Ciclomobilidade: Velocidade da Avenida Boa Viagem deveria ser reduzida para nova ciclovia da orla ser segura para ciclistas e pedestres
Nova ciclovia da Orla de Boa Viagem melhora muito a segurança para quem pedala, mas obra desorganizada segue expondo ciclistas e pedestres a riscos
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Um dos pontos mais sensíveis da nova ciclovia da Orla de Boa Viagem apontados pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo), que percorreu os trechos já entregues da requalificação do calçadão, é a manutenção da velocidade regulamentada de 60 km/h em toda a via, mesmo após a reforma.
A entidade lembra que esse limite contraria a Política Municipal de Mobilidade Urbana do Recife, que estabelece um teto de 50 km/h para vias com esse perfil de uso. O problema se agrava justamente por se tratar da principal orla turística da cidade, onde pedestres atravessam a todo momento, crianças brincam e turistas circulam entre a praia e os bares e restaurantes do calçadão.
Para Daniel Valença, integrante da coordenação da Ameciclo, submeter esse ambiente a velocidades elevadas prejudica tanto a segurança viária quanto a qualidade do espaço público e do próprio turismo local. “A situação é agravada pela pouca presença de radares de velocidade ao longo do trecho e por um traçado agora mais retilíneo, que tende a favorecer disputas de velocidade entre veículos”, alerta.
Os problemas nas travessias de pedestres reforçam esse diagnóstico: em pontos da Avenida Professor José Brandão ainda não há semáforo para travessia, e mesmo onde o equipamento existe, o tempo de espera pode passar de um minuto — um intervalo longo para uma avenida de três faixas a 60 km/h, que acaba desestimulando o uso correto da faixa de pedestres.
PERIGO QUE A ATUAL OBRA DE REQUALIFICAÇÃO TEM REPRESENTADO
Enquanto os trechos prontos avançam, a obra de requalificação do calçadão em andamento segue sendo motivo de preocupação para ciclistas e pedestres. A reportagem apurou que, em alguns pontos, placas orientam o ciclista a não usar a própria ciclovia durante a intervenção e a seguir a pé. Uma solução que, na avaliação da Ameciclo, inverte a lógica de segurança viária ao manter todas as faixas de rolamento liberadas para os carros, com velocidades permitidas de até 60 km/h.
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“Enquanto quem pedala fica exposto ao tráfego rápido sem proteção. Isso demonstra uma falta de respeito com a mobilidade por bicicleta e com os pedestres", reforça Valença, que lembra que em outros trechos da mesma obra foi possível manter uma segregação temporária segura para os ciclistas.
A crítica da entidade é que essa solução temporária parece ter priorizado o tráfego de veículos em detrimento da segurança de quem pedala ou caminha — justamente em um canteiro de obras, ambiente que já concentra riscos adicionais como desvios, sinalização provisória e presença de máquinas e trabalhadores. Some-se a isso a demora da obra, que prolonga a exposição de ciclistas e pedestres a esse cenário de risco por mais tempo.
AUSÊNCIA DE ARBORIZAÇÃO, COMO SEMPRE
Outro ponto criticado na ciclovia de Boa Viagem pela Ameciclo é o paisagismo escolhido para a nova orla. Segundo Valença, o plantio observado nos trechos já entregues se resume, na prática, a palmeiras — espécie de forte apelo estético, mas que oferece pouca sombra.
“Em uma cidade quente como o Recife, e em um contexto de aumento das temperaturas associado às mudanças climáticas, a escolha é vista pela entidade como insuficiente para garantir conforto térmico a quem caminha, pedala ou permanece no espaço público da orla”, argumenta Valença.
Para o cicloativista, a prioridade deveria ser o plantio de árvores de grande porte, capazes de gerar sombra real ao longo do calçadão. A crítica se soma a outra ausência identificada na obra: a integração entre os jardins e a praia que havia sido anunciada no projeto da Nova Orla não foi encontrada nos trechos percorridos pela equipe da Ameciclo — até porque será uma etapa posterior da obra, já explicado pela Prefeitura do Recife.
FALTA DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL NO PROJETO
Para a Ameciclo, boa parte dos problemas identificados na nova ciclovia poderia ter sido evitada ainda na fase de projeto, caso houvesse um processo mais aberto de discussão com a sociedade civil. A entidade participa do Conselho da Cidade do Recife e da Câmara Técnica de Mobilidade desde 2016 — espaços institucionais criados justamente para debater intervenções urbanas dessa magnitude —, mas afirma que o projeto da Nova Orla não passou por esse processo. "Faltou transparência e diálogo. Muitos dos problemas identificados poderiam ter sido corrigidos ainda na fase de projeto, antes da licitação e da obra", avalia Valença.
A ausência de participação social contraria, segundo a Ameciclo, o próprio Manual de Desenho de Ruas do Recife, que prevê consulta aos atores envolvidos antes da implantação desse tipo de infraestrutura. A entidade também chama atenção para a ordem das intervenções: a obra começou pela área mais valorizada de Boa Viagem, enquanto regiões como Brasília Teimosa seguem com infraestrutura precária, buracos e problemas antigos sem solução — um contraste que, para os cicloativistas, expõe desigualdades na priorização dos investimentos em mobilidade urbana na cidade.