Mortes no trânsito: Álcool e drogas ilícitas estão presentes em 46% das mortes violentas nas ruas e estradas de capitais brasileiras
Pesquisa em quatro regiões do País aponta que quase metade das vítimas fatais de sinistros de trânsito haviam consumido álcool ou drogas ilícitas
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Um estudo inédito conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) analisou o impacto do consumo de substâncias psicoativas em 3.577 vítimas de mortes violentas em quatro capitais brasileiras: Belém (PA), Recife (PE), Vitória (ES) e Curitiba (PR). Os resultados revelam um cenário preocupante para a saúde pública, indicando que 53% do total de vítimas testaram positivo para pelo menos uma substância, como álcool, cocaína ou medicamentos controlados, em análises feitas logo após o óbito.
O foco nos sinistros de trânsito (não é mais acidente de trânsito que se define, segundo o CTB e a ABNT), que representaram 14,7% das mortes analisadas, destaca a gravidade da associação entre a condução de veículos motorizados e as drogas lícitas e ilícitas. De acordo com os dados toxicológicos, 46% das vítimas que morreram no trânsito haviam consumido álcool ou drogas.
O álcool permanece como o principal vilão, sendo detectado em 38% dos óbitos por sinistros de trânsito, enquanto a cocaína foi encontrada em cerca de 9,9% desses casos. Mesmo com a política de "tolerância zero" adotada pela legislação brasileira com a Operação Lei Seca, o álcool continua sendo o fator predominante em fatalidades no trânsito e um sinal de que a fiscalização precisa ser ampliada mais e mais.
A pesquisa, liderada pelo toxicologista Henrique Silva Bombana, buscou preencher uma lacuna de dados padronizados sobre o papel dessas substâncias nas chamadas "causas externas" de mortalidade no Brasil - as mortes no trânsito entre elas. Bombana é pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) e primeiro autor do artigo.
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O IMPACTO REGIONAL DO ÁLCOOL E DAS SUBSTÂNCIAS ILÍCITAS NO TRÂNSITO
A distribuição geográfica do estudo permitiu identificar que o impacto das substâncias varia significativamente entre as regiões brasileiras. No Recife e em Curitiba, observou-se uma prevalência maior de mortes associadas ao consumo de álcool em comparação com outras drogas. Já em Belém e Vitória, os índices de positividade para drogas ilícitas foram proporcionalmente mais elevados, refletindo possivelmente as dinâmicas locais de consumo e a localização dessas cidades em rotas estratégicas de tráfico.
O estudo alerta que as disparidades regionais sugerem que estratégias de prevenção devem ser personalizadas de acordo com o perfil de uso de cada localidade. Além do álcool e da cocaína, o estudo identificou a presença de benzodiazepines em 4,4% das vítimas de trânsito, o que alerta para o risco do uso de medicamentos psicoativos associado à condução de veículos.
A análise utilizou amostras de sangue cardíaco coletadas durante as autópsias, método considerado ideal para estimar o uso agudo de substâncias no momento da morte. Os pesquisadores ressaltam que, embora o Brasil possua uma das leis mais rigorosas do mundo contra o ato de dirigir sob efeito de álcool, a fiscalização e os testes aleatórios precisam ser fortalecidos para que a legislação tenha um impacto populacional real na redução de mortes.
A conclusão dos especialistas é que o enfrentamento dessas mortes violentas exige uma abordagem holística, que vá além do caráter punitivo e integre medidas de tratamento, redução de danos e educação.