Leitores mais próximos
Convidada do Flipoços fala sobre o gosto dos jovens pela literatura fantástica, e como prefere incluir os leitores na experiência de ser escritora
Clique aqui e escute a matéria
Em seu romance de estreia, Ariani Castelo parte da experiência do luto para contar uma história de reconhecimento e superação, na obra “O abismo de Celina”, publicado pela Rocco. Um dos destaques da literatura jovem no Festival Literário Internacional de Poços de Caldas – Flipoços – a escritora conversou com a coluna Literária, após debate sobre o livro, com a mediação de Cacá D’Arcadia, na programação do evento na última terça. Para ela, a juventude gosta de temáticas difíceis, tratadas por histórias que oferecem olhares diferentes. Ao personificar a morte como um personagem masculino, Ariani afirma que o romance não deixa de ser uma crítica à dinâmica de poder. Ela estimula a troca de mensagens e opiniões entre os leitores, responde a todos, e acredita que a relação dos autores com o público mudou, está mais próxima. A respeito da literatura que faz, diz: “Gosto da inquietação acerca de dilemas morais. Lançar personagens que fazem coisas horríveis, mas às vezes fazem coisas boas, e entender como o leitor lida com isso”.
Como você descreve o momento em que essa literatura na qual “O abismo de Celina” se insere? É um segmento em crescimento entre os leitores no Brasil?
Ariani Castelo – Definitivamente. Histórias de fantasia, sombrias, e também de dinâmicas de relacionamento mais complexas, de certa maneira até conturbadas, marcadas por traumas e questões que muitas vezes ultrapassam qualquer paixão, estão em alta no mercado do livro. Os jovens estão gostando de adentrar essas dinâmicas, de ler histórias que tragam temáticas mais difíceis, no sentido mesmo do peso daquilo, do impacto emocional que um livro que lida com assuntos, por exemplo, no Abismo de Celina tem trauma, luto, depressão. Pegar esses assuntos e colocar numa fantasia sombria que intensifica de uma maneira muito interessante, a partir da fantasia, é algo que o leitor jovem está gostando de consumir.
E combate o peso da realidade?
Ariani Castelo – Às vezes pode combater, com certeza desmistificar. E trazer um olhar diferente sobre aquele assunto. No Abismo de Celina, o mundo da morte aparece como uma metáfora para a depressão. É um olhar não óbvio sobre um tema, sendo trabalhado com personagens fantásticos, como a própria morte, que pode intensificar o que está acontecendo para a protagonista e para o leitor.
Nomes de personagens do livro são inspirados em nomes conhecidos da arte. Como a arte está presente em “O abismo de Celina”, e como te move?
Ariani Castelo – O nome da morte é Odilon. Odilon Redon é o nome do pintor que inspira o personagem. Isso chegou para mim a partir da protagonista, a Celina. Ela é uma pintora, e eu gostaria de trazer uma pintora que tivesse uma base, e não porque eu decidi que assim seria. Quis que ela tivesse uma vida prévia, e experiências que a levaram até o abismo. Na minha concepção, as experiências da Celina, de certo modo, conversam com esse pintor simbolista, porque é uma pessoa que lidou com depressão, e encontrou tranquilidade em cores vívidas, alegres, rejeitando um lado sombrio em determinado ponto da sua vida. Pesquisar e achar esse pintor foi uma coincidência propícia.
A morte é personificada por um homem, no livro. Há nessa escolha uma crítica à violência de gênero que vivenciamos hoje no Brasil?
Ariani Castelo – Não necessariamente por ser um homem, mas poderia ser. Tudo converge muito, no livro, para uma crítica, sim, à dinâmica de poder. E a gente tem a dinâmica de poder de um homem sobre uma mulher, mas que também é elevada pela fantasia. Ele não é apenas um homem. Ele é um ser imortal que comanda o espaço e o tempo, com poder extremo. Certamente, há uma crítica sim, à dinâmica de poder, e como a morte se beneficia dela ao longo da história.
Leitores discutem sobre a narrativa de “O abismo de Celina” até numa fila de autógrafos, como você disse. Qual a sua relação com os leitores, sobretudo nas redes sociais, e como vê o mundo digital enquanto potencial de atração de leitores?
Ariani Castelo – Em um nível pessoal, já gosto muito de incluir o leitor na minha experiência de escritora. Acredito que a jornada de um autor costuma ser mais solitária. O leitor também vê a carreira do escritor com um certo misticismo, sem saber como é ser um escritor. Esse leitor está interessado em se aproximar da gente, especialmente quando o livro toca em algum ponto. A gente escreve coisas que são importantes para nós, coisas que nos tocam em pontos específicos. Às vezes o leitor que é tocado, também, quer entender de onde surgiu a escrita, quais as referências, o ponto de partida. É muito legal estabelecer conexão com um leitor que vai te abraçar. Acaba sendo uma relação que ultrapassa o tradicional do que se tinha antigamente de relação entre leitor e escritor, que era extremamente mais distante. Eu respondo os leitores. Em “O abismo de Celina” tem um QR Code em que os leitores podem mandar cartas para o meu e-mail. Também respondo mensagens e comentários.
O que é a provocação na literatura, para você? Quando se sente provocada, como leitora? E de que forma quer provocar inquietação no leitor, como escritora?
Ariani Castelo – Como autora, a maior inquietação que busco provocar diz respeito aos personagens e suas ações. Gosto de trazer personagens que, por mais que estejam em um mundo fantástico, criaturas fantásticas, são em essência humanos. Que esses personagens tenham camadas que façam com que os leitores tenham opiniões diferentes sobre eles, pois cada leitor vai valorizar algo diferente, interpretar uma informação de um jeito diferente, a escolha de um personagem de uma maneira diferente. Gosto da inquietação acerca de dilemas morais. Personagens que fazem coisas horríveis, mas às vezes fazem coisas boas, e entender como o leitor lida com isso. Porque o público pode entrar em colapso, sem entender como uma pessoa faz algo tão bom, mas pode fazer algo horrível. A partir disso, continuamos com esse personagem, ou o abandonamos? Ou criticamos? É bom ver os leitores encarando esses personagens, e sendo confrontados com o que dizem sobre eles mesmos.
Novos Engenhos
Será no Museu do Estado de Pernambuco, nesta quinta, o lançamento do livro de ensaios e artigos de Roberto Azoubel, que reúne textos escritos de 2003 a 2025. Antes dos autógrafos, o autor conversa com Anco Márcio Vieira, h.d. mabuse e Rodrigo Acioli. A partir das 7 da noite, no bairro das Graças, no Recife.
Presunção de inocência
Andréa Nunes lança seu novo romance nesta quinta, 30, em João Pessoa, na Academia Paraibana de Letras. “Presunção de inocência” é publicado pela Flyve, e faz o leitor enveredar pelo suspense em trama que aborda a violência contra as mulheres. A autora, que vive no Recife, é paraibana. A apresentação será feita pelo acadêmico José Nunes, durante o Pôr do Sol Literário, a partir das 5 e meia da tarde.
Entrelinhas
O programa apresentado por Manuel da Costa Pinto recebe nesta sexta, 1º de maio, a filósofa Márcia Tiburi, a escritora Julia Codo, o acadêmico da ABL Ignácio de Loyola Brandão, e o escritor Carlos Rennó. Tiburi conversa sobre seu livro “Ninfa Morta”, sobre a história do feminicídio, e Julia Codo fala sobre seu romance “Caderno de Ossos”. Ainda há a participação de Yuri Al’Hanati, do canal Livrada, e da escritora Bruna Martiolli. Na TV Cultura a partir das 10 e meia da noite.
Vozes do Prêmio Sesc
Os três autores vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2025 apresentam suas obras neste sábado, 2, no Flipoços, em Poços de Caldas. Marcus Groza, autor do romance “Goiás”, Abáz, autor do livro de contos “Massaranduba”, e Leonardo Piana, poeta de “Escalar Cansa”, compõem a mesa “Vozes do Prêmio Sesc de Literatura: romance, conto e poesia em diálogo”, a partir das 18h30. Saiba mais sobre o evento e confira a programação completa em www.flipocos.com.
Feira da Rocha
A Feira do Livro da Rocha, em São Paulo, realiza a segunda edição neste final de semana, de sexta a domingo, na Rua Rocha. As 57 editoras presentes irão expor mais de 20 mil títulos. Na programação gratuita, shows, debates, aulas e atividades para crianças. A organização é da Livraria Simples.