Mobilidade Travada: Recife enfrenta estagnação no trânsito e o menor efetivo de agentes da história recente
A mobilidade urbana do Recife está estagnada, com dificuldades de deslocamentos para motoristas, passageiros, ciclistas e pedestres
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Circular de carro, ônibus e de bicicleta não tem sido fácil no Recife. A mobilidade urbana na capital tem atravessado um momento de estagnação em diferentes frentes, afetando tanto o transporte público coletivo quanto os deslocamentos ativos e, ainda mais, a organização do trânsito de carros.
Mesmo com a execução de obras de infraestrutura importantes para a cidade, como as pontes e pontilhões inauguradas e/ou em construção - que permitem conexões entre bairros e pontos, além de serem esperadas há 20, 30 anos, ou até mais -, o deslocamento diário na capital, aquele da ida e volta do trabalho, da faculdade, do dia a dia, tem sido muito difícil. E, por isso, a razão dessa série de reportagens - Mobilidade Travada.
De uma forma geral, o sentimento é de que a mobilidade ativa, coletiva e sustentável ficaram em segundo plano na gestão do ‘prefeito-engenheiro’, que tem priorizado obras estruturantes e intervenções focadas, principalmente, na circulação de automóveis. O transporte público e até mesmo pedestres e ciclistas até são beneficiados, mas não seriam o foco das ações.
“Isso produz um efeito político ruim. Algumas obras começam a parecer o próprio objetivo. Não um meio para resolver um problema coletivo demonstrável, mas apenas uma entrega física para sinalizar uma ação governamental. A mensagem implícita fica quase essa: não importa tanto o que será resolvido, importa mostrar que algo grande será feito, ao custo de alguns milhões de reais”, analisa um urbanista em reserva.
Nas ruas, a reclamação é geral. Motoristas criticam o trânsito, a dificuldade de percorrer pequenos trechos na cidade e a ausência de agentes de trânsito para ordenar a circulação. Passageiros do transporte público lamentam a precarização do serviço e a falta de prioridade viária dos ônibus, que - com exceção dos 62 km de Faixas Azuis - seguem ‘presos’ nos congestionamentos da cidade.
Já os ciclistas sofrem com a estagnação da malha de ciclofaixas e ciclovias da capital, com praticamente os mesmos 200 quilômetros implantados desde o início da gestão. Além de sofrer com a falta de manutenção dos equipamentos e com as invasões diárias e perigosas pelos condutores de motocicletas, entregadores e moto apps, como Uber e 99 Moto.
AUSÊNCIA TOTAL DA PRESENÇA DA GESTÃO PÚBLICA NAS RUAS
Motoristas, motoqueiros e passageiros relatam que é cada vez mais raro encontrar agentes atuando diretamente na organização do tráfego em cruzamentos e corredores congestionados, o que contribui para o aumento de retenções e conflitos no trânsito.
“A sensação que nós temos no dia a dia é de que a gestão do trânsito está muito distante das ruas. Não vemos mais agentes de trânsito e os ‘amarelinhos’ também são poucos. Com exceção de alguns poucos corredores da cidade ou em operações especiais. Isso passa uma imagem muito ruim. É um sentimento de abandono. Quando estou em outras cidades, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro ou Fortaleza, por exemplo, percebo mais a presença dos agentes de trânsito. Isso tem chamado muito a minha atenção”, afirma o personal trainer Carlos Henrique Góes, que costuma fazer seus deslocamentos diários de carro.
A reclamação do personal diante da ausência de agentes de trânsito no Recife tem sido muito comum. Mesmo com a ampliação da fiscalização eletrônica - a capital tem, atualmente, mais de 80 equipamentos, entre radares de velocidade, controladores de avanço de sinal e de parada sobre faixa de pedestres, 10 pontos de videomonitoramento e uma Central de Operação e Trânsito (COT) -, a presença da fiscalização humana ajuda muito e mostra a presença da gestão pública.
NÚMERO DE AGENTES DE TRÂNSITO NUNCA FOI TÃO BAIXO
A capital pernambucana tem registrado a redução, ano a ano, do seu contingente de agentes de trânsito, que integram a Guarda Municipal do Recife. De forma geral, o efetivo de guardas municipais apresentou uma queda de 17% nos últimos seis anos, chegando a uma redução nunca vista antes.
Dados do Sindguardas Recife revelam que o contingente de guardas municipais ativos passou de 2.008 em 2019 para apenas 1.663 em 2025, atingindo o menor patamar da série histórica recente. Em conversa com o JC, o presidente da entidade, Alessandro Sena, destacou que a carência de pessoal é um problema estrutural que compromete gravemente a eficiência da corporação.
Segundo o dirigente, embora o Plano de Cargos e Carreiras de 2014 previsse um aumento para 2.500 guardas, a realidade atual é de um déficit de pelo menos 800 profissionais para suprir as necessidades básicas. "O número é pequeno e o lençol é curto. Hoje, o déficit de pessoal faz com que deixemos de atender pontos importantes da operação da cidade, faltando de 8 a 10 agentes por plantão", afirma Sena.
Uma parte significativa do efetivo atual - 560 agentes - atua diretamente na fiscalização de trânsito em uma autarquia (CTTU - Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife) que chega a arrecadar entre R$ 80 milhões e R$ 90 milhões anuais. Para o presidente do sindicato, o foco da gestão atual tem se voltado mais ao armamento da guarda, mas sem a devida prioridade na reposição do quadro humano.
Alessandro Sena reforça que, apesar do uso de tecnologias, a presença física do agente é fundamental para o ordenamento do trânsito: "Houve uma modernização com a implementação de câmeras na Central de Monitoramento, mas nada substitui o olhar humano. Recife é uma cidade de passagem e tem um efetivo de fiscalização muito pequeno para a frota veicular, ainda mais quando consideramos o tráfego da Região Metropolitana. A carência no efetivo é grande e a cidade sente isso", diz.
Não é à toa que a população tem reclamado. Atualmente, a prefeitura utiliza cerca de 211 orientadores de trânsito terceirizados, conhecidos como "amarelinhos", que auxiliam na mobilidade, mas possuem limitações legais por não poderem realizar autuações.