A cilada do desconto: "Rodízios Mounjaro" podem sabotar o tratamento da obesidade; especialistas orientam

Menus que seguem a lógica do consumo e desconto em ultraprocessados vão na contramão da mudança de estilo de vida necessária para tratar a obesidade

Por Cinthya Leite Publicado em 29/01/2026 às 12:37 | Atualizado em 29/01/2026 às 19:27

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"Menu Mounjaro", "Dia do Mounjaro", "Rodízio Mounjaro". Esses nomes são chamativos, a proposta parece vantajosa e o argumento é simples à primeira vista: quem usa Mounjaro ou outras "canetas emagrecedoras" (como ficaram conhecidos medicamentos que auxiliam no tratamento da obesidade) come menos. Nessa linha, descontos em petiscos e frituras voltados a quem usa medicações dessa classe começa a virar tendência. 

Em meio a estratégias de restaurantes com esse tipo menus e rodízios, especialistas acendem um sinal de alerta sobre os riscos de transformar um tratamento de saúde em ação promocional que reforça hábitos alimentares incompatíveis com o tratamento da obesidade. Aqui estamos falando sobre uma doença crônica que não se resolve apenas com medicação, nem deve ser conduzida sob a lógica do consumo e da vantagem comercial. 

Na contramão das evidências científicas, esses movimentos de restaurantes têm sido apresentados de forma positiva, como uma tendência que reduziria desperdícios e se adaptaria à saciedade precoce provocada por medicamentos como Mounjaro e Ozempic, cujos princípios ativos são a tirzepatida e a semaglutida, respectivamente. 

Mas especialistas alertam: não é apenas sobre comer menos. É sobre o que se come, como se come e o papel da alimentação dentro de um acompanhamento de saúde.

Para a cirurgiã bariátrica Luciana Siqueira, especialista no tratamento da obesidade, associar o uso dessas medicações a rodízios e promoções alimentares não faz sentido. "O medicamento é apenas uma ferramenta. O que realmente gera resultado é o acompanhamento multidisciplinar com nutrição e educação física", afirma.

Para a médica, atribuir o emagrecimento apenas ao remédio ignora o principal objetivo do tratamento: a mudança sustentada de estilo de vida. Assim, Luciana reforça que a obesidade é uma doença crônica e exige autorresponsabilidade do paciente.

"Se o paciente usa a medicação, mas continua frequentando bares para comer petiscos só porque tem um desconto, ele não se educa. Ir a lugares que oferecem comida não saudável a preços menores coloca tudo a perder, porque não se promove um emagrecimento saudável, nem físico e nem mental", alerta Luciana.

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"Hábitos alimentares não saudáveis geram efeitos colaterais que diminuem o engajamento do paciente e o levam geralmente a abandonar o tratamento por não tolerar o mal-estar", alerta a médica Luciana Siqueira - DIVULGAÇÃO

A orientação se intensifica quando se observa o tipo de comida geralmente oferecida em rodízios: pizzas, frituras, petiscos e refeições gordurosas. De acordo com a médica, manter esse padrão alimentar durante o uso da medicação compromete o processo de emagrecimento e pode trazer riscos reais à saúde. "Existe uma percepção errada de que se está perdendo peso bem, mas, na verdade, pode haver perda inadequada de massa muscular e água", explica.

Além disso, os efeitos colaterais tendem a se intensificar. A medicação provoca lentidão no esvaziamento gástrico, o que aumenta o risco de náuseas, vômitos e refluxo importante. "É fundamental educar o paciente para que ele não force a ingestão de grandes volumes", afirma Luciana. Segundo ela, quando isso acontece, o mal-estar é tão intenso que muitos acabam abandonando o tratamento.

Na prática clínica, esse comportamento tem impacto direto no engajamento. "Hábitos alimentares não saudáveis geram efeitos colaterais que diminuem o engajamento do paciente e o levam geralmente a abandonar o tratamento por não tolerar o mal-estar", relata.

A médica chama atenção para um paradoxo comum: pacientes reclamam do alto custo da medicação e dos efeitos colaterais, mas não se questionam se estão contribuindo para esses sintomas por meio da alimentação. 

Outro ponto sensível é a falsa sensação de liberação alimentar. "O uso do medicamento sem acompanhamento médico e nutricional pode gerar a ideia de que ele compensa escolhas ruins", sublinha Luciana. Esse risco é maior entre pessoas sem assistência adequada ou que compram a medicação fora do sistema formal de saúde. "Ferramentas para tratar a obesidade exigem seriedade."

Do ponto de vista da nutrição, o alerta segue a mesma linha. Para o nutricionista clínico e esportivo André Nascimento, iniciativas como "rodízio do Mounjaro" tendem a atrapalhar a educação alimentar.

"Medicamentos para emagrecimento fazem parte de um tratamento de saúde e não devem ser tratados como estratégia promocional", reitera. Segundo ele, associar o uso da medicação ao consumo em excesso reforça hábitos que vão na contramão do cuidado com a saúde e da relação consciente com a comida.

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O nutricionista André Nascimento ressalta que náuseas, estufamento, azia, refluxo, vômitos e alterações intestinais são sintomas frequentes quando a alimentação não respeita as limitações impostas pela medicação - DIVULGAÇÃO

O nutricionista explica que refeições muito gordurosas, frituras, ultraprocessados, grandes volumes de comida, excesso de açúcar ou álcool são especialmente problemáticos para quem usa esse tipo de medicação. "Esses medicamentos aumentam a saciedade e retardam a digestão, o que torna rodízios e buffets com livres formatos pouco adequados para quem está em tratamento", pontua.

Os efeitos colaterais descritos pelo nutricionista coincidem com os observados na prática médica: náuseas, estufamento, azia, refluxo, vômitos e alterações intestinais. "Esses sintomas são frequentes quando a alimentação não respeita as limitações impostas pela medicação."

Para ambos os especialistas, a discussão não é sobre excluir esse público dos restaurantes, mas repensar a forma de acolhimento. Em vez de estimular o consumo "livre", a adaptação deveria focar na qualidade das refeições.

"Oferecer porções menores, pratos mais leves e preparações equilibradas é uma abordagem mais responsável", defende André. Segundo ele, o verdadeiro cuidado não está em cobrar menos porque a pessoa come menos, mas em oferecer alimentos que respeitem o corpo, o tratamento e a relação saudável com a alimentação.

"Restaurantes que prezam pela alimentação saudável, com foco em proteínas e nutrientes equilibrados, poderiam oferecer benefícios para quem está em tratamento", destaca Luciana. Para ela, estabelecimentos de comida de verdade (com arroz, feijão, saladas e proteínas) ajudam o paciente a se manter no plano alimentar e criam um ciclo positivo de saúde.

O movimento pode até ser chamado de gastronômico, mas ele toca diretamente em uma questão de saúde pública. Reduzir porções não basta se o cardápio continua promovendo excessos. Quando a lógica da promoção ignora o tratamento, o risco é transformar uma ferramenta terapêutica em pretexto para manter os mesmos hábitos que levaram à doença.

No fim das contas, como lembram os especialistas, emagrecimento saudável não é sobre comer menos a qualquer custo, mas sobre aprender a comer melhor com consciência, responsabilidade e suporte adequado.

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