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Como a Venezuela foi de fundadora da OPEP ao sucateamento de sua indústria do petróleo única riqueza capaz de bancar seu desenvolvimento

Maior empresa petrolífera da América Latina bancou os programa sociais de Chávez e Maduro enquanto sua produção despencou por falta de modernização

Por Fernando Castilho Publicado em 09/01/2026 às 0:05

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Quando em 15 de setembro de 1960, em Bagdá, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP (em inglês, OPEC), a Venezuela estava entre os cinco membros fundadores (Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita).

Hoje, a entidade tem 14 membros: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Líbia, Nigéria e Venezuela ainda é a única representante da América do Sul.

Como no Iraque

Mas assim como aconteceu com o Iraque, seu destino parece estar condenado pela interferência dos Estados Unidos. Especialmente, agora que o governo Trump simplesmente usa sua força militar para, literalmente, tomar a única riqueza daquele país.

O gesto dos Estados Unidos marca uma mudança de comportamento que assusta o mundo. Além de consolidar a perturbadora ideia de sair da condição de ser a Polícia do Mundo que marcou sua presença depois da Segunda Guerra Mundial para se apresentar como “dona” de parte do mundo no seu mais amplo sentido etimológico.

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Delcy Rodríguez com Nícolas Maduro - Divulgação

Hugo Chávez

O problema é que, para a infelicidade dos venezuelanos, a chegada ao poder do líder Hugo Chávez, em 1999, e a assunção de Nicolás Maduro, em 2013, todo o tesouro que existe no subsolo e no mar da Venezuela vem sendo inexplorado a ponto do país extrair em 2025 menos de 700 mil barris por dia.

A Venezuela estava em linha com os sheiks da Arábia Saudita na solenidade de criação da OPEP. Em 1970, atingiu um pico, com 3,7 milhões de barris por dia. Porém, em 2017 passou de uma produção de 1,9 milhão de b/d.

Bateu no piso

O relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo diz que em 2018, o país reduziu a média de 1,3 milhão de barris e vinha produzindo somente 697 mil barris/dia, ano passado, segundo dados da Opep. Em outubro de 2025, a produção caiu para 685 mil b/d.

O problema dessa queda é que ela é resultado de uma enorme defasagem tecnológica na extração. Em 1990, quando produzia 2.100 milhões de barris/dia, ela tinha uma tecnologia de ponta no mar que era semelhante à das empresas americanas. Naquele ano, o Brasil extraia apenas 633 mil barris/dia.

Petrobras

Hoje o Brasil, pelo que conseguiu em termos de tecnologia no pré-sal, encontra-se no Estado da Arte de exploração em águas profundas. Em 2024, o país fechou com 3,552 milhões de barris, assumindo a liderança na América Latina desbancando o México.

Um bom exemplo desse conhecimento está no último dia de 2025, na quarta-feira, dia (31), da produção de petróleo do navio-plataforma P-78, no campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos. Sozinha, a Búzios 6 (P-78) possui capacidade de produzir 180 mil barris de óleo e 7,2 milhões de m³ de gás diários.

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Navio-plataforma P78, no campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos extrai 180 mil barris por dia - Divulgação

Plataforma gigante

A P-78 é uma unidade do tipo FPSO (sistema flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo, da sigla em inglês) e inaugura uma nova família de projetos de unidades próprias da estatal. Ela está equipada com tecnologias para redução de emissões e mais eficiência operacional, destacando-se o sistema de recuperação de gases de queima.

O gigante de 345 metros atende 13 poços, sendo 6 produtores e 7 injetores, equipados com sistemas de completação inteligente, que potencializam o gerenciamento da produção e serão interligados com dutos rígidos de produção, injeção e exportação de gás.

Sem peças

Nada disso está disponível hoje na PDVSA. E mesmo com a Venezuela tendo uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a falta de investimento por mais de uma década na infraestrutura provocou a fuga de mão de obra (inclusive para o Brasil), motivando a queda vertiginosa da produção ao longo dos últimos anos. Programas

Talvez o maior problema da Venezuela tenha sido a transformação da estatal petrolífera Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) em instrumento político atraindo a corrupção, o que levou o país a perder posições no ranking dos maiores produtores de petróleo da América Latina nos últimos 25 anos.

Programas sociais

Em 2015, quando o petróleo chegou a representar mais de 95% das receitas em dólar da Venezuela, Nicolás Maduro acelerou o processo da PDVSA para aumentar os subsídios e apoio a programas sociais. A política drenou caixa e foco, levando a estatal a perder capacidade de investir na atividade-fim.
Na verdade, quando a PDVSA deixou de ser competitiva e os Estados Unidos aumentaram a pressão sobre sua economia, as próprias empresas americanas deixaram o país. Ficou apenas a Chevron que agora pode ser beneficiada pelo conhecimento local.

Como gerenciar

Um dos maiores desafios do governo da presidente interina de Venezuela, Delcy Rodríguez, portanto, é organizar minimamente os parâmetros da economia ancorada no petróleo e na reestruturação da PDVSA.

O governo de Maduro deixou de divulgar índices macroeconômicos há vários anos, dificultando análises. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima em US$49 bilhões o tamanho do produto interno bruto (PIB) da Venezuela em 2020, o dado mais recente disponível.

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Donald Trump, presidente dos EUA - Divulgação

Sem moeda e óleo

E mesmo que Donald Trump esteja, de fato, interessado apenas em assumir o controle das vendas de petróleo, Delcy Rodríguez tem um país para administrar.

No mundo real da economia, quando Trump diz “Vamos usar petróleo, e vamos tirar petróleo. Estamos baixando os preços do petróleo, e vamos dar dinheiro à Venezuela, algo de que eles precisam desesperadamente”, abre uma avenida de incertezas.

Que governo?

Como Delcy Rodríguez poderá administrar o país sem dinheiro? E como ficarão as relações comerciais das vendas de petróleo que China e Rússia compraram para ajudar Maduro a se manter no poder?

Segundo dados não confirmados, Nicolás Maduro estava vendendo sua produção para Sinopec Group (China) - 2,8 bilhões de barris, Ao Zarubezhneft (Rússia) - 2,3 bilhões, CNPC (China) - 1,6 bilhão, Chevron (EUA) - 900 milhões e a PetroVietnam (Vietnã) - 600 milhões. Era o caixa do país. A diferença está nos interesses de Xi Jinping e Vladimir Putin.

China x Rússia

A China, de fato, precisa de petróleo e ao comprar 4,4 milhões de barris quer usá-lo no seu mercado interno. Mas os 2,3 milhões de barris da Rússia não têm qualquer importância porque o país tem petróleo sobrando. E talvez esteja até repassando para os parceiros processarem o óleo venezuelano. Para Putin o que ingressa é trocar esse óleo por equipamento bélico.

No fundo a Venezuela sem gerir a conta do seu petróleo perde o sentido de ter um governo. E se isso se tornar um processo, teremos o caso de um país cujo governo existirá como a mesada paga por outro - os Estados Unidos. Não sei como funcionar.

 

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População da Venezuela sofre para comprar comida. - Divulgação

Chavismo nunca estimulou produção de alimentos

O relatório da Human Rights Watch de 2024 - que entre outros temas trata do aumento da repressão na Rússia e na Índia aos catastróficos conflitos armados em Gaza, no Sudão e na Ucrânia - incluiu um texto sobre a Venezuela.

O texto repete uma informação conhecida de que mais de 20 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza multidimensional, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, incluindo alimentos e medicamentos. E estima-se que 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014.

Eleições e fraude

O documento lembra que após as eleições questionadas internacionalmente o governo da Venezuela intensificou a repressão antes das eleições, que incluiu detenções de membros da oposição — muitos dos quais permanecem arbitrariamente detidos, com paradeiro desconhecido. A HRW recebeu informação confiável de 23 assassinatos de manifestantes e transeuntes.

Mas para quem se chocou com crianças desnutridas na Faixa de Gaza, organizações internacionais afirmam que milhões de pessoas na Venezuela simplesmente não têm o suficiente para comer. Um relatório de 2018 indicava que 55% das crianças venezuelanas menores de cinco anos sofriam de subnutrição.

Salário mínimo

Acredite: Em janeiro de 2026, o salário mínimo equivale a cerca de R$2,34 por mês. Em 2021, o Banco Central da Venezuela cortou 6 zeros da moeda para tentar conter a inflação. Em treze anos, 14 zeros foram cortados do bolívar. Essa situação transformou o país numa nação de pessoas que fazem bicos. Segundo o Global Entrepreneurship Monitor, um centro de estudos que atua no país, 16% da população está começando um novo negócio.

Depois da pandemia do Covid-19, a economia venezuelana se recuperou um pouco no final de 2021. Foi após o governo do presidente Nicolás Maduro flexibilizar os controles da economia e permitir transações em moedas estrangeiras em 2019, dando oxigênio a vários setores. Mas a crise voltou a se agravar com as sanções dos Estados Unidos e Maduro foi buscar apoio na China e na Rússia.

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Protesto pela falta de comida na Venezuela. - Divulgação

Sem proteína

O problema é que nem China nem Rússia vendem comida. Na verdade, os dois são grandes importadores do Brasil de proteína animal e vegetal. Ou seja, poderiam comprar petróleo, mas no máximo venderiam armas e equipamentos.

O Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), responsável pela Pesquisa Nacional de Condições de Vida (Encovi), em 2024, afirmou que as desigualdades de renda continuam na Venezuela.

Ricos e pobres

A diferença entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres é de quase 35 vezes. A renda per capita do estrato mais pobre é de 10 dólares por mês. Do mais alto, é de 347,2 dólares.

Os economistas listam três grandes fatos que arruinaram a economia da rica Venezuela do passado: a que do preço do petróleo em 2014, em parte devido à recusa de Irã e Arábia Saudita - dois grandes produtores - em assinar um compromisso para reduzir a produção; o foco total no petróleo e usando parte do dinheiro das exportações para sustentar programas sociais e, finalmente, a hiperinflação de 2017 que provocou uma pulverização da renda e a pobreza aumentou.

Ignora o campo

Para completar, o chavismo nunca se preocupou com o desenvolvimento agrícola e industrial do país. O caso de desprezo da Venezuela com a produção agrícola é impressionante.

Em março de 2008, no Palácio Campo das Princesas, no Recife, em cerimônia que fazia parte do encontro dos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Venezuela, Hugo Chávez, assinou um acordo em que o Brasil colocava a Embrapa para organizar um sistema agrícola em bases modernas. O acordo não teve sucesso.

  Ricardo Stuckert PR
Lula da Silva, Janja com o casal Nicolas Maduro - Ricardo Stuckert PR

Embrapa fora

O Instituto Nacional de Investigações Agrícolas (INIA) deveria liderar iniciativas focadas em melhoramento genético de forrageiras, biotecnologia reprodutiva para bovinos/ovinos/caprinos. A Embrapa faria a transferência de tecnologia para diversas áreas como produção de aves e agricultura. Não deu certo.

Entretanto, em maio de 2023, durante a famosa visita do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao Brasil, os dois países assinaram um novo Memorando de Entendimento sobre Cooperação Agrícola, desta vez com Nicolás Maduro.

Chama o MST

De novo não deu certo. Na verdade, Maduro queria que o MST ajudasse a organizar os trabalhadores rurais a se organizarem. Tanto que no ano seguinte ele anunciou o início de uma parceria com o MST com o objetivo de desenvolver a produção agrícola em regime de cooperativas. Dois anos após a visita, Nicolás Maduro entregou 180 mil hectares de terras expropriadas para o MST do Brasil. Nenhuma palavra sobre a Embrapa.

Curiosamente a Venezuela tem áreas agricultáveis. As regiões agrícolas da Venezuela são os Llanos (planícies) focados em pecuária e grãos, os Andes e a Cordilheira Norte em café, cacau e culturas de montanha, o Zulia com agricultura comercial.

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Venezuela: população vive de comércio ambulante. - Divulgação

Terra agricultáveis

Ainda existe potencial na Bacia do Orinoco, oferecendo terras úmidas para diversas produções, destacando-se cultivos como milho, cana-de-açúcar, arroz, café, cacau, banana e frutas tropicais, com foco crescente na agricultura familiar e agroecologia.

Mas a grande dificuldade é que tanto Chávez como Maduro, que fizeram desapropriações, não têm foco na produção. Na verdade, a Venezuela simplesmente não tem como alimentar sua população. E nunca se interessou em desenvolver uma cultura de agricultura moderna que ao menos levasse à produção mínima de proteína.

Talvez porque sempre tenha acreditado que o dinheiro do petróleo lhe permitiria comprar comida, especialmente do Brasil.

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