queda acentuada de pressão arterial, dor de cabeça intensa, alterações visuais, taquicardia e, em situações específicas, complicações cardiovasculares graves. Esses riscos aumentam consideravelmente quando há consumo de álcool (exatamente o cenário típico do Carnaval) ou interação com medicamentos à base de nitratos, comuns entre pessoas com doenças cardíacas.

Ao associar um medicamento a uma bebida recreativa e a um contexto festivo, a campanha dá apoio a uma cultura perigosa de trivialização de fármacos. A mensagem implícita de que "remédio combina com diversão" alimenta a automedicação e desinforma, especialmente em um período marcado por calor extremo, desidratação, privação de sono e ingestão elevada de álcool.

Vale frisar ainda que não é recomendado tomar tadalafila com energético, pois a combinação é perigosa para o coração, ao aumentar riscos de pressão alta, arritmia e infarto, devido ao estresse cardiovascular causado pela ação vasodilatadora da medicação e o efeito estimulante do energético.

Criatividade publicitária não pode se sobrepor à saúde coletiva. Campanhas que flertam com a medicalização do lazer precisam ser questionadas com firmeza por autoridades sanitárias, entidades profissionais e pela própria sociedade. 

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