Urbanismo tático no Recife: como o redesenho de ruas está salvando vidas de crianças em áreas escolares
Leia artigo sobre como proteger crianças no trânsito é uma escolha coletiva, com resultados a partir do uso do urbanismo tático na cidade do Recife
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No texto abaixo, assinado pelo gerente geral de Mobilidade Humana da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), Antônio Henrique, são apresentados projetos e dados sobre os ganhos obtidos no Recife com o uso do urbanismo tático, pontualmente na proteção às crianças. Confira:
Proteger crianças no trânsito é uma escolha coletiva e urgente
Por Antônio Henrique
Todos os dias, milhares de crianças percorrem as ruas do Recife para chegar à escola, ao parque, a hospitais, à casa de familiares. Esse trajeto, que deveria ser um momento de descoberta e autonomia, ainda expõe muitas delas a riscos que não deveriam existir. Proteger crianças no trânsito não é apenas uma questão técnica ou de engenharia urbana. É, sobretudo, uma escolha política, ética e coletiva.
As cidades foram historicamente desenhadas para a fluidez dos veículos, não para a segurança das pessoas. Quando falamos de crianças, essa lógica se torna ainda mais injusta. Elas são mais vulneráveis fisicamente, têm menor percepção de risco e dependem de adultos e do poder público para que o espaço urbano seja seguro. Uma rua perigosa para uma criança é um sinal claro de que algo está errado na forma como organizamos a cidade.
No Recife, temos trabalhado para inverter essa lógica. Nos últimos anos, a cidade passou a tratar a segurança viária de crianças como prioridade, especialmente nos entornos de escolas, parques e equipamentos públicos. Projetos como o Caminho da Escola, implantado recentemente no bairro da Caxangá, mostram que é possível redesenhar ruas para proteger vidas: reduzir velocidades, ampliar calçadas, qualificar travessias e criar ambientes mais acolhedores e lúdicos.
Essas intervenções não acontecem por acaso. São fruto de planejamento, de trabalho técnico intenso e, muitas vezes, de enfrentamento a resistências culturais que ainda normalizam o excesso de velocidade e o domínio do automóvel. Reduzir a velocidade para 30 km/h em áreas escolares, por exemplo, não é uma decisão estética. É uma medida comprovadamente eficaz para reduzir a gravidade dos sinistros e salvar vidas.
REDUÇÃO DE SINISTROS CHEGOU A 75% EM ALGUMAS ÁREAS
Os dados confirmam isso. Na Rua Othon Paraíso, no Torreão, antes da intervenção, quase 80% dos veículos trafegavam acima da velocidade permitida. Após o redesenho da via, esse número caiu para pouco mais de 22%. Na Zona 30 da Ilha do Leite, houve uma redução de 75% nos sinistros de trânsito com vítimas entre 2019 e 2023. Esses resultados não são estatísticas frias: representam crianças que chegam em segurança à escola, famílias mais tranquilas e uma cidade mais justa.
A urgência desse tema é global. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os sinistros de trânsito são a principal causa de morte de crianças e jovens entre 5 e 29 anos no mundo. Estima-se que cerca de 500 crianças morrem diariamente em ocorrências viárias no mundo. A cada 25 segundos, uma vida é perdida no trânsito. Esses números não podem ser naturalizados.
Ao investir em urbanismo tático e em intervenções permanentes, o Recife tem mostrado que políticas públicas baseadas em evidências funcionam. Hoje, a cidade conta com mais de 65 áreas transformadas, muitas delas inicialmente temporárias e posteriormente consolidadas em concreto, como no Rosarinho, na Rua do Hospício e na Avenida Conde da Boa Vista. Em locais como o Largo Dom Luiz, a simples reorganização do espaço reduziu drasticamente o número de pedestres caminhando pelo leito viário, inclusive crianças.
Garantir segurança viária para crianças exige persistência. É um trabalho diário, que envolve equipes técnicas, educadores, gestores públicos e a sociedade. Exige escuta, dados, avaliação constante e, principalmente, a compreensão de que a rua é um espaço de convivência, não de disputa.
Quando protegemos uma criança no trânsito, estamos protegendo o futuro e o presente da cidade. Estamos nos posicionando e mandando uma mensagem de que a vida vem antes da pressa. Que brincar, caminhar e aprender fazem parte do direito à cidade. E que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Esse é o compromisso que temos assumido no Recife e que precisa ser permanente, coletivo e inegociável.