Palavras no passo do frevo
Silêncios se encontram na multidão que dança para cansar o olhar e a voz, enquanto as prévias não passam e a Quarta-feira não chega, desumana
Clique aqui e escute a matéria
A “multidão inumerável” de Manuel Bandeira carrega desejos singulares e esperanças coletivas, como as fantasias vestidas ou pintadas nos corpos, vistas de perto ou de longe. A multidão se encontra do lado de fora, nas ruas, mesmo numa época em que a aldeia global deixa quase todos vivendo remotamente, a maior parte dos dias. A multidão se topa no passo do frevo, do samba, na letra da música entoada de qualquer jeito no coro multiplicado por vozes irmanadas ali, na hora da folia.
E no silêncio de cada um a multidão também se encontra, quando o calor sonoro dá vez à quietude do cansaço que interrompe a maratona do olhar e das cordas vocais. Tambores silenciosos ecoam no peito de quem brinca, lembrando que a solitude não cessa nem ao lado de tantos, espremida por milhares de outras faces que formam juntas o prazer apoteótico dos blocos nos quatro cantos do mundo. No estandarte da gente reunida, a soma dos silêncios não basta para criar um Carnaval.
O Carnaval pede palavras como o frevo pede passos do frevista. Afinal, se a alegria está em nós – “a profunda, a silenciosa alegria...” descrita por Bandeira – é imprescindível dizê-la, nem que seja à letra miúda, descarnavalizadamente.
Maestro Duda
A história do Maestro Duda na música e na cultura de Pernambuco será tema de homenagem da Academia Pernambucana de Letras (APL) nesta segunda, 9. Com as participações de Roberto Pereira e Carlos Eduardo Amaral, e encerramento festivo com a orquestra do Galo da Madrugada. A partir das 3 da tarde, na sede da APL, no Recife, com acesso aberto ao público.
Flávia Iriarte
Fundadora da editora Oito e Meio e da escola online Carreira Literária, Flávia Iriarte publica pela primeira vez um romance, em lançamento da Faria e Silva. Em “Instruções para desaparecer devagar”, a autora “investiga as violências sutis e brutais que moldam a passagem para a vida adulta, especialmente para as mulheres”, de acordo com a divulgação. Para Carola Saavedra, a obra “nos oferece, com pungência e delicadeza, uma travessia que fala, entre outras coisas, sobre ser mulher num mundo construído entre as mais diversas camadas da misoginia”.
Tradução literária
A Universidade do Livro promove mesa-redonda online gratuita sobre a tradução literária como profissão. No encontro virtual, as tradutoras Alzira Allegro, Eliane Fittipaldi e Simone Homem de Mello irão falar sobre suas trajetórias e o mercado para os profissionais de tradução. Será no dia 3 de março, a partir das 7 e meia da noite. Outras informações e inscrições em www.universidadedolivro.com.br.
Mulherança
A Livraria do Espaço, no Espaço Petrobras de Cinema, localizado na Rua Augusta, em São Paulo, recebeu no sábado, 7, o lançamento do livro de estreia de Fabiana Macedo Gonçalves, a Cronista DaNorte. A autopublicação “Mulherança” traz crônicas e textos curtos sobre a vivência do feminino. Saiba mais no Instagram @cronista.danorte.
Batalhas fantasmas
A Patuá está lançando o livro de Paula Soares, que nasceu no Recife e vive em Garanhuns. Aluna de Raimundo Carrero, a advogada e professora reúne, em “Batalhas fantasmas”, contos em que se inaugura como escritora, segundo Carrero, “enfrentando e se despindo das dores do mundo, cruel mundo a que se referem os grandes escritores tocados pela dor e pelo desespero de viver”. Saiba mais em www.editorapatua.com.br.
Paris-Brest
Dez anos após a primeira edição, Alexandre Staut lança “Paris-Brest – Memórias de um brasileiro pelas cozinhas e camas da França”. Mistura de romance de formação, diário de viagem e livro de receitas, a obra chega em versão “mais recheada e apimentada”, segundo o autor, com 54 receitas da gastronomia francesa. A publicação é da Folhas de Relva.
Animais belos e famintos
A Vestígio está lançando a obra de Matthew C. Halteman, com tradução de Rodrigo Seabra. “Animais belos e famintos - Um convite alegre e inspirador ao veganismo” apresenta fundamentos para “escolhas que nutrem o corpo, despertam o cuidado e refletem o mundo em que queremos viver”. Para o autor, que é professor de filosofia na Universidade Calvin, no Michigan (EUA), o veganismo não deve ser visto com rótulo identitário, mas resultado da coerência “entre o que pensamos, sentimos, valorizamos e fazemos”.
Escada literária
A livreira Roberta Castro, da livraria Mantiqueira, em São José dos Campos (SP), fez pose na escada da livraria Livre, em Monteiro Lobato (SP), com pinturas de sua autoria, inspiradas em lombadas de obras de Rachel de Queiroz, Carolina Maria de Jesus, Marcelino Freire, Conceição Evaristo e outros nomes expressivos da literatura. Os títulos fazem parte marcante da vida da proprietária da Livre, Lessandra, grande amiga de Roberta.
Itamar e o tempo
No belo romance “Coração sem medo”, publicado pela Todavia, Itamar Vieira Junior discorre sobre o tempo com minúcia poética, em dois trechos quase em sequência. No primeiro, ao definir um momento, escreve: “em que fração do tempo, em que ponto do espaço”, traduzindo o cruzamento físico que estabelece o referencial duplo para a memória. E duas páginas adiante, a lógica é enriquecida com a descrição do agora como “a memória se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo”. Antes de virar passado, o ser do presente se ancora em um lugar no tempo, para a lembrança do futuro.