Concessão Metrô do Recife: Governo paga R$ 10 milhões por trens usados que custariam R$ 3 milhões, denuncia Sindmetro
Técnicos do governo federal, entretanto, argumentam que aquisição é a solução mais rápida para evitar colapso do Metrô do Recife já em 2027
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Os seis trens usados que estão sendo adquiridos pelo governo federal para evitar o colapso do Metrô do Recife - já dentro do processo de concessão pública do sistema metroferroviário pernambucano - vão chegar a Pernambuco com valores onerados, bem acima do preço de mercado. Além de usadas e sem ar-condicionado, cada uma das composições vai custar quase R$ 7 milhões a mais do que deveria.
A denúncia foi feita pelo Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (SindMetro-PE) com base em documentos oficiais assinados pela equipe técnica da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e do Ministério das Cidades. Esta reportagem, inclusive, está sendo feita tendo como base esses documentos - publicados ao longo do texto.
Os documentos comprovam que o governo federal está finalizando a aquisição de seis trens usados, oriundos do Metrô de Belo Horizonte - concedido à iniciativa privada no fim de 2025 -, ao custo de R$ 10 milhões por unidade. Embora o valor final por composição seja de R$ 10 milhões, o preço estimado apenas para a aquisição de cada trem é de R$ 7.437.625,00, sendo a diferença composta por serviços correlatos e equipamentos de manutenção essenciais para a operação.
A transação ocorreu por meio de um Termo de Execução Descentralizada (TED) - instrumento utilizado na administração pública federal brasileira para repassar créditos orçamentários entre órgãos ou entidades da União - junto ao Ministério das Cidades.
“O valor unitário de R$ 7.437.625,00 corresponde ao preço estimado para aquisição de cada trem, acrescido serviços correlatos que totalizam 10 milhões de reais, conforme avaliação realizada pela CBTU e descrita nas Etapas do Plano de Ação proposto por meio da plataforma Transfere Gov, tendo como referência a proposta apresentada pela empresa proprietária dos trens elétricos (Comporte). Conforme informações constantes do processo, o valor contábil líquido estimado de cada trem encontra-se na ordem de R$3 milhões, em função da depreciação acumulada registrada nas demonstrações contábeis da vendedora”, afirmam os técnicos na Nota Técnica da análise econômico-financeira para aquisição dos seis trens do Metrô de BH.
URGÊNCIA NA AQUISIÇÃO PARA EVITAR PARALISAÇÃO PARCIAL DO METRÔ EM 2027
O investimento total de R$ 60 milhões é justificado tecnicamente como a única saída para socorrer o sistema metroviário do Recife e evitar a suspensão parcial das operações da Linha Sul já a partir de abril de 2027. Nos documentos, esse alerta é feito diversas vezes, por técnicos de diferentes níveis da gestão, sob o argumento de que a frota de trens está tão obsoleta que não conseguiria operar até o fim do primeiro semestre do ano que vem.
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Apesar do custo elevado para equipamentos usados, a administração pública deixa claro que aceitou a proposta sob a justificativa de urgência máxima. Segundo a CBTU, a frota atual de Recife sofre com um grau avançado de obsolescência que inviabiliza a continuidade segura da Linha Sul. Atualmente, o sistema opera com restrição crítica, liberando apenas cerca de dois trens para operação nos horários de pico, o que representa apenas 25% da capacidade prevista.
Nota Tecnica Avaliacao Economica Financeira Aquisicao Trens BH by Roberta Soares
A nota técnica da CBTU defende que esta é a alternativa exclusiva disponível no cenário brasileiro para recomposição imediata da frota. A compra de trens novos levaria, em média, 24 meses entre a contratação e a entrega, criando um "hiato operacional" que o sistema não suportaria sem parar. A aquisição visa garantir o transporte de 60 mil passageiros diários e reduzir os intervalos entre as viagens.
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Outro ponto colocado pelos técnicos é que o vendedor dos trens - no caso o Grupo Comporte - pode definir o valor para venda dos bens que entender melhor. “O valor contábil não se confunde com o valor econômico ou de mercado do bem, sendo legítimo que o vendedor privado oferte o ativo pelo valor que considerar adequado. Compete à Administração Pública adquirente avaliar a viabilidade econômico-financeira da proposta, observados os princípios da economicidade e da vantajosidade”, afirmam os técnicos da CBTU.
5. Extrato Plano de Acao Transferegov Trens by Roberta Soares
E seguem afirmando que, mesmo com o valor acima do preço de mercado, validam a aquisição. “O processo instruído para esta nota técnica apresenta elementos essenciais que justificam a vantajosidade econômica e importância da aquisição. O risco de paralisação do sistema e alternativa encontrada como sendo exclusiva a respectiva aquisição no cenário brasileiro e custo de oportunidade comprovam que o impacto no transporte de 60 mil passageiros por dia em Recife e região metropolitana será bastante efetivo”, dizem.
“A qualidade do serviço prestado à população será notavelmente melhorada com a chegada dos respectivos trens à medida que os intervalos entre os trens nas estações serão reduzidos e o número de viagens ofertadas por dia resulta em crescimento, ou seja, melhoria na capacidade de transporte. A manutenção da regularidade operacional dessa linha é condição essencial para a estabilidade da mobilidade urbana regional”, reforçam.
Oficio 005 2026 MCID e Casa Civil Recurso Para Aquisicao de TUEs by Roberta Soares
E seguem afirmando que é a única saída diante do período exigido para produção de novos trens, que chega a dois anos. “Importa destacar que o processo estruturante para aquisição de novos trens definitivos possui prazo médio estimado de aproximadamente 24 meses entre contratação e entrega do primeiro trem. Esse intervalo cria um hiato operacional significativo entre a necessidade imediata de recomposição da frota e a disponibilização de material rodante novo”.
E, por fim, validam a operação dos futuros trens usados. “Nesse contexto, a aquisição de 06 (seis) TUEs provenientes do Metrô de Belo Horizonte apresenta-se como alternativa tecnicamente viável e compatível com as características da malha da STU/Recife, especialmente quanto à bitola, condições geométricas da via, regime operacional e parâmetros de desempenho. As composições avaliadas apresentam condições estruturais satisfatórias, apesar da elevada quilometragem, com sistemas principais em estado adequado de funcionamento, desde que acompanhados de fornecimento de sobressalentes críticos e suporte técnico inicial.”
DISCREPÂNCIA DE VALORES É DENUNCIADO PELO SINDMETRO
A aquisição dos trens, entretanto, está sob forte questionamento do SindMetro-PE, que classifica a negociação como uma "farra com dinheiro público". Isso porque as notas técnicas revelam que, enquanto o governo paga R$ 10 milhões por trem, os técnicos da CBTU admitem que o valor contábil líquido real de cada composição é de aproximadamente R$ 3 milhões, devido à depreciação acumulada.
Além disso, o SindoMetro denuncia que o sistema de Belo Horizonte, de onde vêm os trens, foi integralmente concedido ao Grupo Comporte por cerca de R$ 26 milhões. E agora, apenas seis dessas composições estão sendo revendidas ao governo federal por R$ 60 milhões — um valor mais de duas vezes superior ao que foi pago por todo o sistema mineiro anteriormente.
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Além da questão financeira, os metroviários alertam que a transferência dos trens levanta preocupações técnicas. As composições têm mais de 30 anos de uso e utilizam motores alternadores (MA), uma tecnologia considerada superada e que foi substituída no Recife em 2006 por apresentar falhas frequentes.
“Trazer de volta essa tecnologia representa um retrocesso técnico que pode comprometer a segurança. Outro agravante apontado é o clima do Recife, onde a alta umidade e salinidade da capital pernambucana podem acelerar o desgaste desses equipamentos antigos, aumentando os custos de manutenção e a frequência de panes no sistema”, afirmou o sindicato.
VIABILIDADE FINANCEIRA DEFENDIDA PELA CBTU
Mesmo com as críticas, a análise econômico-financeira da CBTU aponta que o projeto é vantajoso sob a ótica da administração pública. Com uma Taxa Interna de Retorno (TIR) estimada em 56,4% ao ano, o investimento é considerado de alta atratividade, sendo cinco vezes superior ao retorno médio de aplicações financeiras de baixo risco, como a taxa Selic.
O cálculo considera que, embora seis trens sejam comprados, apenas quatro estarão em operação diária (gerando receita tarifária), enquanto os demais formarão uma reserva técnica necessária para revisões e manutenções programadas. O "payback" (retorno do investimento) é estimado em menos de dois anos.
A CBTU foi procurada pela reportagem e pontuou que a aquisição dos trens é uma prerrogativa do Ministério das Cidades, cabendo à Companhia apenas indicar a viabilidade técnica dos equipamentos. O JC entrou em contato com o Ministério das Cidades e aguarda posicionamento oficial.