Gestão de velocidades: Guia ensina gestores públicos a deixarem ruas mais seguras e humanas no Brasil
Senatran, em parceria com instituições focadas na segurança viária, lançou guia que prioriza a proteção da vida sobre o tráfego de veículos
Clique aqui e escute a matéria
Transformar ruas e avenidas do País em lugares mais seguros e humanos, forçando condutores a reduzir a velocidade quando estão ao volante e proporcionando mais segurança para todos que fazem o trânsito, principalmente quem caminha ou pedala. Com esse objetivo, a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), em parceria com entidades que lutam pela segurança viária, lançou o Guia de Gestão de Velocidades, uma ferramenta estratégica para mudar a gestão da velocidade no sistema viário das cidades brasileiras.
O objetivo central do documento é estimular o poder público a ir além da simples circulação de veículos, adotando políticas públicas que transformem ruas e avenidas brasileiras em ambientes mais seguros e humanos. Para isso, o guia oferece subsídios para que gestores municipais planejem vias que priorizem a preservação da vida, especialmente para os usuários mais vulneráveis do sistema viário, como pedestres e ciclistas.
MUDANÇA DE PARADIGMA COM O FOCO NO SISTEMA SEGURO DE MOBILIDADE
Contextualizado pelo Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), o guia fundamenta-se nos princípios de Visão Zero e Sistema Seguro. Essa filosofia reconhece que os seres humanos cometem erros e que o sistema viário deve ser projetado para absorver falhas sem resultar em tragédias.
Num País que registrou - oficialmente - 38 mil mortes no trânsito em 2024, a gestão de velocidades assume papel estratégico na redução da gravidade das lesões e da mortalidade, já que a velocidade é o principal fator de risco para a ocorrência de sinistros de trânsito (não é mais acidente de trânsito que se define, segundo o CTB e a ABNT).
- Com aumento no número de mortes relacionadas a excesso de velocidade, PRF intensifica fiscalização em Pernambuco
- Radares: Quanto mais fiscalização eletrônica de velocidade, menos multas são aplicadas no trânsito, confirma estudo nacional
- Semana Nacional do Trânsito: Motociclistas representam 43% das mortes no trânsito do Recife e 34% desrespeitam limites de velocidade
Mais do que apenas rotas de tráfego motorizado, o guia propõe que as vias sejam vistas como lugares de permanência e convivência. A intenção é estimular a mobilidade ativa, garantindo que as pessoas possam caminhar e pedalar com segurança.
"A gestão de velocidade é parte da construção de cidades mais equitativas, inclusivas e resilientes, ao promover a mobilidade segura e o acesso à cidade, especialmente de grupos mais vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos. Este é o primeiro guia nacional sobre esse tema, e vai municiar municípios com dados, estratégias e ferramentas para que implementem ações mais eficazes, que podem salvar milhares de vidas”, afirma Paula Santos, gerente de Mobilidade Urbana do WRI Brasil, uma das instituições que elaboraram o guia.
REDUÇÃO DA VELOCIDADE DAS VIAS PARA TRANSFORMAR A REALIDADE URBANA
Entre as principais recomendações, destaca-se a adoção de 30 km/h como limite padrão em áreas urbanizadas com alto volume de pessoas, como entornos escolares, centros comerciais e áreas residenciais. O guia demonstra que velocidades menores não apenas salvam vidas, mas também trazem benefícios ambientais e de saúde, como a redução de emissões de CO? e da poluição sonora.
- Transporte por moto: Com pressão por regulamentação, Uber começa a monitorar o comportamento dos motoqueiros do Uber Moto. 99 já emite alertas de velocidade
- Radares desligados: como previsto, rodovias federais do Brasil estão sem fiscalização de velocidade por falta de recursos do governo federal
-
Fim dos radares: Secretaria Nacional de Trânsito faz alerta sobre os riscos da retirada dos radares de velocidade nas rodovias federais por falta de recursos
Além disso, evidências de cidades brasileiras como Curitiba (PR), Fortaleza (CE) e São Paulo (SP) - citadas no guia - mostram que os impactos no tempo de viagem são mínimos, muitas vezes inferiores a dois minutos em trajetos urbanos diários. Na capital cearense, por exemplo, a redução do limite de velocidade de 60 km/h para 50 km/h resultou em um aumento médio de 4,72% no tempo de viagem, equivalente a um acréscimo médio de 6,08 segundos a cada quilômetro percorrido nas vias que receberam a mudança.
O documento também alerta que introduzir as políticas públicas não é fácil. Exige um esforço coordenado entre diferentes órgãos de planejamento urbano, transporte coletivo e infraestrutura. O guia detalha estratégias que podem ser aplicadas em corredores específicos, zonas de interesse ou em toda a rede viária da cidade.
Confira os principais pontos do guia:
- Abordagem de Sistema Seguro: Foco em um sistema viário resiliente que tolera erros humanos sem causar mortes.
- Priorização dos vulneráveis: Medidas desenhadas para proteger pedestres, ciclistas, motociclistas, crianças e idosos.
- Limites de velocidade seguros: Recomendação de 30 km/h em áreas de convivência e máximo de 50 km/h em vias de conexão urbana com infraestrutura adequada.
- Redesenho da infraestrutura: Uso de medidas de moderação de tráfego (como chicanas, travessias elevadas e estreitamento de faixas) para induzir comportamentos seguros de forma natural.
- Gestão baseada em evidências: Importância de diagnósticos precisos, georreferenciamento de sinistros e avaliação constante de resultados.
- Combate a mitos: Esclarecimento de que velocidades baixas não prejudicam significativamente a economia ou o tempo de viagem e são fundamentais para a segurança pública.
- Responsabilidade compartilhada: Envolvimento de governos, setor privado e sociedade civil na construção de um trânsito mais humano.
O guia foi produzido com o apoio da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, WRI Brasil, UFPR (Universidade Federal do Paraná), GDCI (Global Design Cities Initiative), Banco Mundial, União de Ciclistas do Brasil, Ciclocidade e Vital Strategies.
HÁ 20 ANOS RECIFE DESLIGA TODA FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA DE VELOCIDADE À NOITE
Desde 2006, por força de uma decisão judicial, o Recife é a única cidade brasileira conhecida por desligar seus equipamentos de fiscalização eletrônica de trânsito (velocidade e avanço de semáforo) entre as 22h e as 5h. A medida teve origem em uma ação civil pública do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), fundamentada no argumento de que a presença dos radares poderia aumentar o risco de assaltos para os motoristas naquelas áreas.
Embora a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) tenha recorrido da decisão, a sentença foi confirmada em segunda instância em 2012 e transitou em julgado em 2013, o que significa que não cabem mais recursos para modificar essa determinação específica.
IMPACTOS NA SEGURANÇA VIÁRIA
Guia Gestao Velocidades 2026 by Roberta Soares
A ausência de controle eletrônico à noite gera consequências graves. O período compreendido entre às 22h e 5h responde por até 40% de todas as mortes por colisões e atropelamentos na cidade, segundo dados da própria CTTU. O dado é alarmante, considerando que, nesse horário, a frota de veículos circulante sofre uma redução de 60%.
Especialistas apontam que a fiscalização é ainda mais vital à noite, pois é o turno em que os condutores tendem a acelerar mais e há um risco maior da combinação perigosa de álcool e direção.
Além do desligamento fixo noturno, problemas em licitações públicas em 2023 e 2024 levaram a um desligamento parcial da fiscalização em outros horários na capital, o que gerou um custo alto à cidade. Um levantamento da Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) revelou, na época, um aumento de 81,3% no número de vítimas de sinistros de trânsito em 2024, quando comparado ao mesmo período de 2023.
A análise indicou que esse salto nas ocorrências coincidia com uma queda de 50% nas autuações por excesso de velocidade a partir de julho de 2023, período em que a desativação dos radares começou a acontecer. Como as infrações de estacionamento e avanço de sinal permaneceram estáveis, conclui-se que o aumento da insegurança foi provocado pela falta de radares, e não por uma mudança de consciência dos motoristas.
POR QUE É FUNDAMENTAL REDUZIR A VELOCIDADE NAS RUAS E AVENIDAS?
A importância de manter radares ativos e impor limites rígidos de velocidade tem uma relação direta com a letalidade no trânsito. Um atropelamento a 60 km/h equivale a uma queda do 6º andar, resultando em uma chance de 98% de óbito para a vítima.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma redução de apenas 5% na velocidade média pode gerar 30% menos sinistros fatais. A 50 km/h, o risco de morte ainda é alto, embora existam mais chances de sobrevivência com ferimentos. Já a 40 km/h ou menos, a maioria dos atropelamentos pode ser evitada, porque o motorista consegue frear a tempo.