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Lei Rouanet: caminho das pedras

Sem cultura de mecenato no país, a busca de captação em projetos aprovados na Lei Rouanet se transforma em disputa por viabilidade para os eventos

Por Fábio Lucas Publicado em 03/01/2026 às 20:13

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Criada em 1991 como incentivo fiscal para a produção cultural, a Lei Rouanet se tornou o caminho mais utilizado para a viabilização de projetos. Mas o trajeto não é fácil – e as pedras no caminho podem ser montanhas para se ultrapassar. O caminho exige criatividade, profissionalização e persistência. Um exemplo bem-sucedido é o do mais tradicional evento literário brasileiro, a Festa Literária Internacional de Paraty – Flip, realizada anualmente na cidade histórica no estado do Rio de Janeiro, que conseguiu demonstrar os impactos positivos para a população local, a partir da mobilização e dos investimentos no município.
Em entrevista para o UBECast, da União Brasileira de Escritores de São Paulo, o diretor da Associação Casa Azul, co-fundador da Flip, Mauro Munhoz, relatou as dificuldades para produzir o evento. “A gente depende da Lei Rouanet. Mas o atrativo da renúncia fiscal não basta para garantir a festa. “Na verdade é dinheiro público, até 4% do que as empresas têm que pagar de Imposto de Renda, podem dar esse recurso para realizar a Flip. Mesmo assim, é extremamente difícil”, conta Munhoz. “Como a gente não tem a cultura do mecenato, o que acontece? O Brasil é um país continental, imagina a quantidade de demanda para financiamento de cultura no território inteiro do Brasil”. Pode-se dizer que a Rouanet virou um funil de financiamento cultural, onde muitos projetos, apesar de aprovados, não obtêm dinheiro para seu custeio.
A memória da Flip serve para ilustrar o problema que combina burocracia e falta de investimento privado na cultura. “Eram duas grandes montanhas para escalar: a primeira, conseguir a Lei Rouanet, a cada ano. A segunda, conseguir as empresas que doassem parte do seu imposto pela Lei Rouanet. A primeira parte, a gente já conseguiu, a Flip é reconhecida como instituição. Pela experiência de urbanidade, de vanguarda, de como a literatura pode transformar a vida de uma cidade inteira, definir a vocação de um território”. Com esse status, o caminho de entrada é menos complicado.
Em comentário público à postagem da UBE-SP no Instagram, a coordenadora do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas – Flipoços, em Minas Gerais, Gisele Ferreira, comentou: “Se até a Flip tem dificuldade de captação de recursos via Lei Rouanet, imagine os demais festivais... é uma triste realidade”. Eventos de grande porte, como as bienais, e de menor escala, como festas e festivais literários, terminam disputando espaço com outros empreendimentos culturais, como shows musicais e filmes para o cinema. Mesmo assim, ainda é a melhor alternativa para fazer os livros, escritoras, escritores e os diversos profissionais do mercado editorial chegarem ao conhecimento do público, num país de poucas livrarias e muitos potenciais leitores.
O episódio completo do UBECast pode ser visto no canal do YouTube da UBE-SP.


Ex-esposa

Lançado de forma anônima em 1929, com 100 mil exemplares vendidos em um ano, o romance de Ursula Parrot é publicado no Brasil, quase um século depois, pela Tordesilhas, com tradução de Beatriz Medina e posfácio de Marc Parrot, filho da escritora. O texto da orelha proclama a atualidade do livro: “Vibrante, espirituoso e espantosamente atual, este clássico redescoberto é uma cápsula do tempo e um espelho – que reflete até onde chegamos ou deixamos de chegar”.


Chamada para a Alpendre

Para quem dispõe de originais em contos, crônicas, ensaios e poemas, a revista Alpendre Literário está com chamada aberta até o próximo dia 20. O texto deve ser enviado pelo e-mail revista.alpendreliterario@gmail.com, juntamente com foto e minibio.


Clube de Leitura Mulher e Literatura

No ano em que celebra uma década de existência, o Clube de Leitura Mulher e Literatura divulgou os títulos que serão lidos e debatidos em 2026. Confira: “Direito das mulheres e injustiça dos homens” e “A mulher”, de Nísia Floresta; “Mesmo rio”, de Elisama Santos; “Feminismo para não feministas”, de Milly Lacombe; “Desvios”, de Vânia Vasconcelos; “Esperança feminista”, de Débora Diniz e Ivone Gebara; “Feminista, eu?”, de Heloisa Teixeira; “Para não acabar tão cedo”, de Clarice Freire; “Coração na aldeia, pés no mundo”, de Auritha Tabajara; “Inferior é o car#lho”, de Angela Saini; “Androrinhando”, de Valdênia Silva”; e “Quem vai fazer essa comida”, de Bela Gil. Outras informações no Instagram @severinasmulheresdosertao.


Oficina com Itamar Vieira Junior

A Caixa Cultural Salvador recebe o escritor Itamar Vieira Junior para a oficina literária presencial “Os caminhos da ficção”, nos dias 27, 28 e 29 de janeiro, das 18h às 21h. Os participantes irão escutar o autor de “Coração sem medo”, seu romance mais recente publicado pela Todavia, a respeito de “caminhos para contar histórias a partir da observação, da memória e da imaginação, explorando personagens, trama, ponto de vista e voz narrativa”, segundo a divulgação. As inscrições gratuitas podem ser feitas a partir do próximo dia 12. Saiba mais no Instagram @caixaculturalsalvador.

 

Renato Parada
Manoela Sawitzki faz oficina na Escrevedeira - Renato Parada


Escrever o romance

Estão abertas as inscrições para o curso online com a escritora Manoela Sawitzki: “Escrever o romance: elementos essenciais” acontece de 19 de janeiro a 2 de fevereiro, às segundas, a partir das 7 da noite. As aulas são ao vivo, e ficam disponíveis para acesso por dois meses. Manoela Sawitzki foi semifinalista do Prêmio Oceanos com o romance “Vinco”, publicado pela Companhia das Letras. Para se inscrever e outras informações, acesse www.escrevedeira.com.br.

 

Pritty Reis
Taylane Cruz é da Academia de Letras de Aracaju - Pritty Reis


Entre a pele e a palavra

Outra opção para o mês de férias é a oficina online de escrita criativa com Taylane Cruz, integrante da Academia de Letras de Aracaju. Com o tema “Entre a pele e a palavra”, a oficina propõe “um mergulho no tempo mítico das nossas palavras, abrindo caminhos para a percepção poética”, segundo a escritora sergipana. De 26 a 28 de janeiro, das 7 às 10 da noite. Mais informações no Instagram @taylanecruz.


Calendário da Cepe

Como já é tradição, a Cepe lançou o Calendário 2026, este ano em homenagem ao centenário de nascimento do compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926 -2006), pernambucano de Flores, no Sertão do Pajeú. Com o tema “A música & a imagem”, o calendário destaca imagens dos fotógrafos Leopoldo Conrado Nunes (também curador do projeto), Daniela Nader, Hélia Scheppa, Heudes Regis, Ricardo Labastier e Roberta Guimarães. Cada página exibe um QR Code que leva a uma música composta pelo homenageado. Nas versões de mesa e de parede, o calendário pode ser adquirido nas livrarias da Cepe.


O sexo do capitalismo

A Elefante traz para o Brasil a obra de Roswitha Scholz, com tradução de Boaventura Antunes. No prefácio para a edição brasileira de “O sexo do capitalismo”, a autora recorda que o livro foi escrito nos anos de 1990. “Muita coisa mudou desde então”, diz. “Enquanto na fase neoliberal se procurava derrubar fronteiras, hoje procura-se demarcar fronteiras por todo lado. As ideologias nacionalistas e etnofundamentalistas ameaçam tornar-se hegemônicas. Mesmo em contextos de esquerda, a lógica identitária vem sendo novamente enfatizada, em contraste com a anterior desconstrução de identidades”, aponta. Segundo a divulgação, o livro de Scholz é “uma contribuição crítica radical não apenas no que se refere à condição das mulheres, mas, sobretudo, a uma leitura da crise civilizacional da qual somos contemporâneos”. Saiba mais no site www.editoraelefante.com.br.

 

Divulgação
Rafael Sento Sé e seu livro - Divulgação


Percurso literário

Rafael Sento Sé aproveita o feriado de São Sebastião, em 20 de janeiro, para seguir os passos de Jane Catulle Mendès em um percurso literário pelo Flamengo, no Rio de Janeiro. “A caminhada começa às 16h, na Praça José de Alencar, endereço do antigo Hotel dos Estrangeiros, onde a poeta se hospedou em 1911, e segue por ruas que ainda guardam marcas daquele Rio da Belle Époque”, segundo a divulgação da editora Autêntica, que publicou “A poeta da Cidade Maravilhosa”, de autoria de Rafael Sento Sé.


Montaigne e o ceticismo aberto

Em entrevista para a revista Continente, da Cepe, na edição de janeiro de 2006 – há 20 anos, portanto – o professor Luiz Eva, hoje na Universidade Federal do ABC, explicou que o ceticismo deve se abrir para o mundo, e não se fechar, para manter a possibilidade da crítica. “O cético que se encontra ilhado nas suas próprias ideias é aquele que é produzido pela reflexão de Descartes e que ele mesmo irá, em certa medida, suplantar por meio de sua metafísica. Mas diversos filósofos céticos ao longo da história me parecem ilustrar bem essa atitude de se abrir para o mundo”, diz o autor de “Montaigne contra a vaidade”, publicado pela Humanitas. Para Luiz Eva, o cético “está permanentemente interessado naquilo que o convide a revisar seu posicionamento. Isso encontraremos em céticos como Montaigne, segundo quem aquele que me contradiz, me instrui”.

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