"Medicina não é foto, é filme": o olhar clínico que não desiste do paciente

Congresso debateu essência da medicina: persistência, raciocínio e escuta são ferramentas sofisticadas para decifrar diagnósticos, mesmo os complexos

Por Cinthya Leite Publicado em 11/10/2025 às 21:10 | Atualizado em 11/10/2025 às 22:16

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"Medicina não é foto, é filme." A frase, compartilhada pelo médico clínico Marcus Villander, presidente do 18º Congresso Brasileiro de Clínica Médica, resume o que há de mais fascinante e desafiador no ofício de quem se dedica a decifrar doenças e restaurar vidas: o tempo. O tempo de ouvir, de observar, de refazer caminhos até que o diagnóstico apareça inteiro.

O congresso, que terminou neste sábado (11), no Centro de Convenções de Pernambuco, reuniu 3 mil especialistas para debater o espírito de uma profissão que tem na observação, na escuta e na persistência suas ferramentas mais sofisticadas.

A frase dita por Villander, durante uma das aulas que ministrou durante o congresso, vem do médico clínico Francisco José Trindade Barreto, conhecido como Chicão. Através dela, Villander ilustra que o diagnóstico raramente se revela num único retrato, numa consulta isolada, num exame de imagem.

"Às vezes, a doença ainda está se apresentando. Ela não está completa na fotografia; vai se desenhando ao longo do tempo, como um filme. Por isso, se na primeira consulta, o médico não conseguiu fechar o diagnóstico, o importante é não largar a mão desse paciente", disse.

Para ele, é fundamental "continuar revisitando a história, reexaminando, pedindo novos exames quando necessário. É nesse acompanhamento contínuo que o diagnóstico se consolida e, muitas vezes, que a vida é salva". 

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"A doença rara tem uma peculiaridade que aprendi com o mestre Chicão: 'medicina não é foto, medicina é filme'. Às vezes, a doença rara vai se apresentando ao longo do tempo, ao longo do filme", disse Marcus Villander - CINTHYA LEITE/JC

Obstinação em decifrar doenças e restaurar vidas

Em tempos de diagnósticos instantâneos e inteligência artificial, o clínico continua a ser um intérprete das histórias humanas, aquele que sabe que um sintoma é mais do que um sinal biológico: é uma narrativa.

O que Marcus Villander propõe é quase um ato de resgate do tempo da escuta e da observação, pilares da boa clínica. "Medicina não é sobre pressa. É sobre persistência, raciocínio e vínculo", resume.

Ao sublinhar que a essência do diagnóstico ainda está no gesto mais antigo da medicina, que é o ouvir, ele frisa que a investigação do quadro do paciente segue uma liturgia que é básica e fundamental para qualquer diagnóstico. "É a coleta da história, o que chamamos de medicina narrativa. O paciente fala livremente, do jeito que quiser, sobre o que sente e o que acredita ser importante."

A partir daí, o clínico começa a construir o seu raciocínio. "Da história, tiramos nossas primeiras hipóteses - no mínimo cinco. É a partir dessas possibilidades que decidimos o que vamos examinar e que exames pedir. Os exames complementares não vêm antes da escuta. Eles vêm depois, para confirmar ou afastar as hipóteses que a clínica levantou."

Essa forma de pensar é o coração da clínica médica moderna, que se apoia em ciência e sensibilidade. Mas Villander lembra que, nas doenças raras, o desafio é maior. "Elas, às vezes, revelam-se aos poucos, em capítulos. A cada nova consulta, ganha-se uma nova pista. É por isso que eu digo que medicina é filme: o enredo se constrói no tempo."

Ou seja, é um raciocínio de longa duração: uma medicina que observa, espera e revisita. "A gente continua a ouvir, a reexaminar, a refazer exames quando necessário. Cada retorno é uma nova cena do mesmo filme", diz. 

Do ataque em massa à precisão: "o imunobiológico é o nosso drone"

Ao falar sobre terapias modernas, Villander troca o tom poético pelo didático. Ele descreve a diferença entre medicamentos inespecíficos (como corticoide e ciclofosfamida) e os novos imunobiológicos, que revolucionaram o tratamento de doenças autoimunes e inflamatórias.

"Quando usamos corticoide, é como lançar uma bomba atômica: ataca tudo, destrói linfócitos, neutrófilos, células boas e ruins. Já o imunobiológico é o nosso drone. Ele vai direto ao alvo, bloqueia apenas a molécula responsável pela inflamação. É terapia de precisão, específica, elegante. Melhora o desfecho clínico e reduz os efeitos adversos."

A metáfora do drone resume uma mudança de era. Se antes o clínico tinha poucas armas e muita intuição, hoje ele tem à disposição uma medicina que pensa molecularmente, mas que só faz sentido se não perder a dimensão humana.

"O mais gostoso da medicina é participar da vida das pessoas"

Ao falar sobre a prática clínica, Villander coloca em foco o que dá sentido à profissão: as pessoas. "O mais gostoso da medicina é que nós estamos autorizados a participar da vida das pessoas", diz. "A gente conhece com quem elas são casadas, quais os problemas da família, dos filhos, o que fazem da vida. Quando uma pessoa adoece, ela perde parte do seu potencial. E quando conseguimos devolvê-lo, é como vê-la renascer."

Villander compara o ato de cuidar a restaurar um projeto de vida interrompido. "Imagine se Einstein tivesse morrido na juventude, antes de escrever o que escreveu. Mas ele teve um médico que o cuidou, que o manteve vivo e produtivo. Sem perceber, nós participamos de tudo o que essas pessoas constroem: projetos, pesquisas, afetos, futuros. É por isso que a medicina é tão transformadora."

O clínico, o detetive e o humano

Nas doenças raras, o médico precisa ter um pouco de pensamento de detetive. "Precisamos ter a obstinação em descobrir o que o paciente tem. O clínico só larga o paciente quando sabe o que ele tem e como ajudá-lo, mesmo que o tratamento seja feito ou continuado por outro médico."

Essa determinação vem da convicção de que a clínica é soberana: uma máxima repetida ao longo de todo o congresso. "A clínica médica é o espaço da integração. É onde a tecnologia encontra a escuta, onde a ciência encontra o olhar humano. É a especialidade que amarra todas as outras. Diagnóstico é como arte: se olhamos rápido demais, não vemos o quadro todo."

Entre metáforas de drones, filmes e histórias, Villander traduz a alma da clínica médica contemporânea: uma medicina que se recusa a ser automática, que valoriza o raciocínio, a empatia e a curiosidade intelectual.

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