Quando a política entra no mercado de consumo, o consumidor perde a confiança no produto e a indústria perde a reputação conquistada por décadas
Chocolate BIS, sandálias Havaianas e detergente Ypê sofreram campanhas de difamação nas redes sociais e precisam reconstruir imagem de seriedade.
Clique aqui e escute a matéria
No noticiário dos jornais de marca e nas redes sociais, o Brasil está, de novo, num debate político absurdo sobre a reputação de uma marca de prestígio no mercado depois que a Anvisa determinou o recolhimento de todos os lotes que terminam com o número 1 de saneantes produzidos pela Química Amparo Ltda.
Ao todo, 17 itens devem ser recolhidos, embora a agência advirta que eles não devem ser descartados até o julgamento pela Diretoria Colegiada da Anvisa, previsto para ocorrer nos próximos dias. O número um tem a ver com o CNPJ da empresa que indica ter sido fabricado na planta matriz da companhia. Aquele famoso 0001.
Segundo a Anvisa, a medida atingiu apenas lotes específicos terminados em número 1 e foi adotada após inspeção sanitária realizada entre 27 e 30 de abril em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e a Vigilância Sanitária de Amparo
Mas, antes de esclarecer a confusão que existe na mídia, é preciso esclarecer duas coisas. A Química Amparo Ltda., está tendo seus produtos interditados porque, como diz a Resolução da Anvisa, descumpriu o Regulamento Técnico de Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes.
Mesmo tendo sido autuada em 26 de novembro de 2025 quando teve a suspensão, comercialização, distribuição e uso por ter a Anvisa detectado a contaminação microbiológica por Pseudomonas aeruginosa detectada em análises conduzidas pela empresa fabricante.
Aparentemente, a empresa não atendeu às recomendações da Resolução-RE Nº 4.755 da Gerente-Geral Substituta de Inspeção e Fiscalização Sanitária da Agência, Fernanda Maciel Rebelo, do ano passado, de modo que a mesma funcionária da Anvisa mandou suspender a comercialização dos 17 produtos depois de seis meses.
Também, aparentemente, se pode afirmar que o caso da Ypê é um daqueles descuidos de uma empresa com boas práticas que ela mesma tem nas demais plantas e que na empresa-mãe jamais se justificariam.
Pouca gente lembra, mas em abril a Ypê abriu uma nova fábrica e um novo Centro de Distribuição em Itapissuma, na RMR, num investimento de R$ 420 milhões, depois de outra planta em Simões Filho (BA) , dentro de seu plano de aproximação da empresa com o consumidor nordestino.
A Ypê não é uma empresa comum, tem mais de 75 anos e todas as certificações de segurança, está na lista do GPTW e recentemente recebeu certificação internacional. E em 2020 comemorou a marca de ter ajudado a plantar 1 milhão de árvores na Mata Atlântica e no ano passado entrou na lista das marcas mais valiosas do Brasil. Portanto, não é uma empresa de fundo do quintal.
O problema da Ypê é que sua alta gerência não percebeu o potencial do estrago de reputação da marca âncora com a advertência da Anvisa e não cuidou de revisar seus processos na fábrica Amparo, inaugurada em 1980 e de onde o complexo se espalhou.
A Anvisa não voltou à unidade por acaso. Não foi, por exemplo, para as demais plantas. E não há informações de que o grupo esteja com dificuldades para cumprir as chamadas Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes. Porque nas demais unidades não há informações de proibição de produtos da agência.
E isso não só desmoralizou todo o histórico de cuidado da empresa ao longo de 75 anos, mas serviu de mote para a exploração política do caso que só prejudica a companhia.
Quando o vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), sugeriu nas redes sociais o uso de produtos da Ypê, apesar de alertas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ela atrapalha.
Quando uma pessoa que se diz bolsonarista publica nas redes sociais um vídeo em que aparece supostamente bebendo o detergente após a decisão da Anvisa, prejudica mais a empresa do que ajuda porque ninguém bebe detergente sem problemas gástricos. Mas acontece.
E isso aconteceu em outubro de 2023, quando uma nova campanha publicitária do chocolate Bis, realizada pelo influenciador digital Felipe Neto, gerou disputa entre parlamentares governistas e bolsonaristas.
Como aconteceu com a campanha de fim de ano da Havaianas lançada em dezembro de 2025, que estrelou a atriz Fernanda Torres, a campanha gerou um forte movimento de boicote por parte de apoiadores de Bolsonaro.
A polêmica surgiu quando a atriz disse não desejar que as pessoas começassem 2026 "com o pé direito", frase interpretada pela direita como provocação política, resultando em reações nas redes sociais e queda no valor de mercado da Alpargatas.
Nos dois casos, as empresas recuperaram vendas e até as ampliaram. Mas precisaram cuidar de refazer o caminho da reputação. Claro que eles não sofreram punição da Anvisa, mas sua imagem foi associada negativamente.
E serve para as empresas cuidarem de sua imagem a partir de processos porque quando a crise chega, é o ataque à imagem que vem primeiro.