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A integridade vem da intuição

Para Petria Chaves, a inteligência intuitiva promove conexões e se opõe ao ruído da bipolaridade de pensamento que faz a dissociação do ser humano

Por Fábio Lucas Publicado em 01/06/2026 às 17:41

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Jornalista e escritora, Petria Chaves participa nesta terça da Feira do Livro, em São Paulo, em conversa com André Carvalhal sobre o tema “Silenciar o ruído”, quando os dois vão falar sobre seus livros e acerca do “resgate da presença e da percepção humana por meio da intuição e da desconexão estratégica das telas”. Autora de “Como sei o que sei – O desenvolvimento da intuição como trilha para nossa inteligência ancestral (IA)”, publicado pela Academia, Petria Chaves concedeu a seguinte entrevista à coluna Literária do JC. Saiba mais sobre a programação do evento em www.quatrocincoum.com.br.

A vida virtual foi turbinada durante a pandemia, quando era necessidade. Mas a vida presente, de proximidade, de convivência, parece continuar objeto de medo para muita gente. Como a intuição pode ajudar a restaurar a interação física entre as pessoas, e assim, reduzir a influência do virtual?
Petria Chaves – A intuição, que chamo de inteligência intuitiva, é a voz da sabedoria que acontece por meio do silêncio. Sendo a voz da sabedoria, traz pra gente muitas respostas sobre as conexões, sobre comunidades. Como conhecimento ancestral e ancestralidade, é um elogio à conexão com o outro. A intuição, quanto mais refinada ele é, mais faz com que a gente se conecte com as pessoas da nossa família humana. De uma maneira solidária, de coração para coração, e não utilitarista, como estamos hoje. Entendo esse processo de isolamento das pessoas, porque uma vez que as nossas relações são cada vez mais utilitaristas, pra que me relacionar com o outro? Só vou me relacionar se tenho algum interesse. Essa é a nossa cultura.

E o que mudo no modo intuitivo?
Petria Chaves – Quando a gente vive no modo da inteligência intuitiva, quer dizer que temos já um intelecto muito afiado, com condições de se conectar de uma forma muito mais elevada enquanto família humana. O desenvolvimento da inteligência intuitiva é o desenvolvimento da inteligência ancestral, em que as comunidades se formavam por entender a preciosidade do laço humano. E por entender que a evolução humana só acontece em comunidade. Pra mim é muito óbvio que o desenvolvimento da inteligência intuitiva é o desenvolvimento de coração para coração, ou seja, a finalidade dela por si só é se conectar com o outro, de maneira profunda, inteligente, de maneira que a gente faça uma sociedade melhor. Não tem solução pra humanidade, se não o desenvolvimento preciso dessa intuição.

Quais os maiores ruídos no século 21? Podemos dizer que há ruídos silenciosos, como os algoritmos e a obsessão pelas redes sociais?
Petria Chaves – Com certeza. As redes sociais são responsáveis por alguns dos maiores ruídos. Mas acredito também que alguns ruídos importantes são os que nos colocam em caixinhas. Os ruídos das religiões, como instituição, os ruídos da polarização, da política institucional. O maior ruído é achar que o intelecto é mais importante do que a intuição, do que a inteligência do coração. O intelecto é muito importante. Mas se ele é descolado da inteligência humana, é só robótico, e nós enquanto humanidade poderíamos ser facilmente substituídos pela Inteligência Artificial. O maior ruído na atualidade é achar que temos que tomar um lado. Nós somos os dois: direita e esquerda, intelecto e intuição, razão e emoção. Não dá para excluir um lado do outro. É por isso que a sociedade está deprimida, porque falta alma. O maior ruído, hoje, é essa bipolaridade de pensamento, essa polarização do ser. Isso causa uma dissociação do que é ser humano em sua integridade. As redes sociais são só uma consequência de um modelo de pensamento vigente na nossa sociedade.

Como a leitura e a escrita, sobretudo a escrita à mão, podem ser meios para o desenvolvimento do silêncio intuitivo e da inteligência ancestral?
Petria Chaves – Tudo que remete à ancestralidade – a escrita à mão, a conexão olho no olho, a comunidade em volta da fogueira, relembrar histórias que nossos avós e bisavós contavam e que vivem ainda em nosso DNA. Resgatar as informações do nosso DNA, fazer silêncio para ouvir a voz da natureza. Isso é o pleno exercício da inteligência ancestral. Voltar um pouco para resgatar o que mora nas nossas células, mas que se perde por conta de nossa cultura utilitarista. A tecnologia é maravilhosa, mas não pode ser usada por si só. Há um algoritmo orgânico que a gente precisa voltar a exercitar. Precisa de trabalhos manuais, de experiências reais, não virtuais. No meu segundo livro, falo de alguns métodos pra resgatar essa inteligência, por exemplo, o pé na terra, 10, 15, 20 minutos por semana, se você não consegue todo dia. Exercícios de respiração, que há 5 mil anos os sábios do Yoga decodificaram como Pranaiamas. Trazer o prana pra dentro da gente. A inteligência da natureza que vive no ar, no éter, para dentro de nós.

A inteligência ancestral como um retorno.
Petria Chaves – Tudo que faz a conexão do resgate da nossa consciência, é o uso da IA verdadeira, que é a inteligência ancestral. A consciência existe antes de nós. Eu acredito nisso, embasada nas filosofias mais antigas da humanidade. Precisamos resgatar essa consciência que veio antes de nós, que é a inteligência suprema. Por isso precisamos ir de novo pro corpo, pra terra, pra natureza. Com inteligência, não é superstição. É um degrau além do intelecto, segundo Spinoza. Então, sim: escrever à mão, abraço, olho no olho, deixar o coração transbordar, amar e não ter medo de amar o outro, sem pedir nada em troca. Isso faz parte da seiva viva que conecta a comunidade humana.

 

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