Transporte por moto: Enquanto Recife e cidades da RMR se recusam a regulamentar Uber e 99 Moto, governo do Estado banca sozinho a explosão de gastos com traumas de alta complexidade
Vítima das motos custa até R$ 400 mil à saúde pública de Pernambuco e quem está pagando a conta é o Estado sozinho, enquanto prefeitos se omitem
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O custo humano e financeiro dos sinistros de trânsito envolvendo motocicletas atingiu um patamar crítico em Pernambuco, e quem paga a conta é o governo do Estado. Isso porque toda a rede hospitalar de alta complexidade e trauma no território pernambucano é custeada pelo Executivo estadual — e as despesas com esse tipo de atendimento não param de crescer, puxadas pela explosão do transporte remunerado de passageiros por moto, como o Uber e 99 Moto. Quanto mais motociclistas circulam prestando esse serviço, com passageiros na garupa, maior é a pressão sobre um sistema de saúde que já opera no limite.
O alerta sobre a gravidade da situação foi feito pelo médico pernambucano João Veiga, que dirigiu o Hospital da Restauração (HR), a maior unidade de emergência das regiões Norte e Nordeste do País. Com anos de experiência na linha de frente do trauma, Veiga classifica o cenário como uma verdadeira epidemia, capaz de drenar recursos públicos e ocupar leitos que deveriam atender pacientes com outras patologias graves. “O sistema de saúde estadual está sendo asfixiado por sinistros de trânsito que, na maioria dos casos, seriam evitáveis. Isso é o mais grave”, alerta o médico.
Os números levantados por Veiga dão a dimensão do problema, que é assustador: "O paciente vítima de sinistros de trânsito com motocicletas (condutor e/ou passageiro) pode custar de R$ 9 mil a R$ 400 mil em procedimentos médicos", reforça o médico, ao detalhar o tratamento de uma única vítima de sinistro de trânsito com motocicleta. A conta começa no resgate feito pelo SAMU, que custa em média R$ 900 por ocorrência, e pode escalar rapidamente com cirurgias ortopédicas complexas, próteses e internações prolongadas em Unidades de Terapia Intensiva — tudo isso pago integralmente pelo Estado de Pernambuco, responsável pela manutenção da rede de alta complexidade. Apenas o SAMU é custeado, na maior parte, pelas prefeituras, com ajuda do governo federal.
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A FÁBRICA DE SEQUELADOS E OS NÚMEROS NACIONAIS
Na apresentação em que detalhou o diagnóstico - realizada dentro das reuniões-temáticas que vão unificar propostas de mobilidade urbana a serem apresentadas aos candidatos ao governo de Pernambuco nas próximas eleições -, João Veiga contextualizou o problema pernambucano dentro de um retrato nacional já alarmante.
Embora as motocicletas representem apenas 30% da frota de veículos do Brasil, elas respondem por 40% das mortes no trânsito e por 60% de todas as internações hospitalares decorrentes de sinistros de trânsito envolvendo transporte terrestre. A gravidade se aprofunda quando se observa o perfil das vítimas: 70% delas têm entre 20 e 34 anos, uma faixa etária em plena idade produtiva, o que amplia o impacto social e econômico de cada caso — para além da tragédia pessoal, há desestruturação familiar e perda de força de trabalho.
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O problema também sobrecarrega a Previdência Social, alerta o médico. “Para cada morte registrada no trânsito, dez pacientes desenvolvem sequelas graves que os afastam permanentemente do mercado de trabalho, gerando uma cadeia de benefícios que o INSS paga por anos, muitas vezes por décadas”, diz.
Ainda de acordo com os dados apresentados por João Veiga, o sistema público paga duas vezes pela mesma tragédia: primeiro no SUS, com resgate, cirurgias e reabilitação; depois na Previdência, com auxílios-doença, pensões por morte, auxílios-acidente e aposentadorias por invalidez.
Levantamento do IPEA - citado na apresentação - estima que os custos totais dos sinistros de trânsito no País ultrapassam R$ 2 bilhões por ano, dos quais cerca de R$ 1,2 bilhão está associado especificamente a ocorrências com oupantes de motocicletas - não só o condutor, mas depois do Uber e 99 Moto, também os passageiros.
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O cenário descrito por Veiga ganha contornos ainda mais graves quando se olha para a Região Metropolitana do Recife (RMR), que se consolidou como o epicentro do problema no Estado. Levantamento do SAMU Metropolitano mostra que os atendimentos a ocupantes de motocicletas dispararam quase 60% na capital e na RMR, com a cidade do Recife concentrando, isoladamente, mais de 55% de todas as ocorrências da região.
Somente em 2025, a capital pernambucana registrou 6.236 sinistros de trânsito envolvendo motos, e o primeiro trimestre de 2026 já soma 1.487 novos atendimentos a vítimas — um ritmo que não dá sinais de desaceleração e que passou a incluir com frequência passageiros de aplicativos expostos a situações de risco extremo.
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Mesmo diante desse quadro, a Prefeitura do Recife já afirmou publicamente que não pretende criar regras específicas para os aplicativos de transporte remunerado por moto que operam na cidade. O secretário de Ordem Pública e Segurança do município, Alexandre Rebêlo, defendeu uma postura de diálogo e qualificação do serviço, apostando na conscientização de condutores e passageiros em vez de legislação municipal — na contramão de cidades como São Paulo, que impuseram regras rígidas de operação e viram as próprias plataformas recuarem da oferta do serviço.
“A recusa em regulamentar, somada ao crescimento contínuo dos sinistros, aprofunda um ciclo em que o município se exime da responsabilidade regulatória enquanto o Governo do Estado segue absorvendo sozinho o ônus financeiro do trauma provocado pelas motos”, afirma o médico. Para João Veiga e outros especialistas citados na apresentação, trata-se de uma crise evitável, que poderia ser contida com decisão política, fiscalização e a obrigatoriedade de equipamentos de proteção individual.