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Aos 30 anos, o CESAR se define como uma organização nativa de Inteligência Artificial e põe uma mulher para liderar a jornada

Ator importante no ecossistema do Porto Digital, organização projeta R$ 500 milhões de faturamento e atuar em novos modelos de negócios com uso de IA.

Por Fernando Castilho Publicado em 03/08/2026 às 8:00 | Atualizado em 03/08/2026 às 17:30

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Da ampla sala que ocupa no 6º andar, no número 810, da Avenida Alfredo Lisboa, no bairro do Recife, a executiva Karla Godoy pode desfrutar de uma das mais belas paisagens oferecidas pela capital pernambucana, contemplando o encontro do Recife com Olinda numa praia deserta no marco final do porto do Recife.

O escritório é uma espécie de showroom de uma das mais bem-sucedidas ICTs (Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação) no Brasil, criada na Universidade Federal de Pernambuco em 1996, porém, fora do escopo da instituição de ensino, por um grupo de professores que pensaram em replicar no país o modelo consagrado de organizações de pesquisa sem fins lucrativos internacionais focadas na inovação.

Karla Godoy é a primeira mulher a ocupar o cargo de CEO do CESAR, um complexo de prestação de serviços de altíssimo nível e formação de professores e alunos que hoje ocupa, além da lâmina completa de um edifício instalado num complexo empresarial onde funcionou o antigo Moinho Recife, outros três endereços onde atuam 1.500 funcionários e estudam 4.000 alunos.

O CESAR não é uma instituição filantrópica, embora tenha vários programas de apoio a instituições e alunos em situação de vulnerabilidade. O que a diferencia da empresa privada é a decisão de reinvestir todo o lucro no próprio ecossistema da organização (ele se define no mercado com esse termo) enquanto trabalha no desenvolvimento de produtos focados em inovação da tecnologia da informação e formação de pessoal.

Karla Godoy está na organização há 23 anos, desde que entrou para trabalhar na área financeira e concretizar os sonhos dos professores fundadores quando eles partiam para realizá-los. Com o tempo, ela foi sendo convocada para atuar em mais áreas, até assumir a gestão da empresa, quando o Conselho de Administração, formado por 16 associados (com assento para apenas uma mulher), a efetivou no cargo após uma análise completa do futuro da companhia.

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Sede do CESAR no bairro do Recife. - Divulgação

Decisão por gestor vindo da cultura da organização

O conselho optou por entregar a tarefa primeiro, a um gestor que conhecesse a cultura da organização; que estivesse comprometido com o seu propósito e, naturalmente, tivesse capacidade de liderar o desafio de trabalhar com inovação (que está na sua própria origem); além de manter a excelência na formação de profissionais da TI e focar no crescimento num mercado de ICTs (muitos deles organizados com apoio e consultoria do próprio CESAR) cada vez mais competitivo.

Oficialmente, os ICTs são órgãos públicos ou entidades privadas sem fins lucrativos com foco em pesquisa científica, inovação e desenvolvimento de novos produtos ou processos. Trabalham sob fiscalização da CGU e do TCU quando captam verbas públicas. Mas podem prestar serviços ao setor privado quando ele apresenta suas demandas específicas.

Depois de 30 anos, a carteira de clientes do CESAR lista comparações que vão da Petrobras à Motorola, da Stellantis à LG e da Volvo à Dell, HP e Epson apenas para citar algumas.

Hoje, entre as trilhas de serviços em que o CESAR está envolvido estão Óleo e Gás, Energia Elétrica, Mobilidade, Indústria e o setor Financeiro, embora Karla Godoy sempre diga às empresas e instituições que procuram o CESAR pela condição de ser o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, o que, naturalmente, lhe permite atuar em áreas cada vez mais desafiadoras. A mais nova um pacote de demandas no setor de cibersegurança que o levou estrutura um atrilha especifica para o tema.

A executiva faz questão de relembrar a conversa do Conselho quando este a confirmou no cargo. Ela conhece todos há muito tempo, sabe o que eles pensam sobre o papel da organização e, em alguns casos, mantém com eles uma relação de mentoria em suas próprias carreiras como executivas.

Mas, exatamente pelo nível de governança que o CESAR atingiu, as determinações foram muito mais específicas. Talvez porque estivessem lhe entregando o comando de uma nova jornada.

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Ambiente interno da sede do CESAR no Porto Digital. - Divulgação

Tarefa principal é ser uma organização IA Native

Essas exigências estão centradas em três grandes objetivos. Reforçar a sua característica de ator comprometido com a pesquisa, a educação e a inovação e atender às demandas do mercado; ser uma organização IA Native e estar preparada para explorar novas áreas, sendo capaz de ofertar e atender ao mercado dentro do escopo e do legado do CESAR em seus 30 anos de atividades.

Esse pacote de exigências em função do propósito da organização leva ao CESAR School que é conceito 5 (nota máxima) na avaliação no MEC (IGC). Leva ao desafio de reforçar a capacidade de transformação que ele possui, na qual a Inteligência Artificial se apresenta como ferramenta para um novo modelo de negócios.

Um dos programas de maior sucesso é o FAST – Formação Acelerada em Soluções de TechDesign, um programa online e gratuito desenvolvido pelo CESAR em parceria com a Softex e o MCTI Futuro.

Claro que, com 4 mil alunos nos seus oito cursos de graduação, mestrado e doutorado, o CESAR leva vantagem sobre os ICT concorrentes porque proporciona a aplicação do lema da companhia de aprender com quem faz, onde quem ensina está trabalhando em projetos demandados pelo mercado para atender necessidades reais e, não raro, urgentes.

No ano passado, o CESAR executou aproximadamente R$ 435 milhões em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).

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CESAR Scholl que abriga mais de 4 mil alunos em oito cursos. - Divulgação

Marca de ser organização voltada para a inovação

Mas Karla Godoy faz uma advertência importante. Somos uma organização voltada para a inovação. Está na nossa origem atuar, incentivar e participar de projetos cujo propósito seja a inovação. Naturalmente seguindo os nossos padrões de ética e governança e compromisso com a sociedade e o ecossistema no qual estamos inseridos.

Isso se traduz numa atualização da postura do CESAR no ecossistema do Porto Digital, em que o CESAR se tornou uma das âncoras do maior complexo de TI do Norte e Nordeste, um dos três maiores do Brasil, envolvendo negócios acima de R$ 1 bilhão em 2025, gerando mais de 15 mil postos de trabalho e a maior concentração, por 100 mil habitantes, de mestres e doutores na área de TI do país.

Ter maior conexão com o Porto Digital

No ecossistema de TI, Porto Digital e CESAR (onde mais de 1.700 startups foram impulsionadas nos últimos anos) são marcas de referência, mas uma das missões contidas nas tarefas que o Conselho de Associados impôs à executiva foi ampliar a conexão com o Porto Digital.

Felizmente, essa determinação chega no momento em que o Porto Digital traz ao mercado uma de suas mais arrojadas ferramentas: a constituição do NERD (Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital), uma nova plataforma de negócios e centro de inovação de forma estruturada num investimento inicial de R$ 18,5 milhões do Governo de Pernambuco e da Finep.

O CESAR, que hoje abriga quinze startups, estará no NERD e ampliará essa presença, até porque o objetivo do NERD é ajudar a alavancar empresas com mentorias, orientação e consultoria e até residência empresarial.

Mas todo esse pacote de tarefas de Karla Godoy tem como essência a determinação de o CESAR ser uma IA Native. Até porque será através desse veículo que a organização trabalhará seu futuro.

Ser uma IA Native é, de fato, um caminho natural pela própria essência da organização de entender desde o primeiro momento que a Inteligência Artificial é uma ferramenta que impacta todos os seus modelos de negócios. Mas que a leva para novos modelos de negócios no próprio ecossistema em que está inserida.

Tiago Nunes
Karla Godoy CEO do CESAR - Tiago Nunes

Novos orquestradores de Inteligência Artificial

Isso não acontecerá apenas como CESAR. Esse (re)posicionamento se dará em todos os ICTs, o que faz com que a força do CESAR não atue apenas nessa nova cadeia de negócios e na atual como um celeiro não só de usuários de IA como ferramenta, mas também de fazê-los orquestradores de informação tecnológica.

Isso põe o desafio do CESAR em outro nível porque o uso da IA impacta tudo o que ele faz, seja na prestação de serviços, seja na formação de seus alunos que estão no CESAR School, que terão que incorporar a IA como ferramenta na formação acadêmica para levá-la ao mercado.

Mas essa é uma vantagem que a organização, por sua característica, possui. Poder fazer isso em tempo real da escola ao produto a ser entregue ao cliente. De poder executar em escala de aprendizado visando as novas entregas.

O desafio da nova CEO do CESAR,como se pode observar de fora, é muito grande, embora desafiador. E ela acha que a maior presença no Porto Digital, cuja orquestração no uso da IA vai impactar o próprio ecossistema que foi instalado no bairro do Recife e se tornou um exemplo de classe mundial.

Ela viveu esse processo e afirma que o CESAR é uma organização que acredita no conhecimento, na colaboração e na capacidade de transformar desafios em oportunidades. “Meu compromisso é preservar essa essência, plantada em 1996, enquanto ampliamos nosso impacto e seguimos construindo o futuro da inovação brasileira.”

Faz sentido. Talvez porque, no fundo, ser nativa em IA seja não apenas uma forma de se reposicionar no mercado de ICTs, de serviços e de apoio à sociedade como agente transformador de pessoas, mas de ter um novo propósito tão ambicioso como o daquele grupo de pessoas que há 30 anos na universidade pensaram ser mais que professores e se envolveram na arte do fazer.

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Imagem de Fernando Castilho

Fernando Castilho

castilho@jc.com.br

É jornalista desde 1977 e formado pela Unicap. É Mestre em Ciências da Linguagem desde 2018. Já atuou no Jornal do Brasil, O Globo e Diário de Pernambuco. Assina a Coluna JC Negócios desde 1998, tendo apresentado programas de Economia nas TVs Tribuna e Jornal. Escreve sobre mídia digital e apresenta o programa Momento Econômico na Rádio Jornal de segunda a sexta, às 17h30