Após crise com médicos, gestão do Hospital de Câncer de PE diz ter reestruturado hospital e colocado pagamentos em dia

Depois de colapso em 2023 por dívida de R$ 12 milhões, diretoria diz ter reorganizado finanças, colocado pagamentos em dia e ampliado exames no HCP

Por Cinthya Leite Publicado em 02/02/2026 às 12:42

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Quando, no início de 2023, mais de 100 médicos do Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP) paralisaram atendimentos em protesto contra atrasos de pagamento e uma dívida de cerca de R$ 12 milhões, a instituição vivia a sua maior crise recente.

Com oito décadas de atuação como a principal referência no tratamento oncológico do Estado, a instituição sustenta que conseguiu reverter esse quadro por meio de uma profunda reestruturação administrativa que, segundo a gestão, gerou economia de recursos, regularizou pagamentos, ampliou o atendimento e fortaleceu a governança interna.

"O ponto de partida foi compreender as causas de um quadro marcado por insatisfação do corpo clínico, atrasos nos pagamentos de médicos e fornecedores e fragilidade nos processos internos", diz o superintendente Geral do Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP), Sidney Batista Neves.  

Atualmente, o hospital é responsável por mais de 56% dos pacientes com câncer no Sistema Único de Saúde (SUS) em Pernambuco, mais de dois mil atendimentos diariamente. 

A partir da fase de colapso em 2023, a gestão iniciou uma revisão de contratos, sistemas e rotinas administrativas, sempre com o envolvimento de equipes técnicas e de controle. "Somente em 2023, as ações permitiram uma economia estimada em R$ 8,5 milhões, valor fundamental para a reorganização do caixa e a retomada da confiança interna. Desde maio de 2023, salários e honorários médicos passaram a ser pagos em dia", informa o presidente do Conselho de Administração da Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer (SPCC), Ricardo de Almeida

Entre as medidas estruturantes adotadas, segundo Ricardo, estão a substituição completa do laboratório, a unificação dos serviços de imagem (antes fragmentados) e a otimização de contratos estratégicos.

Mais produção e menos gastos

"A reorganização permitiu ampliar o horário de funcionamento dos exames, chegando a 22 horas em alguns serviços e garantindo tomografia 24 horas, ao mesmo tempo em que reduziu custos e aumentou a produtividade", alega Sidney. Dessa forma, ele acrescenta que o HCP passou a produzir mais e a gastar menos, por meio da racionalização de processos e da eliminação de ineficiências históricas.

DIVULGAÇÃO/HCP
Entre as medidas adotadas, está a unificação dos serviços de imagem, antes fragmentados - DIVULGAÇÃO/HCP

Outro eixo central da transformação foi a mudança na relação com fornecedores. Com pagamentos regularizados e processos mais transparentes, o hospital deixou de comprar insumos a preços elevados e passou a negociar em condições mais competitivas.

"Um exemplo foi a troca de bombas de infusão, realizada a partir de um processo de padronização e concorrência técnica, que resultou em economia mensal de cerca de R$ 45 mil, além de ganhos operacionais e assistenciais para a equipe de enfermagem e para os pacientes", frisa Sidney. 

A gestão destaca ainda ter promovido uma reestruturação financeira ampla, com renegociação de dívidas e reorganização de passivos. 

Comitês estratégicos

No campo institucional, os médicos e representantes das categorias profissionais começaram a participar de processos decisórios. Foram criados comitês estratégicos, com envolvimento de áreas como orçamento e finanças, centro cirúrgico, quimioterapia, radioterapia, produção e acesso. 

Os resultados, de acordo com a gestão, também se refletiram na captação de recursos. Desde 2023, o hospital registrou crescimento de 237,07% nos valores obtidos com emendas parlamentares. A aplicação desses recursos passou a ser definida em conjunto com o corpo clínico, alinhando investimentos a necessidades assistenciais, como aquisição de materiais e equipamentos essenciais para ampliar a produção cirúrgica e reduzir gargalos.

HCP faz 50% das cirurgias oncológicas de Pernambuco 

Reconhecido como Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), o HCP oferece um leque de serviços que inclui quimioterapia, radioterapia, cirurgias, 15 clínicas médicas e acompanhamento multidisciplinar, com foco na reabilitação e qualidade de vida dos pacientes.

Entre os 13 hospitais habilitados no Estado, o HCP é responsável por 50% das cirurgias oncológicas, 25% das internações clínicas em oncologia, 33% das quimioterapias e 47% das radioterapias realizadas. 

Como o HCP se mantém

O HCP é uma entidade privada, sem fins lucrativos, que depende do apoio da sociedade para manter e expandir sua estrutura. São mais de 1.900 colaboradores. "Transformamos dificuldades em oportunidades de salvar vidas, com a ajuda de parceiros, parlamentares, doadores e a dedicação de nossos profissionais", afirma Sidney Neves.

DIVULGAÇÃO/HCP
"Reorganização permitiu ampliar o horário de funcionamento dos exames, chegando a 22 horas em alguns serviços e garantindo tomografia 24 horas", alega o superintendente do HCP, Sidney Batista Neves - DIVULGAÇÃO/HCP

O hospital mantém contrato com o governo do Estado no valor de R$ 15 milhões, sendo R$ 9 milhões pelo faturamento dos serviços prestados e cerca de R$ 6 milhões em incentivos estaduais. Mesmo com esse apoio, os recursos cobrem apenas 85% das despesas da instituição, reflexo de cerca de 20 anos de desatualização da tabela SUS, o que reforça a necessidade de parcerias contínuas.

Apoio parlamentar, doação por renúncia fiscal e doações de pessoas físicas e jurídicas são fundamentais para a continuidade dos serviços da instituição. "A campanha Troco Solidário, por exemplo, iniciada em 2018, em parceria com redes de supermercados, já arrecadou mais de R$ 6 milhões desde o início da campanha, o que destaca o engajamento crescente da sociedade pernambucana", diz Ricardo de Almeida.

Em 2024, com a destinação de emendas parlamentares, foi captado R$ 14.096.072,00, com o apoio de 47 dos 77 parlamentares pernambucanos. 

Voluntariado com 80 anos de história

O voluntariado, que historicamente faz parte da fundação do HCP, também completou 80 anos em 2025. A Rede Feminina de Combate ao Câncer de Pernambuco atua com cerca de 300 pessoas em atividades como doação de alimentos para pacientes, medicamentos e oficinas de artesanato.

Sustentabilidade e apoio social

As doações são essenciais para que a instituição continue a oferecer tratamentos de alta qualidade. Quem quiser contribuir pode realizar o pix para soudoador@hcp.org.br, acessar o site hcp.org.br/doacoes ou entrar em contato pela Central de Doações no telefone 81 3217-8090.

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