Poesia no encontro dos corpos
Juliana Linhares apresenta "Até Cansar o Cansaço" neste domingo, no Teatro de Santa Isabel, no Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz
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A poesia se move à luz de um corpo, expressa em gestos que acompanham o silêncio e a voz. A poesia no palco não se cansa de impulsionar o corpo que traduz mais que o pensamento em palavras e melodias, no espetáculo da vida sempre redescoberta pela arte – numa sempre nova descoberta. Em “Até Cansar o Cansaço”, Juliana Linhares canta o repertório do seu disco de mesmo nome, inspirado na obra do neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro. Canta, encena, encanta: “Venho do teatro, então nunca consegui separar completamente palavra, gesto e voz”, diz, em entrevista para a coluna.
A artista potiguar, que afirma se sentir acolhida em Pernambuco, oferece uma pausa preciosa em nosso consumo voraz de informação. “Somos convocados o tempo inteiro a reagir, opinar, consumir, produzir, responder”, aponta, certeira. “Por isso o disco também tenta abrir pequenas brechas. Não para oferecer respostas, mas para desacelerar um pouco a percepção e lembrar que existem outros ritmos possíveis para viver”.
A apresentação de Juliana Linhares em “Até Cansar o Cansaço” será dentro da programação do Festival Recifense de Literatura A Letra e a Voz, neste domingo, 2 de agosto, a partir das 7 da noite no Teatro de Santa Isabel. O ingresso é gratuito, mediante a entrega de 1 kg de alimento não perecível.
A seguir, a entrevista.
O sol na solidão, o sal na saudade, o espelho que multiplica toda voz: na canção “Tempos temporais”, a poesia vibra no ar com a palavra que vem do corpo, como vinda de tempos ancestrais. Como a poesia chega primeiro em você - pela palavra, ritmo, sonoridade, melodia, numa ideia de movimento para o corpo? Quando a palavra expressa se faz arte, através da artista?
Juliana Linhares - Acho que a poesia chega primeiro pelo corpo. Antes de entender uma frase, eu sinto o peso dela, a respiração, o ritmo, o jeito que ela pede para ser dita. Muitas vezes uma música nasce de uma pulsação, de uma imagem ou de uma melodia sem palavras. Outras vezes, uma frase aparece e ela já traz dentro de si um compasso, uma paisagem sonora. Venho do teatro, então nunca consegui separar completamente palavra, gesto e voz. A palavra, para mim, só se completa quando encontra um corpo disposto a atravessá-la. E esse corpo não é só o meu, é o corpo de quem escuta também. A arte acontece nesse encontro. Quando uma experiência muito íntima encontra algo que pertence a todo mundo, a palavra deixa de ser apenas minha e passa a circular.
Somos inundados por informação a cada segundo, de maneira incessante. Será que essa inundação contribui para o cansaço coletivo, que nos deixa individualmente atordoados?
Juliana Linhares - Acho que sim. A gente vive uma espécie de hiperatenção permanente. Somos convocados o tempo inteiro a reagir, opinar, consumir, produzir, responder. Parece que nunca existe um intervalo suficiente para que uma experiência realmente aconteça antes da próxima chegar. O cansaço de que falo no disco não é apenas físico. É um esgotamento da atenção, da imaginação e da capacidade de sonhar. Tenho pensado muito nisso a partir de vários estudos, mas trago Sidarta Ribeiro. O sonho, para Sidarta, é uma ferramenta de elaboração da vida. Talvez estejamos perdendo justamente os espaços onde conseguimos transformar informação em experiência, experiência em memória e memória em imaginação. Por isso o disco também tenta abrir pequenas brechas. Não para oferecer respostas, mas para desacelerar um pouco a percepção e lembrar que existem outros ritmos possíveis para viver.
O que te chamou mais atenção na obra de Sidarta Ribeiro, que provocou a criação de “Até Cansar o Cansaço”?
Juliana Linhares - O que mais me tocou foi a maneira como ele recoloca o sonho e a imaginação no centro da experiência humana. Vivemos um tempo que valoriza quase exclusivamente produtividade, eficiência e desempenho, e Sidarta nos lembra que sonhar também é uma forma de inteligência. Isso dialogou profundamente com o momento em que eu estava vivendo. Eu sentia um cansaço que era meu, mas que também parecia coletivo. Aos poucos fui percebendo que o disco não falava apenas da exaustão. Falava da necessidade de preservar a capacidade de imaginar futuros quando tudo parece nos empurrar para a repetição. “Até Cansar o Cansaço” nasceu desse desejo de não aceitar o esgotamento como destino. De continuar acreditando que a sensibilidade, a arte e o encontro entre as pessoas ainda podem reinventar o mundo, mesmo em tempos tão difíceis.
Há lugares que nos acolhem com uma cumplicidade poética. O que você sente quando vem a Pernambuco, especialmente ao Recife?
Juliana Linhares - Recife sempre me dá a sensação de uma cidade onde a criação artística faz parte da vida cotidiana. Existe uma intensidade muito bonita na relação que Pernambuco construiu com sua própria cultura, é sempre, é em cada detalhe, é todo dia em cada bom dia. Como artista nordestina, sinto que existe um reconhecimento também. É como se eu chegasse falando uma língua que já encontra ecos. Pernambuco sempre produziu artistas que me formaram e continuam me inspirando. Então voltar a Recife é também reencontrar uma parte importante da minha própria formação, além e mais ainda, abraçar meus contemporâneos tão potentes, vou citar um só porque são tantos, mas Juliano Holanda! Que é meu parceiro neste álbum! Que bom poder chegar e compartilhar este trabalho com meus companheiros de agora. Me sinto acolhida em Pernambuco e isso pra mim é uma honra, sou muito admiradora e filha do que se produz aí culturalmente.