Butantan convoca em Pernambuco idosos voluntários para estudo de nova vacina contra gripe voltada ao SUS

Estudo nacional compara nova vacina do Butantan com imunizante de alta concentração usado em clínicas privadas, com potencial impacto direto no SUS

Por Cinthya Leite Publicado em 09/01/2026 às 14:20 | Atualizado em 09/01/2026 às 14:22

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O envelhecimento traz mudanças naturais ao organismo, e uma das mais importantes ocorre no sistema imunológico. Com o passar dos anos, as defesas do corpo tornam-se menos eficientes, um processo conhecido como imunossenescência. É uma condição que, entre outras coisas, reduz a resposta às vacinas tradicionais e aumenta o risco de complicações causadas pela gripe. 

Diante desse cenário, surge a necessidade de uma proteção contra o vírus influenza mais específica e potente pensada para os idosos. Com esse objetivo, o Instituto Butantan desenvolveu uma nova vacina contra a gripe voltada exclusivamente para o público a partir de 60 anos. Na próxima segunda-feira (12), no Recife, será iniciado o recrutamento de voluntários para a fase final de testes clínicos.

Pernambuco está entre os Estados participantes do estudo, por meio do Plátano Centro de Pesquisa Clínica, que já começou a cadastrar interessados. 

Atualmente vacinas mais potentes contra a gripe para idosos estão disponíveis apenas na rede privada, o que restringe o acesso de grande parte da população. O estudo com a nova vacina do Butantan busca mudar essa realidade.

A pesquisa vai avaliar se a nova vacina adjuvada do Butantan é equivalente ou superior à vacina de alta concentração comercializada em clínicas particulares. Caso os resultados confirmem essa eficácia, o impacto pode ser direto na saúde pública.

Por que idosos precisam de uma vacina diferente

No caso da gripe, a fragilidade do sistema imunológico que vem com o envelhecimento cobra um preço alto: mais de 75% das internações e mortes relacionadas à doença no Brasil atingem pessoas com 60 anos ou mais, geralmente por complicações como pneumonia ou agravamento de doenças crônicas.

A vacina da gripe ofertada atualmente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), oferece proteção importante, mas não atua da mesma forma em todas as faixas etárias. Com o avanço da idade, o organismo passa a produzir menos anticorpos e a resposta imunológica tende a ser mais curta. Isso ajuda a explicar por que a gripe segue sendo uma das principais causas de hospitalização e morte entre idosos, mesmo com campanhas anuais de vacinação.

A nova vacina desenvolvida pelo Butantan tenta responder exatamente a essa limitação. A principal inovação está no uso de um adjuvante, substância capaz de estimular e prolongar a resposta do sistema imunológico, o que torna a proteção mais duradoura e eficaz nesse público.

Da rede privada para o SUS

O pesquisador Rafael Dhalia, da Fiocruz Pernambuco e diretor do Plátano Centro de Pesquisas Clínicas, destaca que a proposta do estudo é clara. "O Butantan desenvolveu uma nova vacina da gripe para idosos e vai comparar a eficácia dela com a da vacina da rede privada", diz. 

Nas clínicas privadas, é ofertada a vacina quadrivalente Efluelda, da farmacêutica Sanofi. Estudos mostram que esse imunizante, destinado a idosos, pode diminuir o risco de hospitalizações por eventos cardiorrespiratórios, pneumonia e outras causas. Efluelda é uma vacina de alta dose que apresenta quatro vezes mais antígeno (componente ativo). 

Em comparação à vacina contra gripe de dose padrão, Efluelda fornece resposta imune superior contra os casos de gripe na população idosa. 

"Se a eficácia da nova vacina do Butantan for igual ou superior à da vacina da gripe da rede privada, a do Butantan será ofertada de forma gratuita nos postos de saúde", informa Rafael Dhalia.

Um estudo sem placebo

Para quem pensa em participar, uma informação costuma ser decisiva: não haverá placebo. Todos os voluntários da fase 3 do estudo receberão vacinas com tecnologias já utilizadas e reconhecidas.

Ao todo, 6.900 pessoas participarão da pesquisa, distribuídas em 20 centros de pesquisa clínica no Brasil. Metade receberá a nova vacina adjuvada desenvolvida pelo Butantan; a outra metade será imunizada com a vacina de alta concentração disponível atualmente apenas na rede privada.

Isso significa que todos os participantes estarão protegidos contra a gripe durante o estudo.

Pernambuco no centro da pesquisa

Em Pernambuco, o recrutamento de voluntários é feito pelo Plátano Centro de Pesquisa Clínica, que integra a rede nacional responsável pela condução do estudo. O perfil buscado é de pessoas com 60 anos ou mais, com condições de saúde controladas.

Não podem participar indivíduos com histórico de alergia severa a ovo ou frango, nem aqueles em uso de terapias imunossupressoras, como radioterapia ou tratamento contínuo com corticoides.

Benefícios para quem participa

Além de contribuir para o avanço da ciência e da saúde pública, os voluntários terão benefícios diretos durante o acompanhamento, entre eles:

  • Acesso a vacinas de alta performance, indisponíveis no SUS atualmente;
  • Acompanhamento médico especializado, realizado por equipe multidisciplinar ao longo de todo o estudo;
  • Monitoramento da resposta imunológica, com coletas de sangue durante seis meses para análise de anticorpos.

Como se inscrever

A primeira etapa do recrutamento prevê a seleção de 300 voluntários a partir desta segunda-feira, 12 de janeiro, com a abertura de mais 7 mil vagas posteriormente. Os interessados em participar do estudo em Pernambuco podem entrar em contato com o Plátano Centro de Pesquisa Clínica pelo WhatsApp (81 99476-2173) ou pelo e-mail: pesquisa@institutoautoimune.com.br.

Participar do estudo é um gesto que vai além do cuidado individual. É também uma forma de colaborar para que, no futuro, milhões de idosos brasileiros tenham acesso gratuito a uma proteção mais eficaz contra a gripe : um escudo reforçado para uma fase da vida que exige atenção redobrada.

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