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Transporte sobre trilhos: Setor metroferroviário cresce apenas 2,7% no Brasil e revela abismo regional e urgência de expansão

Com 1,30 bi de passageiros no 1º semestre de 2026, setor reage, mas esbarra no travamento da malha e na concentração quase absoluta da rede no Sudeste

Por Roberta Soares Publicado em 02/10/2026 às 9:00

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O setor metroferroviário brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com o transporte de 1,30 bilhão de passageiros, o que representa um acréscimo de 33,85 milhões de usuários em comparação ao mesmo período de 2025. Embora o avanço de 2,7% traga uma espécie de alento para um segmento que enfrenta crise estrutural e subfinanciamento há décadas, o índice de crescimento é modesto e expõe um gargalo profundo no planejamento urbano do País.

A média de usuários por dia útil alcançou 8,86 milhões de passageiros entre janeiro e junho, superando os patamares do ano anterior em todos os meses. Mas a movimentação total continua travada muito abaixo da capacidade da infraestrutura instalada e do papel que o modal sobre trilhos deveria desempenhar na mobilidade urbana das metrópoles brasileiras.

E a razão central para que esse crescimento permaneça estagnado abaixo da casa dos 3% é uma só: a lentidão crônica e histórica da expansão da malha metroferroviária. Sem a ampliação física das linhas, o transporte público sobre trilhos não consegue atrair novos passageiros nem oferecer uma alternativa real ao colapso do trânsito. O balanço é divulgado pela Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos).

“Os números mostram que ainda temos espaço para ampliar o papel do transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras. Para que esse potencial se transforme em crescimento consistente, precisamos avançar em condições estruturais para o setor, como financiamento permanente da expansão, custeio das operações e governança metropolitana que permitam planejar, integrar os sistemas e sustentar essa expansão a longo prazo”, afirma Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos.

POUCA EXPANSÃO DA MALHA E CONCENTRAÇÃO SÃO O MAIOR OBSTÁCULO

Divulgação
Com ritmo histórico de expansão de apenas 12,9 km ao ano, a rede metroferroviária brasileira precisa ampliar sua infraestrutura para destravar o crescimento de passageiros - Divulgação
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Obras em andamento no setor projetam a entrega de 174,2 km de novos trilhos e 115 estações, com maior volume de conclusões previsto até 2029 - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação

Os dados históricos do setor comprovam esse descompasso: entre 2015 e 2025, o Brasil adicionou somente 129 quilômetros de linhas metroferroviárias, registrando uma média insuficiente de apenas 12,9 quilômetros por ano e, mesmo assim, quase concentrado no Sudeste brasileiro. Sem uma rede extensa e integrada, o sistema opera no limite do estrangulamento operacional sem conseguir induzir um salto de demanda.

Além da expansão física insuficiente, o balanço da ANPTrilhos revela uma severa discrepância regional, marcada pelo predomínio quase exclusivo do Sudeste brasileiro. Do ganho de 36,42 milhões de passageiros registrado nas Unidades da Federação com saldo positivo, impressionantes 97,3% — equivalentes a 35,45 milhões de usuários — ficaram concentrados apenas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. As linhas paulistas responderam pelo transporte de 1 bilhão de passageiros no semestre (alta de 3,1%), impulsionadas principalmente pelos trens metropolitanos, enquanto o sistema fluminense avançou 3,2%, alcançando 166,66 milhões de passageiros.

Enquanto o Sudeste puxa os números nacionais para cima, a maior parte do restante do País amarga estagnação ou queda no volume de passageiros - a Região Metropolitana do Recife é um forte exemplo, com a degradação do Metrô do Recife -, evidenciando que o crescimento não é homogêneo no território nacional.

DEGRADAÇÃO DO METRÔ DO RECIFE COLOCA PE EM DESTAQUE NEGATIVO

ARTE
Balanço Metroferroviário no Brasil (1º Semestre de 2026) - ARTE

Seis Unidades da Federação registraram redução da demanda no período, com destaque negativo para Pernambuco, que teve a maior perda absoluta ao registrar redução de 1,39 milhão de usuários (-7,7%). O acumulado da queda, inclusive, é ainda mais assustador: 35,1% desde 2023 por conta de severas restrições operacionais do Metrô do Recife.

Reduções significativas também aconteceram no Rio Grande do Norte (-29,6%), Piauí (-9,5%), Minas Gerais (-4,0%), Ceará (-2,2%) e Distrito Federal (-1,3%), evidenciando a vulnerabilidade dos sistemas fora do eixo central.

Em termos de infraestrutura e presença territorial, o Brasil fechou o primeiro semestre de 2026 com 52 linhas em operação, atendendo 73 municípios espalhados por 12 Unidades da Federação e 15 recortes metropolitanos. O setor engloba 23 sistemas e 18 operadores, estruturados em quatro modos de transporte: o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) lidera com 19 linhas (36,5% do total), seguido pelo metrô com 16 linhas (30,8%), pelos trens urbanos com 15 linhas (28,8%) e pelo monotrilho com 2 linhas (3,8%).

Essa configuração reflete a diversidade tecnológica instalada, mas reforça a necessidade de maior integração física e tarifária entre os sistemas e os demais modais urbanos.

ENTREGAS PONTUAIS AO LONGO DE 2026

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Com ritmo histórico de expansão de apenas 12,9 km ao ano, a rede metroferroviária brasileira precisa ampliar sua infraestrutura para destravar o crescimento de passageiros - Divulgação
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Obras em andamento no setor projetam a entrega de 174,2 km de novos trilhos e 115 estações, com maior volume de conclusões previsto até 2029 - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação
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Balanço do primeiro semestre de 2026 revela que os sistemas de transporte sobre trilhos no Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros, um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior - Divulgação

Apesar dos gargalos, o primeiro semestre de 2026 registrou entregas pontuais de infraestrutura, resultando na incorporação de três novas linhas, 15,4 quilômetros de vias e 17 novas estações e paradas. Entre os projetos entregues em fase de operação assistida destacam-se a Linha 4-Laranja (Ramal do Aeroporto) em Fortaleza, o primeiro trecho do VLT de Salvador e Região Metropolitana (Calçada-Lobato) e a Linha 17-Ouro do monotrilho em São Paulo, além de expansões pontuais no Metrô de Belo Horizonte (Estação Novo Eldorado) e no VLT de Teresina (Estação Todos os Santos).

No horizonte de médio prazo, o balanço contabilizou 17 empreendimentos de expansão da rede em execução no País em 30 de junho de 2026, somando 174,2 quilômetros de extensão e 115 novas estações e paradas. O cronograma dessas obras indica uma forte concentração até o final da década: 165,1 quilômetros — equivalentes a 94,8% de toda a carteira em execução — têm previsão de entrega entre o segundo semestre de 2026 e o ano de 2029, destacando-se os anos de 2027 e 2029 com os maiores picos de conclusão previstos (55,2 km e 56,6 km, respectivamente).

Para que esses projetos saiam do papel e transformem a mobilidade urbana metropolitana, o balanço da ANTPTrilhos aponta que houve avanços institucionais decisivos, como a sanção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026) e a divulgação do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU/BNDES), que projeta um portfólio de 1,3 mil km de trilhos e investimentos da ordem de R$ 400 bilhões a R$ 437 bilhões. 

ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Seis Unidades da Federação registraram redução da demanda no período, com destaque negativo para Pernambuco, que teve a maior perda absoluta ao registrar redução de 1,39 milhão de usuários (-7,7%). O acumulado da queda, inclusive, é ainda mais assustador: 35,1% desde 2023 por conta de severas restrições operacionais do Metrô do Recife. - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

Contudo, como enfatiza a ANPTrilhos através da campanha "No Trilho Certo", diretrizes legais só serão transformadas em melhorias reais se forem acompanhadas por mecanismos permanentes de financiamento, subvenção tarifária e a criação de Autoridades Metropolitanas de Mobilidade Urbana. “Sem políticas permanentes de Estado, o setor continuará registrando tímidos avanços marginais enquanto as grandes metrópoles brasileiras permanecem paralisadas no trânsito”, alerta a entidade.

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Imagem de Roberta Soares

Roberta Soares

betasoares8@gmail.com

Jornalista setorizada em mobilidade urbana há mais de 20 anos. Com 30 anos de redação, cobriu por quase dez anos o setor de segurança pública, atuando também nas editorias de Política, Brasil e Internacional.