Transporte por moto: Jovem de 23 anos que morreu na BR-101 era passageiro de aplicativo de moto. Morte reforça omissão das prefeituras da RMR em regulamentar serviço
Motocicleta alugada e CNH com registro de atividade remunerada reforçam suspeita de que vítimas do sinistro na BR-101 prestavam serviço de motoapp
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O jovem de 23 anos que morreu na hora durante um sinistro de trânsito com motocicleta registrado na tarde de segunda-feira (31/8), na BR-101, no bairro da Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife, seria passageiro do serviço de motoapp, como Uber Moto e 99 Moto. A morte, que também deixou o condutor ferido gravemente, reacendeu o alerta sobre os riscos do transporte remunerado de passageiros por moto na Região Metropolitana do Recife (RMR) e a omissão das prefeituras - especialmente a da capital pernambucana - em enfrentar a regulamentação do serviço.
A vítima fatal, o jovem identificado apenas pelas iniciais L.C.P.A., estava na garupa de uma motocicleta da Mottu — empresa de aluguel de motos amplamente utilizada por condutores de aplicativos — quando o motoqueiro teria perdido o controle do veículo e foi atingido por uma carreta. A suspeita de que as vítimas estavam usando o serviço de motoapp foi reforçada por dois elementos apurados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF): o modelo de aluguel da motocicleta e o registro, na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) do condutor, do exercício de atividade remunerada.
Além de confirmar que a explosão de óbitos e mutilações envolvendo ocupantes de motos - gritada há meses pelos serviços de saúde de todo o País - tem relação direta com o crescimento dos aplicativos de transporte de passageiros, o caso expõe uma dinâmica recorrente, pouco discutida e que exige uma urgente regulação do serviço: motociclistas de aplicativo compartilhando o corredor de rodovias federais de tráfego pesado, como a BR-101, mesmo com o volume intenso de carretas e veículos de grande porte que atravessam o contorno urbano do Recife.
A imprudência na condução — trafegar ou tentar ultrapassagens em corredores estreitos entre veículos pesados (carros e caminhões) — é apontada por especialistas em segurança viária como um dos principais fatores de sinistros fatais envolvendo motos nessas vias. A PRF é uma das instituições que já fez diversos alertas sobre isso.
Além da morte violenta e imediata do passageiro - vídeos da colisão mostram o jovem morto na rodovia, trajando bermuda e chinelos -, o condutor da motocicleta, que não teve a identificação divulgada, foi socorrido em estado grave para o Hospital da Restauração, na área central do Recife, mas não se sabe o estado de saúde dele porque não se tem o nome.
Mais uma vez, a mesma dinâmica perigosa
De acordo com a PRF, o sinistro aconteceu às 12h45, no Km 68 da BR-101, quando a motocicleta seguia no sentido Litoral Norte e ficou espremida entre uma carreta e um carro que se aproximavam.
Nesse momento, segundo a corporação, o condutor da moto perdeu o controle da direção e caiu para o lado da carreta — fazendo com que os ocupantes fossem atropelados pelo veículo de carga na sequência da queda.
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Ainda segundo a PRF, o motorista da carreta foi submetido ao teste do bafômetro, com resultado negativo para alcoolemia.
SAMU Metropolitano Recife: atendimentos a vítimas de moto sobem quase 60% desde a chegada do Uber Moto
O sinistro na BR-101 não é um caso isolado — é a ponta mais visível de uma escalada que os números do SAMU Metropolitano Recife documentam ano após ano desde a chegada do transporte remunerado de passageiros por moto à região, em 2022. Entre 2022 e 2025, os atendimentos do SAMU a vítimas de motocicletas na RMR aumentaram quase 60%, com o Recife respondendo isoladamente por entre 80% e 90% dos registros.
Os números, ano a ano, mostram uma trajetória sem trégua:
2022: 9.553 atendimentos totais de sinistros de trânsito, dos quais 7.122 envolveram exclusivamente ocupantes de moto (74,55% do total).
2023: 12.271 atendimentos totais, com 9.586 casos de moto (78,11%).
2024: 12.270 atendimentos totais — praticamente estável —, mas com 10.641 casos de moto, elevando a fatia para 86,72%.
2025: 13.716 atendimentos totais (alta de 43,58% sobre 2022), com 11.231 casos de moto (81,88% do total) — um aumento de 57,69% nos atendimentos a vítimas de moto em relação a 2022.
1º trimestre de 2026: 3.360 atendimentos totais, sendo 2.739 de moto (81,52%), indicando que o ano pode repetir ou superar os recordes anteriores.
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E o Recife concentra o epicentro da crise: em 2025, a capital pernambucana registrou 6.236 sinistros com motos, mais de 55% de tudo o que foi contabilizado na RMR, e no primeiro trimestre de 2026 já soma 1.487 novos atendimentos.
Jaboatão dos Guararapes é a segunda cidade mais crítica, com sinistros de moto saltando de 680, em 2022, para 1.296, em 2025 — 86,5% de toda a demanda de trânsito do município em 2024. Olinda aparece em terceiro lugar, com 874 ocorrências de moto em 2025 e 201 já registradas até março de 2026. Paulista e Cabo de Santo Agostinho completam o grupo de cidades mais impactadas.
O custo bilionário que o Estado paga sozinho pelas mutilações e mortes nas motos
Se o SAMU mostra a escala da crise nas ruas, os dados hospitalares expõem o preço que o sistema de saúde do Estado paga por ela. Toda a rede de alta complexidade e trauma em Pernambuco é custeada pelo governo estadual — e é essa rede que absorve o impacto direto da explosão de sinistros com motos.
Em reportagem do JC, o médico João Veiga, que dirigiu o Hospital da Restauração — maior unidade de emergência do Norte e Nordeste do País —, classificou o cenário como uma epidemia evitável. Segundo ele, o sistema de saúde estadual pernambucano está sendo asfixiado por sinistros de trânsito que, na maioria dos casos, seriam evitáveis. “Isso é o mais grave", alertou. Ao detalhar os custos de tratamento de uma única vítima, Veiga afirma que o paciente das motocicletas (condutor e/ou passageiro) pode custar de R$ 9 mil a R$ 400 mil em procedimentos médicos".
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A conta começa no resgate do SAMU — cerca de R$ 900 por ocorrência, custeado majoritariamente pelas prefeituras com apoio federal — e escala rapidamente com cirurgias ortopédicas, próteses e internações prolongadas em UTI, inteiramente bancadas pelo Estado. Nacionalmente, o quadro é igualmente desproporcional: as motocicletas representam apenas 30% da frota de veículos do Brasil, mas respondem por 40% das mortes no trânsito e 60% das internações hospitalares por sinistros envolvendo transporte terrestre. Setenta por cento das vítimas têm entre 20 e 34 anos — em plena idade produtiva —, o que amplia o impacto social e previdenciário de cada caso.
Segundo Veiga, o sistema público paga duas vezes pela mesma tragédia: primeiro no SUS, com resgate, cirurgias e reabilitação; depois na Previdência, com auxílios-doença, pensões por morte e aposentadorias por invalidez. "Para cada morte registrada no trânsito, dez pacientes desenvolvem sequelas graves que os afastam permanentemente do mercado de trabalho, gerando uma cadeia de benefícios que o INSS paga por anos, muitas vezes por décadas", diz o médico. Levantamento do IPEA estima que os sinistros de trânsito custam mais de R$ 2 bilhões por ano ao País, dos quais cerca de R$ 1,2 bilhão está associado a ocorrências com ocupantes de motocicleta.
Enquanto o Recife evita o desgaste de regulamentar o motoapp, vidas se perdem nas rodovias
O sinistro que matou o jovem de 23 anos na BR-101 é, também, um retrato do vácuo regulatório que segue sem resposta nas prefeituras da RMR, especialmente na do Recife. A gestão municipal já afirmou publicamente que não pretende criar regras específicas para os aplicativos de transporte remunerado por moto que operam na cidade.
Em entrevista ao JC, o secretário de Ordem Pública e Segurança do Recife, Alexandre Rebêlo, defendeu uma postura de diálogo e qualificação do serviço — apostando na conscientização de condutores e passageiros —, na contramão de cidades como São Paulo, que impuseram regras rígidas de operação e viram as próprias plataformas recuarem da oferta do serviço.
Para João Veiga, essa omissão tem custo direto: "A recusa em regulamentar, somada ao crescimento contínuo dos sinistros, aprofunda um ciclo em que o município se exime da responsabilidade regulatória enquanto o governo do Estado segue absorvendo sozinho o ônus financeiro do trauma provocado pelas motos".
Enquanto a Prefeitura do Recife não enfrentar o desgaste político de discutir regras para o Uber Moto e a 99 Moto — como exigência de equipamentos de proteção individual, fiscalização de cadastro e limites de circulação em vias de tráfego pesado —, sinistros como o da BR-101 tendem a se repetir, sobretudo nos corredores rodoviários que fazem o contorno urbano da cidade, onde motocicletas de aplicativo dividem espaço com carretas e veículos de grande porte em alta velocidade.