Literária | Notícia

Histórias para o olhar e a voz

Em diálogo neste sábado no Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz, Clarice Freire e Aline Bei estarão no Teatro de Santa Isabel

Por Fábio Lucas Publicado em 31/07/2026 às 16:40

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Palco tradicional em endereço histórico na capital pernambucana, o Teatro de Santa Isabel receberá, neste sábado, duas representantes da literatura brasileira contemporânea, que irão conversar sobre “Narrativas para Habitar o Mundo”. Aline Bei e Clarice Freire participam do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz, neste sábado, no Salão Nobre do Santa Isabel, a partir das 4 e meia da tarde. As escritoras anteciparam abordagens que poderão aparecer no bate-papo, nesta entrevista dupla para a Literária. “A gente será sempre quem escreveu e nunca quem lê o próprio texto, por mais que haja um distanciamento na edição. Nunca estaremos no lugar do leitor do nosso próprio texto, como jamais veremos o nosso próprio rosto de frente”, diz Aline Bei, sobre quem escreve.
“A forma conta histórias. O lugar em que coloco uma palavra e o peso que dou a ela, conta uma história diferente se eu der um peso diferente e um lugar diferente a ela”, explica Clarice Freire, para quem “a palavra também é feita para se ver, além de feita para ler”.


Vocês acham que o mundo já foi mais habitado pelas histórias, e hoje temos dificuldade para identificar algumas narrativas que nos formaram?

Aline Bei – Acho que só posso falar do meu mundo em particular, e não do mundo no geral. Meu mundo particular sempre foi habitado por histórias, que têm importância tremenda na construção da minha subjetividade. Na aquisição de musculatura para a imaginação. A imaginação não é um gesto que se dá no vazio, é feita de um repertório muito pessoal a partir do que se escuta, se vê, se incorpora. Tanto das atividades artísticas quanto da vida banal, do dia a dia. A partir do acúmulo desse repertório de vida é que a imaginação se dá. Para mim, as histórias estão sempre por perto, desde a minha infância até hoje.

Clarice Freire – Também tenho o privilégio de ter tido a infância e uma vida toda muito permeada por histórias. E por histórias que formavam imagens, antes de tudo, dentro de mim. Por isso a Aline fala que o repertório faz com que a imaginação não seja um espaço vazio, de fato, vamos ganhando esse repertório ao longo da vida. Fico pensando nas crianças e nos adolescentes que já nascem e crescem no ambiente digital. O repertório pode acabar dominado pelas narrativas de 30 segundos do reels, que normalmente não buscam um estímulo tão profundo da imaginação, de questões existenciais, que a arte e a escrita têm condição de tocar. Fico pensando o quanto que parar, hoje, e ler um livro tem se tornado um ato – apesar de a palavra estar um pouco cansada – de resistência. A gente percebe grupos fazendo raves de leitura, clubes de leitura se espalhando, como se fosse uma forma que as pessoas estão tentando, nesse mundo tão barulhento, dar as mãos e dizer: vamos parar diante da palavra, juntos, vamos tentar se ajudar para tocar no lugar do repertório, que Aline comentou, que é o da imaginação.

Qual o papel da escrita, num mundo de narrativas instantâneas em que a palavra disputa espaço com a imagem?

Aline Bei – A escrita, nesse sentido, tem um poder bonito de preservação, ainda que a oralidade também faça isso, de algum modo, pela repetição. Mas a escrita mantém em alguma segurança uma história que se conta e se dá pela linguagem escrita, com a suas singularidades e diferenças da linguagem falada. A linguagem falada está a serviço de outras forças, e pode inclusive compactuar com a força corpórea de quem narra, do corpo que narra. A escrita precisa que tudo seja absorvido por ela, é assim que constrói essa espécie de voz, que é a busca de todo escritor, para que essa voz seja corpo e possa ter também o efeito do gesto de intimidade do que se narra.

Clarice Freire – A palavra tem um papel salvífico mesmo, nesse contexto do barulho. O livro, a palavra escrita, o processo de escrever, nos coloca em um lugar de atenção quase monacal, do silêncio, do recolhimento, de uma musculatura, usando a palavra que Aline usou, cerebral, de um lugar muito diferente do que a gente usa, certamente, para rolar um feed. Isso é fundamental para a respiração da alma. A alma respira com a beleza da arte. No país que a gente vive, onde se sabe que os números são preocupantes em relação à leitura e à palavra, as escolas continuam tendo um papel fundamental de incentivo à leitura. As redes sociais também, quem cria conteúdo e se aproxima dos jovens influenciando o hábito da leitura. No mundo offline, além das escolas, as famílias que conseguem fazer esse movimento, ou no mundo da economia da atenção no meio digital, acredito com muita força no poder revolucionário que a palavra escrita continuará tendo, como tem pra mim. Sempre salvou e continua salvando a minha vida, a possibilidade de entrar numa caverna luminosa, que somente a palavra escrita pode me levar.

 

Fernando Rabelo
Aline Bei participa de festival literário - Fernando Rabelo

 

O quanto importa a forma? Como vocês gostam de conhecer histórias? E de criar e transmitir?

Aline Bei – Pra mim, a forma é a escrita. Em alguma medida, tudo que compõe uma narrativa, todas as suas especificidades são inseparáveis no processo de criação. Ainda que quando a gente estude literatura e escrita, se separe muito, para poder exemplificar e expressar a complexidade da feitura de um texto literário. Mas sinto que forma, conteúdo, temática, personagem, linguagem, pontuação, tudo isso é uma unidade muito singular quando se escreve. As histórias por escrito têm essa textura das escolhas intencionais que a autora ou o autor teve que fazer para sustentar certas experiências na folha que vão gerar um efeito, às vezes, imaginado, mas que também pode ocupar um espaço bastante outro para o leitor e a leitora. O nosso texto, o texto da autora e do autor, a gente será sempre quem escreveu e nunca quem lê o próprio texto, por mais que haja um distanciamento na edição. Ainda assim, nunca estaremos no lugar do leitor do nosso próprio texto, como jamais veremos o nosso próprio rosto de frente, como um outro consegue, de uma forma tão acessível.

Clarice Freire – Concordo plenamente. Acho que posso acrescentar sobre o lugar da palavra poética. Acredito que a palavra poética é a única capaz de abrir todas as coisas. E quando a gente fala da forma, não consigo não associar a forma à palavra poética. Pelo menos na minha escrita, e acho que isso conversa muito com você também, Aline. Quando me perguntaram como foi migrar de livros de poesia para um romance, por exemplo, tendo dois livros de poesia e ido para o romance, nunca me senti migrando. A palavra poética é uma necessidade pra mim. É justamente essa coisa agradável que traz o estranhamento, a partir do estilo de um autor, das escolhas estéticas que ele faz, os caminhos, as quebras, as surpresas, as vielas que ele ocupa, que são únicas com a própria palavra, isso é o que vai causar no leitor o impacto que outras formas de linguagem não terão. Porque a gente pode se surpreender pela narrativa em si, pode ser fisgado, pode se apaixonar pelo fato que acontece numa boa história. Mas quando a gente lê, também pode se apaixonar, quase na mesma medida e às vezes mais, pela maneira como aquela cena ou aquele fato foi narrado, por conta da escolha da forma estética. Quase como uma pintura. Clarice Lispector dizia que o escritor e o pintor têm ofício muito parecido. O que é isso senão uma busca pela beleza, através da forma, não somente pelo que está sendo dito, mas como está sendo dito. Acredito que, não vir da poesia, mas ser da poesia, faz com que isso seja um processo de necessidade. É uma necessidade pra mim, falar e ouvir, entender, criar e construir meus mundos narrativos através da poesia. Que essencialmente tem a ver com a forma. A forma conta histórias. O lugar em que coloco uma palavra e o peso que dou a ela, conta uma história diferente se eu der um peso diferente e um lugar diferente a ela. Inclusive, vindo da poesia visual, isso é ainda mais forte. A palavra também é feita para se ver, além de feita para ler.


Os livros continuam sendo a base das narrativas, mesmo quando servem de fonte para a oralidade e as artes cênicas. O que fazer para valorizar e disseminar mais os livros?

Aline Bei – Há tantas ações possíveis para disseminar o livro. Um evento como esse, a conversa com o público. A aproximação com o público leitor e os debates em torno de uma obra literária contemporânea formam o interesse em torno do livro, estimulam a leitura. Sinto que os clubes de leitura também têm um papel fundamental nessa formação de leitores no Brasil, e eles têm crescido muito, não só em quantidade, como também em comprometimento com o texto contemporâneo, em especial o texto feito por mulheres e por vozes diversas. Isso muda absolutamente o cenário, ainda que a gente precise de uma transformação ainda mais radical. Mas sinto que há uma mudança expressiva, fruto desses coletivos de pessoas comprometidas com a vida do livro, e que transformam a paixão pela leitura em ações que mudam não só a relação das pessoas com uma obra de arte, mas também, muitas vezes, com a própria cidade.

Clarice Freire – Perfeito. Quero fazer coro com o que Aline está trazendo sobre a relação com a própria cidade e as políticas públicas. O poder que as políticas públicas têm de disseminar o livro é muito grande. Nas pesquisas Retratos da Leitura no Brasil, continua sendo apontado como principal agente influenciador no hábito da leitura, não na compra, quem desperta a paixão pela leitura ainda é a escola, a família, o amigo. As políticas públicas que possam investir pesadamente no hábito da leitura desde cedo, que levem os escritores para as escolas da cidade, trabalhar nas escolas os autores e autoras contemporâneos, que toquem em temas que interessem a esses jovens, desde cedo podem ir criando neles, inevitavelmente, uma relação mais íntima, menos distante, com o livro. Da mesma maneira, reforçando a importância dos agentes que estão no mundo digital, onde também estão os jovens, para que a gente possa continuar colocando o livro nesse lugar. A Câmara Brasileira do Livro adicionou ao Prêmio Jabuti uma categoria de premiação para os criadores de conteúdo literário digital. O que achei muito importante, porque é um reconhecimento institucional para esses agentes da cadeia do livro. Eventos como este, no Teatro de Santa Isabel, que é emblemático, levando as pessoas para escutar escritores falarem, artistas falarem sobre literatura no Teatro de Santa Isabel, achei uma combinação tão inteligente. É o tipo de política pública que a gente precisa, e ampliar ainda mais, fazer isso ainda maior. Falando do Recife, sonho que o Recife seja cada vez mais o que nasceu para ser, e já é: um grande polo literário, uma grande fonte de criatividade literária para o resto do Brasil.

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