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Quando a política entra no mercado de consumo, o consumidor perde a confiança no produto e a indústria perde a reputação conquistada por décadas

Chocolate BIS, sandálias Havaianas e detergente Ypê sofreram campanhas de difamação nas redes sociais e precisam reconstruir imagem de seriedade.

Por JC Publicado em 12/05/2026 às 9:30

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No noticiário dos jornais de marca e nas redes sociais, o Brasil está, de novo, num debate político absurdo sobre a reputação de uma marca de prestígio no mercado depois que a Anvisa determinou o recolhimento de todos os lotes que terminam com o número 1 de saneantes produzidos pela Química Amparo Ltda.

Ao todo, 17 itens devem ser recolhidos, embora a agência advirta que eles não devem ser descartados até o julgamento pela Diretoria Colegiada da Anvisa, previsto para ocorrer nos próximos dias. O número um tem a ver com o CNPJ da empresa que indica ter sido fabricado na planta matriz da companhia. Aquele famoso 0001.

Segundo a Anvisa, a medida atingiu apenas lotes específicos terminados em número 1 e foi adotada após inspeção sanitária realizada entre 27 e 30 de abril em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e a Vigilância Sanitária de Amparo

Mas, antes de esclarecer a confusão que existe na mídia, é preciso esclarecer duas coisas. A Química Amparo Ltda., está tendo seus produtos interditados porque, como diz a Resolução da Anvisa, descumpriu o Regulamento Técnico de Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes.

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Fernanda Torres - Divulgação

Mesmo tendo sido autuada em 26 de novembro de 2025 quando teve a suspensão, comercialização, distribuição e uso por ter a Anvisa detectado a contaminação microbiológica por Pseudomonas aeruginosa detectada em análises conduzidas pela empresa fabricante.

Aparentemente, a empresa não atendeu às recomendações da Resolução-RE Nº 4.755 da Gerente-Geral Substituta de Inspeção e Fiscalização Sanitária da Agência, Fernanda Maciel Rebelo, do ano passado, de modo que a mesma funcionária da Anvisa mandou suspender a comercialização dos 17 produtos depois de seis meses.

Também, aparentemente, se pode afirmar que o caso da Ypê é um daqueles descuidos de uma empresa com boas práticas que ela mesma tem nas demais plantas e que na empresa-mãe jamais se justificariam.

Pouca gente lembra, mas em abril a Ypê abriu uma nova fábrica e um novo Centro de Distribuição em Itapissuma, na RMR, num investimento de R$ 420 milhões, depois de outra planta em Simões Filho (BA) , dentro de seu plano de aproximação da empresa com o consumidor nordestino.

A Ypê não é uma empresa comum, tem mais de 75 anos e todas as certificações de segurança, está na lista do GPTW e recentemente recebeu certificação internacional. E em 2020 comemorou a marca de ter ajudado a plantar 1 milhão de árvores na Mata Atlântica e no ano passado entrou na lista das marcas mais valiosas do Brasil. Portanto, não é uma empresa de fundo do quintal.

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Humberto Costa - Divulgação

O problema da Ypê é que sua alta gerência não percebeu o potencial do estrago de reputação da marca âncora com a advertência da Anvisa e não cuidou de revisar seus processos na fábrica Amparo, inaugurada em 1980 e de onde o complexo se espalhou.

A Anvisa não voltou à unidade por acaso. Não foi, por exemplo, para as demais plantas. E não há informações de que o grupo esteja com dificuldades para cumprir as chamadas Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes. Porque nas demais unidades não há informações de proibição de produtos da agência.

E isso não só desmoralizou todo o histórico de cuidado da empresa ao longo de 75 anos, mas serviu de mote para a exploração política do caso que só prejudica a companhia.

Quando o vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), sugeriu nas redes sociais o uso de produtos da Ypê, apesar de alertas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ela atrapalha.

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Felipe Netto - Divulgação

Quando uma pessoa que se diz bolsonarista publica nas redes sociais um vídeo em que aparece supostamente bebendo o detergente após a decisão da Anvisa, prejudica mais a empresa do que ajuda porque ninguém bebe detergente sem problemas gástricos. Mas acontece.

E isso aconteceu em outubro de 2023, quando uma nova campanha publicitária do chocolate Bis, realizada pelo influenciador digital Felipe Neto, gerou disputa entre parlamentares governistas e bolsonaristas.
Como aconteceu com a campanha de fim de ano da Havaianas lançada em dezembro de 2025, que estrelou a atriz Fernanda Torres, a campanha gerou um forte movimento de boicote por parte de apoiadores de Bolsonaro.

A polêmica surgiu quando a atriz disse não desejar que as pessoas começassem 2026 "com o pé direito", frase interpretada pela direita como provocação política, resultando em reações nas redes sociais e queda no valor de mercado da Alpargatas.

Nos dois casos, as empresas recuperaram vendas e até as ampliaram. Mas precisaram cuidar de refazer o caminho da reputação. Claro que eles não sofreram punição da Anvisa, mas sua imagem foi associada negativamente.

E serve para as empresas cuidarem de sua imagem a partir de processos porque quando a crise chega, é o ataque à imagem que vem primeiro.

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