Delcy Rodríguez assume Venezuela depois de ter conversado com interlocutores de Donald Trump sobre um novo governo ancorado no petróleo
Vice-presidente foi a negociadora de redução das restrições dos Estados Unidos ao petróleo da Venezuela e subsidiárias da PDVSA no governo Maduro
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De tudo que foi publicado (especialmente como análises de professores e analistas internacionais já que o governo americano não revelou muita coisa), uma coisa parece bastante clara.
Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou neste sábado (3) que os americanos irão permanecer na Venezuela e "essencialmente comandar o país" até que uma transição política ocorra, estava falando que contavam com ou trabalhavam com a colaboração da vice-presidente, Delcy Rodríguez.
Esqueçam as declarações tanto dele afirmando que ela poderia pagar "um preço muito alto se não fizer o que é certo”. Ou dela que repetidamente afirmou que Maduro era o “único presidente” da Venezuela. Tudo parece estar combinando.
O que parece claro é que Delcy Rodríguez vinha conversando nos últimos meses com interlocutores americanos e se provou muito mais confiável que a líder Maria Corina Machado, que não passou segurança nas conversas sobre como conduziria o país.
Para se entender o que aconteceu na Venezuela, é preciso considerar que Donald Trump não pretende mudar o regime construído desde 1999 por Hugo Chávez e que Nicolás Maduro, ao assumir em 2013 corrompeu com a entrega de partes do poder a militares corruptos e forças militares.
Donald Trump quer apenas mudar o governo encontrando um novo interlocutor se possível, mais preparado intelectualmente que o tosco Nicolás Maduro e essa pessoa dentro da estrutura de poder é Delcy Rodríguez.
Filha de um guerrilheiro marxista que ganhou fama ao sequestrar um empresário americano, Delcy tem uma vida no chavismo. Mas ela foi educada parcialmente na França, onde se especializou em direito trabalhista, ganhou força dentro do regime chavista até ser alçada ao posto de vice-presidente.
Sempre é bom lembrar. Nicolás Maduro mal concluiu o ensino médio, era motorista de ônibus e virou sindicalista, sem formação universitária formal. Ele tinha dificuldades de entender o cenário global onde a Venezuela estava inserida como detentora da maior reserva mundial de petróleo.
Sem conexões com o estamento militar
Claro que representantes de Donald Trump procuraram Maria Corina Machado. Mas a conversa parou na pergunta principal: Quais são suas conexões com o estamento militar? A senhora conversa com o general Vladimir Padrino López, Defesa das Forças Armadas? Nem ela nem o candidato da oposição nas últimas eleições, Edmundo González, têm essa interlocução.
A conversa parou por aí porque não dá para pensar numa transição de Machado e González confrontando com Padrino López. Porque o general vai estar no próximo governo, seja ele qual for.
Tem mais, enquanto Maduro fazia dancinhas na TV Estatal ridicularizando Donald Trump, Delcy Rodríguez conversava com intermediários de Washington e se convenceu de que ela protegeria e promoveria futuros investimentos energéticos americanos no país.
Então, quando os americanos prenderam Nicolás Maduro e a Suprema Corte do país também determinou que ela assumisse o comando do país, as coisas ficaram mais claras.
E quando o presidente americano afirma que pretende atuar com um governo interino, ele só tem a opção de trabalhar com a vice-presidente Delcy Rodríguez.
As pessoas esquecem que aquela estupidez de Elon Musk de acabar com as agências de cooperação americanas provocou um estrago que ficou claro na preparação da operação, pois não havia contato amplo no território. O comando da operação teve que usar tudo que era equipamento furtivo e de observação de satélite porque não tinha gente civil no território.
Essa operação vai ficar na história como uma ação 100% militar completamente estruturada pelas forças armadas e pela CIA porque não havia gente nas agências na Venezuela. O que explica a tensão na realização e mobilização colossal de aviões de apoio para intervir no caso de uma reação das forças armadas.
Donald Trump quer uma mudança de governo
Mas a vida precisa seguir sem Nicolás Maduro e, se possível, sem muita movimentação interna. O que não quer dizer que a banda que estava ligada a Nicolás Maduro não passe a temer pelo seu futuro no caso de uma mudança de governo.
Difícilmente Delcy Rodríguez, no comando da Venezuela, vai manter o apoio daqueles grupos de paramilitares que Maduro armou contra a vontade dos militares de carreira. Não vai demorar muito para que esses grupos sejam desmobilizados, o que deve provocar reação.
Mas o que vai contar é o negócio de petróleo. Donald Trump tem uma marca que é dizer claramente o que pensa e ele disse que quer fazer do petróleo venezuelano um negócio de empresas americanas.
Então, é preciso esperar um pouco sobre como vão se comportar os líderes que ficaram que detêm o poder de fato. Claro que a PDVSA vai ser um agente importante, podendo voltar aos tempos em que era uma das maiores empresas do setor no mundo.
A empresa tem expertise de extração e refino e foi sucateada pelas restrições impostas ao governo Maduro por mais de uma década. Se o novo governo ajustar um programa de cooperação com a Venezuela, volta com força total.
E isso inclui a presença nos Estados Unidos onde ela tem uma subsidiária que no final do mês teve sua licença prorrogada que protegeu a Citgo Petroleum. Por isso é que a partir desta segunda-feira (5) todo mundo vai prestar atenção em Delcy Rodríguez.
Quem não acompanha sua presença no governo Maduro nem percebe que ela não era uma vice decorativa. Na verdade, como ministra do petróleo, ela cuidou dos ativos estatais e a política fiscal relativamente conservadora deixou a Venezuela melhor preparada para resistir ao bloqueio do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
E mesmo Donald Trump dizendo de forma histriônica que vai nomear conselheiros não dá para imaginar civis descendo em Caracas contra a vontade de Delcy Rodríguez e dando ordens.
Enquanto isso, Lula, a ONU, o pessoal da Celac, a Rússia, a China e os demais países vão continuar protestando em notas. Mas quem vai ter que cuidar do governo venezuelano é Delcy Rodríguez. E os militares que a apoiam depois de se livrarem de Maduro.