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Patinetes elétricos voltam ao Recife, após fracasso no passado devido aos riscos de lesões e até mortes

Devido ao perigo, o serviço de patinetes elétricos durou menos de seis meses no Recife em 2019, sumindo rapidamente do mesmo jeito que apareceu

Por Roberta Soares Publicado em 23/03/2026 às 13:00 | Atualizado em 23/03/2026 às 15:56

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O Recife foi surpreendido neste fim de semana com uma nova tentativa de retomada de um projeto de micromobilidade que, no passado, fracassou na capital e em muitas cidades brasileiras devido aos riscos inerentes de quedas, lesões e até mortes. E tudo isso com o aval da gestão pública municipal.

Neste domingo (22/3), a Prefeitura do Recife anunciou - tendo o próprio prefeito João Campos como garoto propaganda - o lançamento do serviço de patinetes elétricos compartilhados para uso não apenas de lazer, mas também de transporte. A mesma estratégia adotada há sete anos e que não durou cinco meses na capital exatamente pelos riscos do uso do equipamento numa infraestrutura inadequada, sejam ciclofaixas, ciclovias ou até mesmo as vias da cidade.

Muita gente pode não lembrar, mas em 2019 a empresa era a Yellow, uma startup brasileira de compartilhamento de bicicletas sem estação e patinetes elétricos, fundada em São Paulo em 2018, e criada pelos mesmos co-fundadores do aplicativo 99 em parceria com um ex-presidente da Caloi. O serviço de patinetes elétricos durou menos de seis meses no Recife: de fevereiro a agosto de 2019, sumindo rapidamente do mesmo jeito que apareceu.

Agora, a nova aposta da Prefeitura do Recife é com as empresas JET e Whoosh, selecionadas por meio de uma seleção de inovação (EITA! Labs), que iniciaram a operação na capital pernambucana com 600 equipamentos distribuídos em aproximadamente 100 pontos estratégicos, visando atender a demanda por deslocamentos curtos, a chamada "última milha". A chegada acontece em um momento de expansão da companhia pelo Brasil, que já marca presença em cidades como São Paulo (SP), Brasília (DF), Salvador (BA), Aracaju (SE), Belém (PA), Fortaleza (CE) e Belo Horizonte (MG).

PATINETES ELÉTRICOS SÃO PERIGOSOS, APONTAM ESTUDOS

Divulgação
Após sete anos da saída da Yellow, nova operadora aposta em tecnologia para sobreviver em um cenário marcado por estudos que alertam para o perigo de lesões graves e mortes - Divulgação

Apesar dos avanços tecnológicos que a nova empresa diz ter desenvolvido, a segurança dos patinetes elétricos continua sendo um ponto crítico de preocupação para autoridades de saúde e segurança viária. No primeiro ‘boom’, diversos estudos internacionais indicaram que o equipamento pode ser mais perigoso do que as bicicletas tradicionais.

Uma pesquisa realizada na Califórnia revelou que, em um ano, o número de atendimentos de emergência por lesões com patinetes superou o de bicicletas, com 40% das ocorrências envolvendo ferimentos na cabeça. Outro dado alarmante é que apenas uma pequena fração dos usuários (cerca de 4%) utiliza capacete, e uma parcela das vítimas não são os condutores, mas pedestres atingidos pelos veículos.

Casos de mortes foram registrados, inclusive, em várias partes do País, provocados exatamente pela mistura de velocidade (os patinetes desenvolvem até 25/30 km), ausência de robustez e - o que mais pesa - utilização em uma infraestrutura precária - ciclofaixas, ciclovias e até mesmo ruas desniveladas.

Dados recentes da Europa reforçam o alerta sobre a periculosidade do modal. Na Espanha, o número de mortos em quedas e colisões com veículos de mobilidade pessoal (com destaque para os patinetes elétricos) quase dobrou entre 2023 e 2024, saltando de 10 para 19 fatalidades. Na Alemanha, as mortes cresceram 27%, com metade dos feridos tendo menos de 25 anos.

As lesões descritas nos prontuários médicos são graves, incluindo fraturas complexas e danos na medula espinhal, causados pela instabilidade das rodas pequenas em velocidades que os usuários muitas vezes não conseguem controlar em ambientes urbanos congestionados.

Além do risco de trauma físico, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros pesquisadores alertam para a "mobilidade assistida" como uma barreira à atividade física. Ao substituir a caminhada ou o uso da bicicleta convencional por um trajeto passivo em um patinete elétrico, o jovem perde a oportunidade de integrar exercícios ao seu dia a dia, favorecendo o sedentarismo e aumentando o risco de doenças não transmissíveis a longo prazo. Diante desse cenário, especialistas defendem que a bicicleta continua sendo o "verdadeiro transporte do futuro", por oferecer a tríplice vantagem de saúde, sustentabilidade e maior estabilidade e segurança real para o usuário.

AUSÊNCIA DE INFRAESTRUTURA, POTENCIALIZA O PERIGO DOS PATINETES

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Após sete anos da saída da Yellow, nova operadora aposta em tecnologia para sobreviver em um cenário marcado por estudos que alertam para o perigo de lesões graves e mortes - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em 2019, os relatos de quedas e atropelamentos com patinetes elétricos que começaram pelo País chegaram ao Recife pouco tempo depois do início da operação. Usuários começaram a ser atendidos em hospitais privados. Os equipamentos, que tinham chegado à cidade ao lado das bicicletas amarelas dockless (sem estação) da Yellow, caíram no gosto popular, mas, por desenvolverem até 25km/h acenderam o alerta sobre os cuidados necessários para utilizá-los. Não apenas como, mas, principalmente, onde usá-los, já que não existia infraestrutura adequada - que segue sendo o mesmo problema atualmente.

Sem ciclovias e ciclofaixas – as mesmas reivindicadas pelas bicicletas –, as pessoas estavam usado os patinetes elétricos nas ruas, ao lado dos veículos motorizados, ou sobre as calçadas. Na primeira opção, colocavam em risco a própria segurança porque os patinetes são frágeis, com rodas pequenas. Essa, na avaliação de quem vivencia o trânsito e a chamada micromobilidade, é a principal dificuldade porque, ao encontrar um pequeno obstáculo no caminho, o patinete é mais instável do que uma bicicleta, necessitando de uma infraestrutura ainda melhor do que as existentes atualmente para as bicicletas. Não esquecendo que o equipamento também exige bom equilíbrio do piloto devido à velocidade e a pouca segurança.

Na segunda opção, quando o patinete é usado nas calçadas, o risco vai além da pessoa que o utiliza. Alcança o pedestre. Casos de atropelamentos, por exemplo, já aconteceram nessas mesmas cidades e no mundo, exatamente porque estão sendo pilotados nas calçadas e calçadões, o que é proibido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

O FANTASMA DO PASSADO

Uber/Divulgação
Pela insegurança provocada pela velocidade desenvolvida, patinetes são polêmicos - Uber/Divulgação

A saída da Yellow e da Grin (unidas sob a holding Grow) do Recife e de outras capitais brasileiras em 2019 foi motivada por uma combinação de fatores econômicos e estruturais. Na época, a operação foi considerada inviável economicamente devido ao alto custo de manutenção — com peças importadas cotadas em dólar — e ao curto tempo de vida útil das baterias.

Além das questões financeiras, o serviço enfrentou altos índices de vandalismo, furtos e uma infraestrutura urbana precária, com poucas ciclovias e um Plano Diretor Cicloviário atrasado, o que impedia uma operação segura e eficiente. Especialistas da época apontaram que o estímulo a esses modais sem uma política de Estado sólida acabou resultando em um modelo fracassado.

INVESTIMENTO EM TECNOLOGIA PARA TENTAR MINIMIZAR RISCOS

Para evitar o destino de suas antecessoras, a nova operação da JET e Whoosh aposta em tecnologia embarcada e regras mais rígidas. Segundo a empresa, os patinetes atuais são equipados com um sistema de limitação inteligente de velocidade por geolocalização, que reduz a rapidez do veículo automaticamente em áreas específicas.

Além disso, têm rastreamento por GPS, freios duplos e iluminação em LED. O uso é restrito a maiores de 18 anos e o estacionamento deve ser feito exclusivamente em locais designados, para evitar o problema de calçadas obstruídas que gerou polêmicas no passado.

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