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Ponte Cordeiro-Casa Forte: Ameciclo denuncia projeto ao MPPE por irregularidades de mobilidade e urbanísticas

Entidade de ciclistas aponta que obra de R$ 236 milhões privilegia o transporte individual e ignora diretrizes de mobilidade sustentável

Por Roberta Soares Publicado em 24/12/2025 às 10:14 | Atualizado em 24/12/2025 às 13:21

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A Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) protocolou, no dia 26 de novembro de 2025, uma Representação Civil Pública junto ao Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE) denunciando uma série de irregularidades no projeto da Ponte Cordeiro-Casa Forte, que representará uma importante conexão da chamada Terceira Perimetral do Grande Recife. A denúncia, encaminhada à 35ª Promotoria de Justiça da Defesa da Cidadania da Capital, alega que o empreendimento de R$ 236,3 milhões viola legislações urbanísticas, ambientais e de mobilidade vigentes no Recife, além de ter excluído a participação popular em seu processo de elaboração.

O principal argumento técnico da Ameciclo é que o projeto privilegia a circulação do transporte motorizado individual em detrimento dos modos ativos (pedestres e ciclistas) e do transporte público. Segundo o parecer técnico anexado à denúncia, a ponte foi projetada com quatro faixas de rolamento para carros (com largura de até 3,30 m), enquanto reserva apenas 1,0 metro para ciclovia e 1,2 metro para calçadas. Essas dimensões, argumenta a Ameciclo, contrastam frontalmente com o Manual de Desenho de Ruas (MDR) do Recife, que estabelece o mínimo de 2,0 metros para ciclovias unidirecionais e 2,4 metros de faixa livre para calçadas residenciais.

Daniel Valença, que faz parte da coordenação da Ameciclo, expressou preocupação com a distorção das prioridades legais. "Ficou tudo mais grave quando a gente viu o projeto e a ponte tinha uma ciclovia de 1 m de largura e uma calçada de 1,20 m. Isso está em desacordo com o manual de desenho de ruas, que é um decreto municipal, ou seja, uma lei", afirmou Valença. Ele ainda destaca a contradição no próprio objeto da licitação: "Tudo ficou muito mais surreal no momento que a gente descobriu que a licitação se tratava de um corredor de ônibus, mas não existe sequer previsão de uma faixa exclusiva de ônibus naquele local".

IMPACTO SOCIAL E ‘APAGAMENTO’ DA COMUNIDADE DE SANTANA

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Ponte Cordeiro-Casa Forte será parte da Terceira Perimetral Metropolitana e fundamental para o transporte público do Grande Recife - Divulgação
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A Ponte Cordeiro-Casa Forte faz parte da Terceira Perimetral Metropolitana, artéria pensada para ligar o bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, à rodovia PE-15, em Olinda, na Região Metropolitana - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte será parte da Terceira Perimetral Metropolitana e fundamental para o transporte público do Grande Recife - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte teve o edital de licitação lançado pela Prefeitura do Recife - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte teve o edital de licitação lançado pela Prefeitura do Recife - Divulgação

A denúncia também destaca o impacto sobre a comunidade de Santana, um território ribeirinho historicamente ocupado por população majoritariamente negra e de baixa renda. A entidade aponta que o projeto utiliza a nomenclatura "Cordeiro-Casa Forte", o que promoveria um apagamento histórico de Santana, local onde a ponte será efetivamente instalada. Além disso, os moradores alegam que pedidos de acesso à informação foram ignorados pela gestão municipal e que o Conselho da Cidade sequer foi consultado sobre a obra de grande impacto.

Sobre a ameaça ao modo de vida local, Daniel Valença relata que a convivência comunitária está em risco. A denúncia reforça que, embora a área abrigue seis escolas, o projeto não contempla o tratamento de "ruas escolares" previsto nas diretrizes municipais.

"Era claro pra gente que aquela comunidade estava ameaçada pela especulação imobiliária, mas principalmente por um sistema viário que iria destruir completamente a convivência na comunidade. As ruas Dona Olegarinha da Cunha e Henrique Machado são tipicamente ruas onde as crianças brincam e onde há muita convivência", alertou.

QUESTIONAMENTOS À JUSTIFICATIVA TÉCNICA DO PROJETO

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Ponte Cordeiro-Casa Forte será parte da Terceira Perimetral Metropolitana e fundamental para o transporte público do Grande Recife - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte teve o edital de licitação lançado pela Prefeitura do Recife - Divulgação

Outro ponto central da representação ao MPPE questiona a justificativa técnica da prefeitura de que a ponte aliviaria o congestionamento em vias radiais como a Avenida Rui Barbosa. A Ameciclo sustenta, baseada na ciência do tráfego, o conceito de "demanda induzida": “A criação de novas faixas para automóveis acaba atraindo mais veículos, resultando em congestionamentos ainda piores em médio prazo”, diz a entidade.

A Ameciclo ainda argumenta que, ironicamente, os próprios estudos de capacidade viária presentes no edital indicam que o Nível de Serviço (NS) do tráfego irá piorar após a construção da ponte, atingindo o nível "F" (fluxo forçado e extensas filas) em cruzamentos importantes das Avenidas Caxangá e 17 de Agosto.

Daniel Valença critica essa visão centrada no carro: "As pontes não trazem transtorno, o que traz transtornos são pontes pensadas exclusivamente para os carros e não para as pessoas. Essa ponte pode ser diferente. Ela pode ser um ponto para as pessoas, como está prevista no Recife 500 anos e no Parque Capibaribe".

Diante das irregularidades, a Ameciclo solicitou ao MPPE a suspensão cautelar da execução da obra e a revisão completa do projeto geométrico para garantir a conformidade com as leis de mobilidade e a proteção da comunidade de Santana.

A reportagem não conseguiu retorno do MPPE sobre a denúncia devido ao recesso do fim de ano. E, sem um posicionamento do órgão, não provocou a Prefeitura do Recife, já que não se sabe se o MPPE vai dar seguimento à denúncia.

ENTENDA A NOVA PONTE CORDEIRO-CASA FORTE, QUE CUSTARÁ R$ 236 MILHÕES

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Ponte Cordeiro-Casa Forte teve o edital de licitação lançado pela Prefeitura do Recife - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte será parte da Terceira Perimetral Metropolitana e fundamental para o transporte público do Grande Recife - Divulgação
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Ponte Cordeiro-Casa Forte será parte da Terceira Perimetral Metropolitana e fundamental para o transporte público do Grande Recife - Divulgação

A Prefeitura do Recife publicou o edital de licitação para a construção da Ponte Cordeiro-Casa Forte e a implantação do complexo viário da Terceira Perimetral. O conjunto de obras, que contará com financiamento da Caixa Econômica Federal/FGTS, além de contrapartida municipal, pretende criar uma nova alternativa de deslocamento crucial entre as Zonas Oeste e Norte da cidade.

O investimento total está orçado em R$ 236,4 milhões, sendo R$ 180 milhões destinados à construção da estrutura da ponte e R$ 56,4 milhões para as intervenções no complexo viário. A obra promete um impacto significativo ao conectar vias importantes, como as Avenidas Rui Barbosa, Rosa e Silva, General San Martin, Caxangá e outras, criando um novo corredor de acesso que irá reduzir o tempo e a distância de deslocamento.

A nova ponte ligará a Avenida Caxangá à Avenida 17 de Agosto. Com 380 metros de extensão e cerca de 11 metros de altura, ela será construída em um prazo previsto de 38 meses. E, segundo a PCR, ela se consolidará como a maior ponte erguida no Recife nas últimas quatro décadas, com o dobro do porte da Ponte Iputinga-Monteiro (Engenheiro Jaime Gusmão), inaugurada em agosto de 2024.

A gestão municipal explicou que o projeto adota o sistema estrutural do tipo "extradorso", uma combinação entre os modelos estaiado e em viga. Essa tecnologia permite que a estrutura seja mais leve e atravesse o Rio Capibaribe sem precisar de apoios na água, garantindo a preservação da navegabilidade.

A ponte terá quatro faixas de rolamento (duas em cada sentido), ciclovia e calçadas acessíveis - como determina a Lei da Mobilidade Urbana. As intervenções, coordenadas pela Autarquia de Urbanização do Recife (URB), preveem que a construção e o complexo viário beneficiem milhares de recifenses, podendo reduzir em até 57% as distâncias percorridas e em até 63% o tempo de viagem em alguns trajetos, como o deslocamento entre a Avenida San Martin e a Avenida 17 de Agosto.

O complexo viário complementará a ponte com a requalificação de 17 vias do entorno, totalizando 7,3 km de extensão, incluindo melhorias de drenagem, iluminação pública, paisagismo e a implantação de 1,2 km de ciclofaixa. A ponte sairá do bairro do Cordeiro, pela Avenida Professor Estevão Francisco da Costa, e, ao chegar em Casa Forte, se dividirá em dois acessos: um pela Rua Dona Olegarinha e outro pela Rua Jorge Gomes de Sá, próximo ao Parque Santana.

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