Balanço: 2025 amplia o acesso à saúde em Pernambuco, mas expôs o tamanho da demanda reprimida

Investimentos em cirurgias, exames, interiorização e infraestrutura avançaram, mas filas e desigualdades regionais seguem pressionando a rede

Por Cinthya Leite Publicado em 30/12/2025 às 16:29 | Atualizado em 30/12/2025 às 17:25

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O ano de 2025 foi marcado, na saúde pública de Pernambuco, por um conjunto de ações voltadas à reestruturação da rede assistencial e à descentralização de serviços historicamente concentrados na capital.

A estratégia, conduzida pela Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), combinou investimentos em infraestrutura hospitalar, ampliação da oferta de cirurgias e exames, interiorização do atendimento especializado e modernização tecnológica.

Programas como o Cuida PE, o Pernambuco Acessível e a expansão das carretas de saúde concentraram parte significativa dos recursos aplicados ao longo do ano.

Segundo a secretária Estadual de Saúde, Zilda Cavalcanti, o foco das ações foi duplo: "melhorar a assistência ao longo do Estado e as condições de trabalho para os profissionais de saúde".

Os números, que apontam aumento da capacidade instalada e da produção assistencial, também ajudam a dimensionar o tamanho das demandas acumuladas que o sistema ainda enfrenta.

Ao mesmo tempo, os próprios números ajudam a dimensionar os desafios persistentes: filas históricas, gargalos estruturais e desigualdades regionais que seguem pressionando o sistema.

O ano termina com avanços, mas também com a constatação de que transformar investimento em acesso sustentado e qualidade contínua seguirá como o principal teste da política de saúde nos próximos ciclos.

Cirurgias eletivas avançam, mas evidenciam o tamanho do represamento histórico

O Cuida PE encerra 2025 com investimento de R$ 157 milhões, direcionado à ampliação da oferta de cirurgias eletivas. Foram abertos 213 leitos exclusivos para esse tipo de procedimento, o que tem permitiu ao Estado ultrapassar a marca de 250 mil cirurgias realizadas, com projeção de chegar a 376 mil procedimentos até o fechamento do ano.

A secretária Zilda Cavalcanti afirma que o volume alcançado posiciona Pernambuco de forma diferenciada no Nordeste. "Se a gente vê o número de cirurgia eletiva proporcional à população, nós somos o Estado do Nordeste que mais operou", diz.

Na área de diagnóstico, houve ampliação do acesso a exames de alta complexidade. Em nove das 12 Gerências Regionais de Saúde (Geres), as filas para ressonância magnética e tomografia foram zeradas, o que abrange 136 municípios sem demanda reprimida nesses exames.

Os dados indicam avanço na capacidade de resposta do sistema, mas também evidenciam o esforço necessário para enfrentar filas formadas ao longo de anos, especialmente em um Estado com forte dependência do SUS.

PHILLIPE JONATHAN/SES-PE
Entre os principais números registrados da Carreta da Mulher Pernambucana, estão os 32 mil exames de mamografia realizados, além das ultrassonografias das mamas e consultas com ginecologistas, que somam 23 mil procedimentos - PHILLIPE JONATHAN/SES-PE

Saúde itinerante e rastreamento do câncer: alcance ampliado no interior

Outra frente priorizada em 2025 foi a interiorização do atendimento preventivo, especialmente na saúde da mulher. Com investimento anual de R$ 75 milhões, quatro carretas da mulher circularam por todas as regiões do Estado (Sertão, Agreste, Zona da Mata e Região Metropolitana), com a realização de mais de 59 mil atendimentos em 98 municípios.

O modelo buscou reduzir barreiras de acesso ao diagnóstico precoce de câncer de mama e de colo do útero. Segundo a secretária, o desenho do serviço foi pensado para aproximar o cuidado da rotina das mulheres. "A carreta vai onde a mulher está. Ela chega perto de casa", afirma.

Como resultado, cerca de 200 mulheres tiveram diagnóstico de câncer ou lesões precursoras e foram encaminhadas de forma antecipada para tratamento oncológico na rede especializada, por meio das Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacom).

Pessoa com deficiência: tentativa de superar a concentração de serviços

O Pernambuco Acessível (PE Acessível) concentrou mais de R$ 150 milhões em ações voltadas ao atendimento da pessoa com deficiência, um segmento historicamente marcado pela centralização dos serviços no Recife.

A estratégia adotada em 2025 buscou regionalizar tanto a entrega de equipamentos quanto o acompanhamento assistencial.

Entre os principais números do programa estão:

  • Cadeiras de rodas: média de 400 entregas por mês, com aumento das cadeiras motorizadas (de 5 para 30 mensais);
  • Saúde auditiva: distribuição de 2.320 aparelhos auditivos por mês e eliminação da fila para implante coclear, com mais de 40 procedimentos realizados;
  • Capacitação e Transtorno do Espectro Autista (TEA): criação de curso de pós-graduação gratuito, com 200 vagas por ano, para profissionais da rede, além da inclusão de neuropediatras em seis Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

As medidas indicam avanço no acesso, mas também evidenciam a dimensão do passivo assistencial acumulado no cuidado à pessoa com deficiência.

Infraestrutura hospitalar: reformas, manutenção e gargalos históricos

Na área hospitalar, 2025 foi marcado por intervenções simultâneas de manutenção e modernização.

No Hospital da Restauração (HR), referência em alta complexidade, foram requalificados setores como centro de imagem, endoscopia digestiva e corredores da emergência. Ao longo do ano, tiveram início reformas estruturais nos 6º e 8º andares, com previsão de continuidade nos 4º e 5º pavimentos.

Um dos pontos críticos enfrentados foi a substituição de elevadores antigos, considerados limitadores da operação hospitalar. "Tem elevador desse que tem mais de 70 anos de uso. Vai ser feita a troca ao longo de todas as unidades", afirmou a secretária, ao detalhar o plano de instalação de 33 novos elevadores na rede estadual.

MANOEL FILHO/HR/SES-PE
Na Sala Vermelha da Emergência Geral do Hospital da Restauração, no 1º andar, as adequações físicas possibilitarão uma mudança no fluxo de entrada dos pacientes graves - MANOEL FILHO/HR/SES-PE

Transformação digital: integração como eixo estruturante

Paralelamente às obras físicas, a Secretaria de Saúde avançou na implantação da Rede Estadual de Dados em Saúde (Redes). A iniciativa introduziu o prontuário eletrônico e a interoperabilidade entre unidades, com a proposta de integrar informações clínicas e administrativas.

O investimento tecnológico incluiu ferramentas de telesaúde e telemonitoramento, articuladas com a renovação de pisos, redes elétricas e hidráulicas dos hospitais.

A estratégia aponta para uma tentativa de alinhar expansão física e digital, embora a consolidação desse modelo dependa de adesão das equipes e continuidade dos investimentos.

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