Transporte por moto: Nova morte de passageira na BR-101 - três em menos de um mês - exige reação das prefeituras do Grande Recife
Duas passageiras e um passageiro morrem em sinistros envolvendo moto por aplicativo em intervalo de 25 dias na Região Metropolitana do Recife
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Uma passageira de 26 anos morreu neste sábado (26/9) em um sinistro de trânsito envolvendo duas motos de aplicativo - como Uber e 99 Moto - na BR-101, no bairro de Passarinho, Zona Norte do Recife. É a terceira morte de passageira ou passageiro de motoapp registrada nas rodovias federais que cortam o Grande Recife em 25 dias — depois dos casos registrados no Ibura, na quinta-feira (24/9), e na Cidade Universitária, em 31 de agosto.
A repetição, num intervalo tão curto, reacende o debate sobre a ausência de regras de circulação e de fiscalização para o serviço de transporte remunerado de passageiros por moto no País. No Recife, por exemplo, a prefeitura já afirmou que não pretende criar qualquer tipo de regulamentação para o serviço, enquanto as prefeituras da RMR, principalmente as de Jaboatão dos Guararapes e Olinda - que registram, bem distante dos números do Recife, o segundo e o terceiro lugares em atendimentos às vítimas das motos realizados pelo SAMU.
De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o sinistro de sábado aconteceu por volta das 18h, no quilômetro 59 da rodovia, quando duas motocicletas colidiram. O corpo da jovem, que estava na garupa de uma delas, ficou entre os dois veículos, no canteiro central da via. Os dois condutores ficaram feridos e foram socorridos pelo SAMU e pelo Corpo de Bombeiros — um deles encaminhado ao Hospital da Restauração.
UM PADRÃO QUE SE REPETE NAS RODOVIAS FEDERAIS
A morte da passageira na BR-101 em Passarinho aconteceu apenas dois dias depois de outra morte na mesma rodovia - vale lembrar que a maioria das mortes de passageiros de motoapp tem acontecido nos trechos urbanos das BRs 101 e 232 na RMR. Na noite da quinta-feira (24/9), uma passageira de 30 anos morreu atropelada por uma carreta no Km 76,2 da BR-101, na altura do Ibura, após a moto em que estava cair na pista.
O condutor, um jovem de apenas 22 anos, se desequilibrou ao tentar sair do acostamento. Mais uma vez, a vítima fatal foi uma mulher na garupa, e mais uma vez o sinistro envolveu a combinação entre motocicleta de pequeno porte e veículo pesado dividindo a mesma via de alta velocidade.
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Essa dinâmica não é nova. Em 31 de agosto, um passageiro de 23 anos morreu espremido entre uma carreta e um carro na BR-101, na Cidade Universitária - além de casos semelhantes este ano e em 2025 também. E em 5 de setembro, uma passageira identificada como Débora morreu na BR-232, no Curado, depois que a vareta do tambor de uma das motos se partiu em pleno trajeto.
Em nenhum dos casos houve consumo de álcool envolvido, o que reforça que a origem dos sinistros está nas condições estruturais em que o serviço opera, além da inabilidade dos condutores cadastrados para realizá-lo.
NÚMEROS CONFIRMAM ALTA NOS SINISTROS COM MOTOS
Os dados da PRF sustentam que os casos não são exceção. Somente entre janeiro e agosto de 2026, Pernambuco registrou 1.221 sinistros de trânsito envolvendo motocicletas, alta de 18,2% sobre os 1.033 casos do mesmo período de 2025. Os feridos passaram de 1.180 para 1.401 (+18,7%), e as mortes saltaram de 103 para 130 — um crescimento de 26,2%. O fato de as mortes crescerem mais rápido que o número total de sinistros indica que as colisões e quedas não estão apenas mais frequentes, mas também mais graves.
O cenário se repete em escala nacional: no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 16.346 sinistros envolvendo motocicletas nas rodovias federais, alta de 4,88% sobre 2025, com 1.072 mortes — aumento de 13,92%. Pernambuco está entre os estados com maior número de óbitos de ocupantes de moto nas rodovias federais no período.
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Levantamento do Samu Metropolitano Recife mostra ainda que os atendimentos a vítimas de motocicletas na RMR cresceram quase 60% entre 2022 — ano de chegada do Uber Moto e da 99 Moto à região — e 2025, com o Recife concentrando isoladamente entre 80% e 90% dos registros.
AUSÊNCIA DE REGRAS E INABILIDADE DOS CONDUTORES
Por trás dos números está uma lacuna regulatória dupla: de um lado, falta fiscalização sobre a manutenção mecânica das motos usadas em transporte remunerado — nem a cilindrada mínima é exigida pelas plataformas; do outro, predomina a ausência de regras específicas de circulação para esses veículos em rodovias de tráfego pesado, onde motocicletas de pequeno porte dividem pista com carretas em velocidades incompatíveis com a segurança de quem está na garupa.
Os próprios dados da PRF para Pernambuco, entre janeiro e agosto de 2026, ajudam a explicar o mecanismo: ausência de reação do condutor concentra 170 sinistros e 15 mortes; acesso à via sem observar outros veículos, 162 sinistros e 15 mortes; e reação tardia ou ineficiente, 149 sinistros e 12 mortes.
Três mortes em menos de um mês, todas envolvendo passageiras e passageiros de motoapp nas mesmas rodovias federais, expõem a inércia do poder público diante de um serviço que segue sem regulamentação específica de circulação, sem exigência de manutenção periódica e sem limites de operação nas vias de maior risco, como as de tráfego pesado (BRs e PEs principalmente).
Dados da PRF
Sinistros com motos nas rodovias — Pernambuco (jan-ago 2026 vs. mesmo período de 2025)
Sinistros: +18,2% (1.221 vs. 1.033)
Feridos: +18,7% (1.401 vs. 1.180)
Mortes: +26,2% (130 vs. 103)
Brasil — rodovias federais (1º semestre 2026 vs. 2025)
Sinistros com moto: +4,88% (16.346 casos)
Mortes: +13,92% (1.072 óbitos)
RMR — atendimentos do Samu a vítimas de moto (2022–2025)
Aumento: quase 60%
Concentração dos registros no Recife: 80% a 90%
Principais causas dos sinistros com moto em PE (jan-ago 2026)
Ausência de reação do condutor: 170 sinistros / 15 mortes
Acesso à via sem observar outros veículos: 162 sinistros / 15 mortes
Reação tardia ou ineficiente: 149 sinistros / 12 mortes