Intoxicação por metanol: entenda como funcionam os antídotos que o Brasil acaba de comprar
Fomepizol bloqueia diretamente a ação do metanol no fígado, enquanto o etanol compete pela metabolização e retarda a formação de toxinas
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O avanço dos casos de intoxicação por bebidas adulteradas com metanol no Brasil levou o governo federal a anunciar, neste sábado (4), a compra emergencial de antídotos. Segundo o Ministério da Saúde, já foram adquiridas 12 mil ampolas de etanol farmacêutico e 2.500 tratamentos de fomepizol, este último em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde. As medidas buscam reforçar a rede hospitalar, diante da confirmação de 11 casos por exames laboratoriais e 127 notificações suspeitas em 12 estados.
Como o metanol age no organismo
O metanol é uma substância tóxica, de difícil detecção em bebidas adulteradas. Ao ser ingerido, é metabolizado pelo fígado, transformando-se em formaldeído e depois em ácido fórmico, composto responsável pelos efeitos mais graves, como convulsões, cegueira, falência múltipla de órgãos e até a morte. Mesmo pequenas doses podem ser fatais.
O papel dos antídotos
O tratamento de referência contra intoxicação por metanol é feito com antídotos que inibem a enzima álcool desidrogenase (ADH). Essa enzima é a responsável por iniciar a transformação do metanol em substâncias tóxicas.
Fomepizol
É considerado o antídoto mais eficaz. Bloqueia de forma direta a ação da ADH, impedindo que o metanol seja convertido em ácido fórmico. Tem poucos efeitos colaterais, é aplicado por via intravenosa e age de forma rápida. Por isso, é adotado como padrão em países da Europa e América do Norte. No Brasil, não há produção local: a substância precisa ser importada, o que dificulta o acesso em situações de emergência.
Etanol farmacêutico
É uma alternativa ainda utilizada em hospitais brasileiros, sobretudo quando o fomepizol não está disponível. O mecanismo de ação é diferente: o fígado, ao receber simultaneamente etanol e metanol, “prioriza” metabolizar o etanol, deixando o metanol temporariamente inativo até ser eliminado pelos rins. O problema é que o paciente precisa manter níveis elevados de etanol no sangue, permanecendo em estado de embriaguez durante o tratamento. Além disso, o etanol puro não costuma estar disponível nas farmácias hospitalares comuns, sendo encontrado principalmente em centros de referência.
Hemodiálise nos casos graves
Quando a quantidade de metanol ingerida é elevada, a ação dos antídotos sozinha não é suficiente. Nesses casos, é necessária a hemodiálise para remover tanto o metanol quanto o ácido fórmico já produzido, reduzindo os danos ao organismo.
Uso antes mesmo do dignístico
O Ministério da Saúde reforçou que os dois antídotos podem ser utilizados mesmo diante apenas da suspeita clínica de intoxicação, sem necessidade de confirmação laboratorial. A administração deve ocorrer em ambiente hospitalar e sob prescrição médica, seguindo protocolos internacionais.
Segundo a pasta, as medidas emergenciais seguem recomendações científicas reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A expectativa é de que a chegada do lote de fomepizol, ao longo da próxima semana, fortaleça a capacidade de resposta da rede de saúde frente ao risco de novos casos.