Cuidados paliativos são essenciais para a dignidade e sustentabilidade do sistema de saúde, afirma especialista
Médico paliativista explica como o cuidado integral melhora a qualidade de vida, reduz custos e humaniza o sistema de saúde
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Cada vez mais reconhecidos como uma parte essencial da assistência em saúde, os cuidados paliativos vão muito além do fim da vida. Eles representam uma abordagem que busca aliviar o sofrimento físico, emocional, social e espiritual de pessoas com doenças graves, devolvendo conforto, autonomia e dignidade, independentemente da possibilidade de cura.
No Brasil, o tema ganha relevância diante do envelhecimento populacional e da sobrecarga dos sistemas de saúde. Ainda assim, o acesso continua limitado: apenas cerca de 234 serviços funcionam no País, segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).
Médico paliativista e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), Douglas Crispim defende que o País precisa transformar a forma como lida com o sofrimento humano nas doenças crônicas e terminais.
Para ele, oferecer cuidados paliativos desde o diagnóstico é uma questão não apenas de humanidade, mas também de eficiência.
“Os cuidados paliativos são o cuidado ativo e integral de pessoas com doenças graves, desde o diagnóstico, e não apenas nos momentos finais da vida”, explica Crispim. “O foco é aliviar sintomas como dor, falta de ar, ansiedade e sofrimentos existenciais, além de apoiar decisões médicas difíceis e fortalecer o paciente e a família”.
Déficit que custa vidas e sobrecarrega o sistema
De acordo com a ANCP, cerca de 625 mil brasileiros precisariam de cuidados paliativos atualmente. “A falta deste cuidado gera dor, angústia e sofrimento desnecessários. Isso se reflete não apenas em qualidade de vida, mas também em sobrevida e custo social”, alerta o médico.
Ele ressalta que o investimento nessa área não antecipa a morte — ao contrário, melhora o conforto e pode até prolongar a vida com menos complicações. “É um investimento que salva dignidade e, ao mesmo tempo, protege o sistema de saúde”.
“Cuidados paliativos podem salvar o sistema de saúde”
Para o especialista, um dos grandes desafios do País é abandonar o modelo que reage apenas ao adoecimento.
“Um sistema que só reage ao adoecimento é insustentável. Quando oferecemos cuidados paliativos de forma precoce e integrada, reduzimos internações, evitamos intervenções fúteis e devolvemos às pessoas autonomia e conforto. Isso significa eficiência com humanidade”.
Crispim também critica a falta de comprometimento de parte dos gestores públicos: “Há muitos que desejam o mérito de ‘ser mais humanos’, mas poucos dispostos a construir serviços de verdade, com métrica, protocolos e times comprometidos”.
Formação e acreditação: caminhos para o avanço
Mesmo com o reconhecimento crescente da importância do tema, a formação profissional ainda é um gargalo.
“A falta de preparo das equipes é uma das principais queixas. Grande parte dos profissionais não possui formação específica para atuar com cuidados paliativos, o que compromete diretamente a qualidade da assistência oferecida”, afirma Crispim.
Nos últimos anos, o Brasil tem avançado com a criação de residências médicas e o reconhecimento da especialidade em enfermagem, além da obrigatoriedade do ensino de cuidados paliativos nas faculdades de medicina.
Em 2024, o País também instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), considerada uma das mais completas do mundo.
“O protagonismo do Brasil nessa agenda é importante, mas ainda precisamos de uma mobilização real para que os projetos saiam do papel e se consolidem”, defende o médico.
Garantia de qualidade e sustentabilidade
Segundo Crispim, a acreditação é peça-chave para garantir que os serviços ofereçam atendimento humanizado e eficiente.
“A má prática em cuidados paliativos gera desperdícios milionários em um sistema já sobrecarregado. A ONA cumpre um papel estratégico ao difundir boas práticas e criar pilares sólidos para o cuidado paliativo no Brasil. Não basta contabilizar a quantidade de serviços — é preciso garantir qualidade, de forma que o atendimento seja efetivo e multiprofissional”.
Para ele, cuidar de quem enfrenta uma doença grave é mais do que uma obrigação médica, é um compromisso ético e humano. “Cuidar é mais do que tratar. É aliviar o sofrimento e devolver sentido e dignidade ao tempo que se tem”.