Transmissão ativa: alta incidência de hanseníase mantém Recife em alerta

Capital pernambucana registra 212 novos casos em 2025, mantém elevada incidência da doença e enfrenta desafios no diagnóstico precoce e na vigilância

Por Cinthya Leite Publicado em 22/01/2026 às 20:26 | Atualizado em 22/01/2026 às 20:36

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Recife está entre as capitais brasileiras com maior número de pessoas que vivem com hanseníase. Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que, em 2025, o município apresentou 212 casos novos de hanseníase. O número faz a capital pernambucana permanecer como área de alta endemicidade (indica a manutenção de uma elevada incidência e de transmissão ativa).

O cenário exige a manutenção e o fortalecimento das estratégias de vigilância ativa e diagnóstico precoce. O dado também evidencia falhas no enfrentamento da doença e acende um alerta para a saúde pública. 

A situação se agrava diante da baixa investigação de contatos: cerca de 40% dos familiares dos pacientes não são examinados, o que amplia o risco de transmissão contínua e até de recontaminação de pessoas já tratadas.

O contexto ganha ainda mais relevância em janeiro, mês marcado pela campanha Janeiro Roxo, voltada à conscientização sobre a hanseníase, doença infecciosa crônica que segue como um grave problema de saúde pública no Brasil. 

De acordo com o dermatologista Sérgio Paulo, o cenário é preocupante. "A hanseníase é uma doença que tem cura, mas ainda é diagnosticada tardiamente. Quando isso acontece, as sequelas podem ser graves e irreversíveis", alerta o especialista.

Dados apontam que 14,5% dos pacientes apresentam sequelas graves, como cegueira, impotência sexual e deformidades nas mãos, conhecidas como "mãos em garra", que comprometem a capacidade para o trabalho manual. Essas complicações estão diretamente relacionadas à demora no diagnóstico.

Outro fator crítico é o abandono do tratamento, que atinge 13,5% dos adultos e 20% das crianças. "Interromper o tratamento é extremamente perigoso, pois aumenta o risco de resistência da bactéria aos antibióticos disponíveis, que já são poucos", explica Sérgio Paulo. Atualmente, a cura ocorre em 71,6% dos casos.

O que é a hanseníase e quais são os sintomas?

A hanseníase é causada por uma bactéria que acomete principalmente a pele e os nervos periféricos. Os sintomas iniciais costumam ser discretos e incluem manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na pele, acompanhadas de dormência ou diminuição da sensibilidade, especialmente à diferença entre frio e quente.

"Na fase inicial, a doença ainda não é transmissível e não provoca sequelas. Por isso, reconhecer esses sinais precocemente é fundamental", destaca o dermatologista.

Prevenção e importância da atenção básica

A principal forma de prevenção é o diagnóstico precoce e o tratamento adequado, além da avaliação dos contatos familiares dos pacientes.

Segundo Sérgio Paulo, é essencial investir na qualificação das equipes da Atenção Primária, responsáveis pelo diagnóstico e acompanhamento dos casos.

"Infelizmente, esse atendimento ainda não é realizado de forma eficiente em muitas regiões, o que contribui para a manutenção da cadeia de transmissão", afirma.

O Brasil concentra 92% de todas os pacientes que vivem com a doença no continente americano, o que reforça a urgência de políticas públicas eficazes e ações educativas contínuas.

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